Brasil vive inflação de escassez pela 1ª vez desde Plano Real, dizem economistas

Falta de semicondutores afeta a produção industrial, principalmente a indústria automotiva

Moedas de um real
Moedas de um real 15/10/2010REUTERS/Bruno Domingos

Stéfano Sallesda CNN

do Rio de Janeiro

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O IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15) de 0,89% registrado em agosto foi o pior para mês nos últimos 18 anos. Economistas entendem que o resultado revela um cenário inédito: pela primeira vez desde a adoção do Plano Real, o Brasil enfrenta inflação motivada por escassez. Geralmente, o aumento de circulação do dinheiro ocorre pelo excesso de demanda, que impulsiona os preços.

O problema é mais percebido especificamente na indústria automotiva, onde os prazos para entrega de carros novos ultrapassa 120 dias. Isto tem aquecido, por consequência, o mercado de usados. Para reduzir os atrasos, veículos têm chegado ao mercado sem acessórios.

Um levantamento da consultoria Luvi One destaca que, apesar dos problemas econômicos enfrentados pelo país desde então, com explosão do sistema de bandas cambiais, crise energética, risco eleitoral e instabilidade política, o momento apresenta uma novidade: a falta de insumos. Há escassez de semicondutores, aço, madeira e algodão, como aponta oCEO da empresa, o economista Felipe Guterres.

“Nunca enfrentamos nada igual no período do Real, com escassez em tantos setores da economia, embora enfrentemos um cenário de alta liquidez, porque o governo injetou dinheiro nela para que não quebrasse. Algo que se repetiu pelo mundo para evitar os danos econômicos de lockdown”, avalia.

A escassez de produtos afeta as cadeias produtivas, que pararam por longos períodos e trabalham com estoques ainda mais baixo que o habitual. Os impactos podem ser sentidos principalmente na indústria automotiva, onde os prazos para entrega estão dilatados e podem ultrapassar a 120 dias.

Coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), André Braz concorda que há inflação de escassez, um cenário que entende se repetir pelo mundo, mas destaca outras variáveis que compõem esse índice no Brasil. Entre eles, os aumentos nos preços dos combustíveis e a crise energética.

“Nós temos uma certa escassez, mas há outras pressões em paralelo. Aumento do petróleo e crise hídrica são outros dois fatores que afetam os preços. Isso diminui a oferta de alimentos e, somado à falta de produtos, compromete a cadeia produtiva. No setor automotivo, temos visto o aumento no preço do carro novo e também no mercado de usados. Os serviços de oficinas também subiram seus preços, para acompanhar”, explica.

Os dois especialistas concordam que a expectativa é por uma inflação menor em 2022, mas acham improvável que os preços voltem a se acomodar rapidamente e retomem em algum momento o patamar pré-pandemia. A explicação para isto está nas margens de lucro represadas desde o início da pandemia. Braz espera retração apenas partir do segundo semestre de 2022.

“Depende da normalização da cadeia produtiva. Devemos ter aumento de juros para conter a inflação, e isso segura muito a atividade econômica, evitando aumento de preços. Se ocorrer no primeiro semestre, pode ser mais fácil. Depende de resolver a questão hídrica. Para isto, precisamos saber se teremos um verão com pouca ou muita chuva. Tudo isso terá impacto na economia”, pondera Braz.

Guterres não está certo de que os preços retornem ao patamar anterior à presença da Covid-19. Ele concorda que alguns segmentos, sobretudo o alimentício, devem ter recuo. Mas, no geral, a tendência é que os valores se consolidem em um novo patamar.

“Os preços não voltam ao pré-pandemia por questões estruturais e pela mudança de nível. Mesmo que haja um equilíbrio entre a cadeia de suprimentos, entre oferta e demanda, eles devem ficar acima. Nós mudamos um degrau para vários preços. O que pode haver a longo prazo é um efeito chicote: a reação da indústria quando há muita escassez e bastante demanda. Ela se ajusta e provoca superoferta. Mas ainda está cedo para ver isso acontecer”, conclui.

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