CEO da Nokia: adoção rápida do 5G é essencial e Brasil precisa acelerar processo

Santos ressalta que o time to market será essencial para definir os países que liderarão as disrupções neste mercado

Ailton Santos, executivo-chefe da Nokia no Brasil
Ailton Santos, executivo-chefe da Nokia no Brasil Divulgação

Matheus Pradodo CNN Brasil Business*

São Paulo

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O Brasil ainda não desperdiçou totalmente a chance de estar entre os países vanguardistas na implementação da tecnologia 5G no mundo, mas precisa “dar um salto” para alcançar potências como a China e os Estados Unidos. É o que pensa Ailton Santos, executivo-chefe da Nokia no país.

Conhecida pelos celulares “tijolões” do início do século, a companhia vendeu sua operação móvel e hoje se dedica ao fornecimento de redes e antenas para o 5G. Em entrevista ao CNN Brasil Business, Santos diz que se mantém otimista em relação ao leilão da modalidade, prometido pelo governo para o segundo semestre.

O Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou o edital do certame na última quarta-feira (25). Agora, o edital voltará para a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), que terá que ajustá-lo para acatar as determinações da corte de contas. Somente depois disso será possível marcar com segurança uma data para o leilão. A previsão é que a licitação ocorra entre o fim de setembro e o início de outubro.

Apesar do bom prognóstico, Santos ressalta que o time to market (tempo entre a concepção de um produto e a sua disponibilidade no mercado) será essencial para definir os países que promoverão as maiores disrupções utilizando a nova tecnologia como base.

“Quando houve a adoção do 4G, Estados Unidos e China saíram na frente e conseguiram se desenvolver rapidamente, consolidando a economia dos aplicativos. O 5G vai ser semelhante, mas com maior foco em empresas já estabelecidas, a chamada economia de precisão”, diz.

“Os primeiros casos de uso da tecnologia vão ajudar a ditar qual caminho o mercado seguirá, por isso, o time to market é fundamental. Nós já vemos muitos países desenvolvidos avançando nesta direção, mas o Brasil ainda pode alcançá-los com um leapfrog (salto).”

Pesquisa de junho deste ano mostrou que a tecnologia já está presente em pelo menos 65 países e 1.600 cidades.

Segurança

Parte do atraso no processo de implementação da rede no país pode ser atribuído ao imbróglio político entre Brasil e China, que teve forte influência dos EUA comandado pelo então presidente Donald Trump.

A potência americana pressionou o país para barrar a empresa chinesa Huawei do processo, alegando que a utilização dos equipamentos da companhia poderia facilitar ataques cibernéticos e até espionagem. No final das contas, nenhum país conseguiu comprovar as supostas falhas no sistema da empresa asiática.

Sem citar empresas, Santos afirma que a preocupação em relação à segurança da estrutura não é inócua. “Vários países têm demonstrado este tipo de preocupação”, afirma.

“O 5G permite uma massificação da inteligência artificial das coisas, conectando milhões de dispositivos entre si. Quando pensamos em setores como agricultura e logística, as superfícies para possíveis ataques são muito maiores.”

Ele diz ainda que, em caso de ataque a grandes empresas, os invasores poderiam manipular parâmetros do processo produtivo, ou obter informações privilegiadas.

Rede privativa

Depois de muita especulação, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, finalmente disse que o governo brasileiro não iria entrar no meio da guerra comercial entre Estados Unidos e China na discussão do 5G.

Segundo ele, a restrição ao uso dos equipamentos da chinesa Huawei só se dará na rede privativa do governo, uma rede de comunicações exclusiva para órgãos públicos.

Para a Nokia, trata-se de mais uma área de atuação. “A rede privativa é como se fosse um condomínio fechado, enquanto a rede pública são as ruas. Ao desenvolver a estrutura, permitimos que os governos coloquem sua própria criptografia”, afirma o executivo.

Como as fornecedoras não participam do leilão, a operadora vencedora deste certame poderá escolher com qual empresa deseja trabalhar. No Brasil, a finlandesa já desenvolveu produtos parecidos para companhias privadas, como Vale e Rumo.

Implementação

De acordo com o edital original, as empresas deveriam começar a ofertar 5G nas capitais e no Distrito Federal até julho de 2022. Para municípios com mais de 500 mil habitantes, o prazo limite era julho de 2025. Para aqueles com população acima de 200 mil, a data era julho de 2026, e para os com mais de 100 mil, julho de 2027.

Os prazos terão que ser adiados, mas as teles poderão, também, antecipar o cronograma. Santos acredita que é isso que vai acontecer. “Entendo que as operadoras vão tentar acelerar este processo para obter um retorno do seu investimento de forma mais rápida”, diz.

Ele também afirma que, por conta da forte presença de startups de tecnologia no país, pode haver uma surpresa em termos de aparecimento de casos de uso da nova rede por aqui.

“Estou positivamente surpreso com a participação local e, em estudo da Nokia com a Omdia sobre o impacto do 5G no Brasil nos próximos 15 anos, a conclusão é que veremos um ganho de produtividade de US$ 1,2 trilhão. Isso equivale a 1% [de ganho] no PIB brasileiro por ano daqui para frente.”

No âmbito setorial, ele entende que os primeiros impactos da economia de precisão podem surgir na agricultura, com a tecnologia gerando cada vez mais produtividade para o segmento.

Empresa

A finlandesa Nokia vendeu sua divisão de smartphones e hoje recebe apenas os royalties pela cessão da marca. Agora, está concentrada na implementação do 5G ao redor do mundo e, em breve, também no Brasil.

Com 175 contratos já fechados com operadoras, ela disputa a liderança global do mercado de equipamentos com a sueca Ericsson e a chinesa Huawei.

A Nokia, que passa por uma reestruturação global para cortes de gastos, tem escritórios em São Paulo, Rio e Curitiba, além de hubs em Sorocaba e Barueri (SP) para produção e distribuição de equipamentos. Emprega 3 mil pessoas direta e indiretamente.

No segundo trimestre de 2021, o lucro operacional comparável da empresa finlandesa subiu para 682 milhões de euros de 423 milhões de euros registrado um ano antes.

*Com informações do Estadão Conteúdo

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