Com PIB a favor e inflação contra, BC começa reunião que deve elevar juros

Expectativa geral é de que Copom eleve a taxa Selic dos atuais 3,5% para 4,25%

Foto: Bruno Rocha/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Juliana Elias,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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O Comitê de Política Monetária (Copom), colegiado do Banco Central responsável por gerir os juros do país, começa nesta terça-feira (15) a reunião de dois dias que deve definir o novo nível da Selic, a taxa de referência da economia e do sistema financeiro. O anúncio dos novos juros será feito no início da noite de quarta-feira (16).

A Selic está hoje em 3,5% ao ano, e há poucas dúvidas de que será elevada novamente em mais 0,75 ponto percentual, para 4,25%. O próprio Copom já assinalou para um novo aumento desta magnitude nos comunicados da última decisão. 

A antecipação dos próximos movimentos é uma política nova de transparência que começou a ser testada durante a pandemia sob a gestão do presidente Roberto Campos Neto, e que destoa dos comunicados e declarações menos diretas que eram tradicionalmente feitas antes.

As dúvidas são em relação ao que vai acontecer daí para frente. Com uma inflação que não parou mais de crescer, a pergunta é até onde e com que velocidade o Copom vai continuar subindo esses juros. 

De um lado, há a obrigação de não deixar os preços saírem do controle no país – é esta a principal missão do Banco Central, que ele cumpre por meio dos ajustes na taxa de juros. Do outro, há o efeito colateral: juros mais altos freiam a atividade econômica.

A boa notícia é que os números de produção e atividade dos primeiros meses de 2021 vieram robustos e melhoraram bastante os prognósticos de crescimento para o ano, o que dá uma folga ao BC na margem de manobra para subir juros e controlar a inflação.

Em maio, o IPCA, indicador oficial de preços, teve a maior alta para o mês em mais de duas décadas e bateu os 8% em 12 meses, levando cada vez menos pessoas a acreditar que a inflação chegará até o fim do ano dentro da meta que o BC deve obrigá-la a obedecer, que é de uma alta máxima de 5,25%. 

Para o Copom, é uma questão de como dosar a econometria por trás dos juros ideais. Para os brasileiros, é o que pode separá-los de seguir convivendo com os aumentos salgados de preços até 2022 ou não. 

Juros a 7%

Nas casas de análise do mercado financeiro, os economistas não param de refazer as contas e revisar as perspectivas de juros para cima. Até o começo deste ano, a média das estimativas falava em uma Selic que chegaria ao fim de 2021 a suaves 3%, de acordo com o Boletim Focus, levantamento semanal feito pelo BC com as projeções de mais de 100 bancos e consultorias.

No boletim desta semana, essa projeção já tinha saltado para 6,25%. Já há até quem fale em uma Selic a 7%, número já confortavelmente acima dos 4,25% em que a taxa provavelmente teria estacionado no início do ano passado, antes de qualquer efeito da pandemia. 

Daquele fatídico mês de março em diante, o Banco Central brasileiro, seguindo a tendência do mundo inteiro, ceifaria rapidamente a Selic até os 2% históricos a que ela chegou, nível muito abaixo da inflação e uma bomba de estímulo à economia. Quanto mais baixos os juros, mais atrativos ficam o crédito e os investimentos na economia real, e mais ajuda a atividade recebe para girar.

Fim dos estímulos da pandemia

Juros perto de 6% já começam a voltar para o que os economistas estimam ser o nível de equilíbrio para a taxa no país, quer dizer, um ponto em que ela não está nem estimulando e nem freando a economia demais. Em outras palavras, significaria que o BC retirou completamente os superestímulos do ano passado, obrigando o país a manter seu crescimento por conta própria.

E é essa a aposta, de fim dos estímulos, que mais vem ganhando espaço entre os analistas nos últimos dias. É o que os jargões do mercado financeiro chamam por expressões como “normalização da política monetária” ou “fim da normalização parcial dos juros”, quer dizer, um aumento rápido e forte em vez de moderado. 

“De modo geral, as pressões inflacionárias cada vez mais disseminadas, as pressões de custo ainda intensas, o desempenho da economia mais resiliente do que o esperado e os novos estímulos fiscais [como o auxílio emergencial] devem provavelmente levar o Banco Central a continuar a normalização da política monetária e possivelmente acelerar o caminho rumo à neutralidade”, escreveu o banco Goldman Sachs em relatório recente a clientes. 

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