Como fica a economia de El Salvador após adoção do bitcoin como moeda oficial

Apesar de incentivos do governo local, mudança não agradou à população, que está tendo dificuldades em confiar e adotar a criptomoeda

Cliente faz pedido em restaurante de fast food que aceita pagamentos Bitcoin em 9 de setembro de 2021. San Salvador, El Salvador
Cliente faz pedido em restaurante de fast food que aceita pagamentos Bitcoin em 9 de setembro de 2021. San Salvador, El Salvador Roque Alvarenga / APHOTOGRAFIA / Getty Images

Cleber Souzado CNN Brasil Business*

em São Paulo

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El Salvador se tornou o primeiro país a adotar bitcoin como moeda oficial, uma decisão que divide a opinião de especialistas. Logo na estreia, na terça-feira (7), a cotação da moeda chegou a cair mais de 10%, abaixo dos US$ 43 mil. Mas acabou se recuperando no dia seguinte.

A decisão não foi bem aceita pela população salvadorenha, que foi às ruas em protestos contra o governo do presidente Nayib Bukele.

Segundo especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business, a medida é “complexa” e está em fase de “aceitação e experiência”. E ainda traz um cenário de incerteza em uma economia já com baixo poderio global.

Walter Franco, professor de economia do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais) entende que, mesmo com oficialização da criptomoeda em El Salvador, é preciso medir os impactos da utilização de uma moeda digital na população local.

Walter acredita que a iniciativa poderá servir de referência para outros países, mas ressalta uma “complexidade” da mudança somada à falta de diálogo do governo com os salvadorenhos.

“O mundo é digital. A tendência é que bancos centrais adotem, de forma gradual, as criptomoedas. Claro, com cuidados e segurança aos usuários, e sob o controle do Estado. As moedas virtuais não surgiram com o propósito de serem controladas por grandes bancos. Entretanto, penso ser inovador e importante”, avalia Walter.  

Desde junho — mês em que a Lei do Bitcoin foi aprovada em El Salvador — a população local tem ocupado as ruas da capital São Salvador exibindo cartazes com frases como “Bukele, não queremos bitcoin” e “não à lavagem de dinheiro”.

Segundo a Câmara de Comércio e Indústria de El Salvador, uma pesquisa feita por eles apontou que o receio da população se dá pelo fato de não entenderem como a nova moeda oficial funciona e por conta de sua volatilidade.

Longo caminho

O professor do Ibmec ressalta que a oficialização da moeda em El Salvador deve passar por um processo comum de aceitação da sociedade — com regulações dentro de regras do Banco Central, com facilidade para transações financeiras, métodos de investimento, poupança e segurança.

“Tudo que um governo puder fazer para tentar facilitar o crescimento econômico, da geração de renda e emprego, eu acho válido. Mas ainda é algo incerto. Não se pode ter perspectivas a curto prazo”, afirma Walter.

Henrique Castro, professor de finanças da  Fundação Getúlio Vargas Escola de Economia de São Paulo (FGV – EESP), explica que a nova determinação ainda passa por um período de experiência, e que os conflitos locais entre população e governo e a oscilação do bitcoin devem se refletir nesse processo. “Primeiro, a gente precisa saber se a população local quer o bitcoin, isso faz parte da aceitação. As últimas notícias dão conta que não. E se não der certo?”, questiona Henrique

O professor destaca que, primeiro, é preciso apresentar soluções claras à economia, e não gerar ainda mais dúvidas. “E uma mudança sem diálogo com a população gera dúvida nas pessoas, na indústria, no comércio. Não dá para pensar num curto prazo. O governo precisará incentivar ainda mais”.

Para Henrique, a aceitação da população será impactada por pagamentos facilitados – ou não –  trazidos pela moeda, acesso à digitalização no país e transparência sobre a economia local.

E, mesmo com a promessa do governo local de aumentar o poder de compra e a geração de emprego, o bitcoin ainda precisará se adaptar à economia do país, que o professor da FGV aponta como pequena.

“Fica aí a expectativa sobre como essa medida vai se portar com o tempo. Contudo, é algo que pode ser revisto em caso de dificuldades econômicas, de algo dar errado e não ser o que o governo esperava. Isso já foi feito em 2001 com o colon — moeda local na época — quando mudaram para o dólar”,diz.

Hoje, El Salvador possui um setor industrial sem grandes destaques, que atua nos segmentos de processamento de alimentos, bebidas, petróleo, tabaco, têxtil, móveis e cimento. Os principais produtos de exportação são camarão, café e, principalmente, cana-de-açúcar.

Circulação

Atualmente, o bitcoin é a moeda mais negociada no mundo, com uma capitalização de mercado acima de US$ 1 trilhão. Citando este dado, Walter enfatiza que a escolha do bitcoin como moeda oficial passa pela sua valorização e liquidez.

Já Henrique lembra que a variação do bitcoin, inclusive por falas de famosos como Elon Musk, pode manter a economia de El Salvador “estagnada, como ela já tem sido”. “A moeda [bitcoin] oscila muito, mesmo com o reconhecimento e valorização que tem”.

Por sua vez, o governo argumenta que o bitcoin pode gerar uma economia de US$ 400 milhões (R$ 2,1 bilhões) por ano ao país em taxas de transação sobre recursos recebidos do exterior. A economia do país depende fortemente de remessas vindas do exterior.

O que muda? 

A medida tomada por El Salvador permite que o bitcoin tenha o mesmo posto que o dólar americano, moeda oficial dos Estados Unidos.

Com a nova lei, os estabelecimentos do país deverão aceitar a criptomoeda como meio de pagamento quando ela for oferecida. A chamada Lei Bitcoin de El Salvador entusiasmou o mercado, com repercussão nas redes sociais e no noticiário.

Em seu perfil no Twitter, o presidente Nayib afirmou, no entanto, que o uso do bitcoin não será obrigatório para os cidadãos. O presidente ainda ofereceu incentivos para a utilização da moeda no dia de seu lançamento.

“Quem quiser poderá baixar o aplicativo (carteira) oficial de El Salvador para utilizar a moeda, chamado Chivo. Quem o fizer, vai receber o equivalente a US$ 30 em bitcoin. Quem não quiser, não precisa baixar.”

*Com informações da Reuters

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