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    Dados de emprego nos EUA pressionam Fed, mas com pouco efeito na Selic, dizem analistas

    Movimentos do banco central norte-americano podem afetar câmbio, mas Copom já deu sinais que tem o risco no radar

    Taxa de desemprego dos EUA caiu para 3,5% em julho, com criação de 528 mil vagas
    Taxa de desemprego dos EUA caiu para 3,5% em julho, com criação de 528 mil vagas Valter Campanato/Agência Brasil

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business

    em São Paulo

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    Os dados de julho sobre o mercado de trabalho dos Estados Unidos surpreenderam o mercado e reforçaram apostas em um ciclo de alta de juros mais agressivo. Para o Brasil, porém, especialistas avaliam que o impacto desse cenário tende a ser pequeno.

    O relatório Payroll trouxe uma queda da taxa de desemprego para 3,5%, com geração de 528 mil vagas no mês anterior ante as cerca de 250 mil esperadas pelo mercado. A leitura dos investidores foi que a economia norte-americana segue aquecida, afastando uma visão de que o país estaria entrando em recessão antes do esperado.

    Com isso, haveria espaço, e até necessidade, do Federal Reserve subir mais os juros do que o projetado ao longo de julho.

    Um levantamento do CME Group aponta que, há sete dias, o mercado dava 34% de chances dos juros subirem 0,75 ponto percentual em setembro e 66% de aumentarem 0,5 p.p. Nesta sexta-feira (5), o quadro se inverteu: 66,5% apostam no valor maior, e 33,5%, no menor.

    Os juros no Brasil

    Um ciclo de alta mais agressivo do Fed, com os juros terminando em um intervalo de 3,75% a 4%, já havia sido precificado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) anteriormente, e por isso já entrou nas decisões para a taxa Selic, afirma o especialista CNN em economia Sergio Vale.

    A aposta nesse patamar já aparecia como a mais provável em junho, e perdeu força apenas no mês seguinte, quando o mercado viu com bons olhos os dados de atividade e do PIB que apontavam uma recessão mais cedo que o previsto.

    Desse modo, o retorno da posição do mercado não seria exatamente uma novidade para o Copom.

    Vale ressalta ainda que as maiores incertezas para o comitê estão no mercado doméstico, com as eleições, cujo resultado pode impactar as decisões de juros mais que o cenário nos Estados Unidos.

    O principal reflexo para o Brasil dos juros maiores nos Estados Unidos seria transmitido pela taxa de câmbio, segundo Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa.

    “É natural que, com o mercado de trabalho forte, o Fed possa subir mais os juros, e isso atrai capitais e o dólar valoriza ante o real”, diz.

    Entretanto, não há como garantir que o câmbio seguirá essa expectativa de desvalorização. Nesta sexta-feira, por exemplo, o dólar caiu ante o real mesmo subindo ante uma série de moedas de países emergentes, e os juros futuros brasileiros não trouxeram expectativas de uma nova alta pelo Copom.

    Sanchez afirma que os dados de trabalho foram uma surpresa, mas “não a ponto de mudar o que tem sido indicado” pela autoridade monetária brasileira, em especial considerando a grande diferença atual entre os juros brasileiros e norte-americanos.

    Mas, se o Fed subir mais os juros e o dólar tiver uma valorização significativa ante o real, o Copom pode acabar sendo obrigado a subir mais os juros para aumentar o diferencial entre as taxas, diz a sócia-fundadora da Nord Research Marilia Fontes.

    “Se o Fed tiver um cenário de atividade forte e precisando subir muito os juros, atrairia investimentos, gerando uma desvalorização cambial que afeta a inflação, com a necessidade do Banco Central ou subir mais a Selic ou deixar ela alta por mais tempo”, afirma.

    Por outro lado, Victor Candido, economista-chefe da RPS Capital, avalia que um Fed mais agressivo pode acabar ajudando o Copom.

    Segundo ele, os juros mais altos no país tenderiam a reduzir a inflação. “Nós importamos muita inflação, como de alimentos, os ligados a commodities, se cair lá, tende a cair aqui também”, explica.

    Ele também diz que uma possível desvalorização do real pioraria o cenário para o Copom, mas acredita que a moeda brasileira “está tão depreciada que não tem como piorar muito, depende muito mais da eleição”.

    Reações do mercado

    Mas a movimentação do Fed só terá um passo concreto em setembro, na próxima reunião de política monetária. Até lá, o mercado deve seguir reagindo a cada dado sobre a economia do país em busca de pistas sobre o ciclo de juros.

    A autarquia já sinalizou em agosto, após subir a taxa em 0,75 p.p. pela segunda vez, que as próximas altas serão determinadas reunião a reunião com os dados disponíveis, com abertura tanto para elevações mais brandas quanto na mesma magnitude.

    A lógica do mercado tem sido reagir positivamente a dados que apontam uma economia norte-americana mais fraca, associando a uma postura do Fed mais branda, e negativamente a números mais fortes, ligados à expectativa de postura mais rígida contra a inflação.

    Candido afirma que as empresas na bolsa costumam cair quando a expectativa de juros longos maiores ganha força, já que muitas possuem níveis altos de dívida e, portanto, teriam mais custos e lucros menores.

    Há ainda a dinâmica entre renda fixa e renda variável, segundo Sanchez. Com a previsão de juros maiores, os títulos do Tesouro ganham força em relação às ações, que tendem a cair. Se a projeção é de juros menores, o inverso ocorre.

    Para o economista da RPS, o retorno do mercado à expectativa de um Fed mais duro é “natural”, indicando que o “sentimento de recessão” já presente no mercado teve que ser revisto. Com o mercado de trabalho mais forte, os salários e a demanda tendem a continuar subindo, puxando a inflação para cima e exigindo um combate mais duro pelo Fed.

    “Acho que o mercado ainda vai ter essa volatilidade. Cada dado novo é avaliado de um jeito, e o que acontece lá repercute aqui e em todo o mundo. É um cenário de incerteza global muito alto, e é natural que cada dado relevante novo mexa com o mercado”, explica.

    Mesmo assim, alguns dados são mais importantes que outros. Sanchez lembra que o “mandato” do Fed envolve metas de emprego e inflação, não de atividade econômica ou PIB.

    Por isso, números ligados aos dois pontos costumam ter mais relevância, e atualmente a taxa de desemprego está abaixo do que o Fed calcula ser o valor de pleno emprego, dando mais espaço de manobra para a autarquia.

    “A hora que sai esse número forte, acaba abrindo espaço. O emprego não faz o Fed subir juros, mas o receio com a atividade fica menor, e aí abre espaço para exercer o papel frente ao desvio inflacionário”, afirma.

    Mesmo assim, ele não acredita a autarquia elevará os juros novamente em 0,75 p.p. em setembro, com uma alta de 0,5 p.p., mas que adotará uma taxa terminal maior, nos 4%, uma hipótese também aventada pelo banco Goldman Sachs em relatório.

    “O desvio inflacionário ainda persiste, mas esse dado de emprego diz mais respeito à taxa terminal do que ao ritmo em que se chegará à mesma”, diz.

    Para ele, o próximo dado importante no mercado será o do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) de julho, que será divulgado em 10 de agosto e pode trazer como surpresa uma desaceleração mais intensa, reforçando a perspectiva de um esforço monetário menor pelo Fed. Já se ele vier dentro do esperado, mantendo os maiores níveis em 40 anos, as apostas de um Fed mais duro devem se manter.

    Fontes, da Nord, destaca que há um cenário de dicotomia na economia norte-americana atualmente. De um lado, os dados do mercado de trabalho apontam uma economia forte, com desemprego em queda e salários em alta.

    Tecnicamente, porém, o país está em recessão, com dois recuos seguidos no PIB.

    “Isso é possível porque é uma época de inflação muito alta. A inflação foi tão mais alta que o PIB real acabou ficando negativo nesses trimestres específicos, ela comeu o PIB. Não é uma recessão que controla a inflação, é algo técnico só”, explica.

    Já Vale aponta que o mercado de trabalho não mostrou um quadro de recessão de fato, mas, combinado com outros dados, “é quase inevitável que ela ocorra”.

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