Eleição francesa pode ser um choque maior para mercados do que Brexit ou Trump

Operadores do mercado financeiro estão se preparando para uma vitória surpresa de Le Pen, o que abalaria a segunda maior economia da Europa

Combinação de fotos dos candidatos à Presidência da França Marine Le Pen e Emmanuel Macron
Combinação de fotos dos candidatos à Presidência da França Marine Le Pen e Emmanuel Macron 05/02/2022 e 02/04/2022 REUTERS/Sarah Meyssonnier

Julia Horowitzdo CNN Business

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Os eleitores franceses devem entregar a Emmanuel Macron mais cinco anos no cargo de presidente da França neste domingo (24), favorecendo o atual chefe do Executivo em detrimento da candidata de extrema-direita, Marine Le Pen, após uma campanha eleitoral com debates acalorados. Os investidores, porém, se preparam para um outro cenário.

Com pesquisas indicando que a eleição presidencial será mais apertada do que quando os dois candidatos se enfrentaram em 2017, os operadores estão se preparando para uma vitória surpresa de Le Pen, o que abalaria a segunda maior economia da Europa à medida que crescem os temores de uma recessão na região.

“Pode ser maior que o Brexit. Pode ser maior que [a derrota do ex-presidente dos Estados Unidos Donald] Trump, se Le Pen prevalecer”, disse Michael Hewson, analista-chefe de mercado da CMC Markets.

Em pesquisa publicada na terça-feira (19), estrategistas do Citi estimam em 35% a probabilidade de Le Pen vencer. Ainda assim, eles incentivaram os clientes a proteger suas apostas em títulos do governo francês e alertaram que uma vitória de Le Pen prejudicaria as ações.

“A incerteza decorre do risco de baixa participação eleitoral, pois os eleitores de esquerda se recusam a dar seu voto a Macron, mesmo correndo o risco de entregar a Le Pen”, escreveram. “A participação eleitoral é um fator que os pesquisadores acham particularmente difícil prever com precisão”.

A vitória de Le Pen imediatamente levantaria questões sobre os laços políticos e econômicos da França com a União Europeia (UE), embora ela tenha desistido de sua promessa de tirar o país do bloco. Seus objetivos políticos –como impedir que trabalhadores estrangeiros vão para a França, o que acabaria com a liberdade de movimento na Europa– ainda podem criar sérios conflitos.

“A maioria das políticas de Le Pen não seria possível dentro da UE”, disse Grégory Claeys, membro sênior do Bruegel, um think tank em Bruxelas.

Isso poderia desencadear um “Frexit”, ou saída francesa da União Europeia “por acidente”, continuou ele. Se a França, sob Le Pen, avançar com políticas que violam a lei da UE, ele prevê que haveria um êxodo de capital à medida que os investidores retirassem dinheiro do país, como quando o Reino Unido votou pelo Brexit, em 2016.

Economia na frente e no centro

Le Pen conquistou apoio durante o primeiro turno de votação no início deste mês, concentrando-se no aumento do custo de vida enquanto reduzia sua retórica contra os imigrantes e o Islã.

“Minha prioridade absoluta nos próximos cinco anos é devolver o dinheiro ao povo francês”, disse ela no debate televisionado com Macron na quarta-feira (20).

A inflação francesa atingiu 4,5% em março, levando a confiança do consumidor ao seu nível mais baixo em mais de um ano. Os preços da energia, que saltaram desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, subiram 29% em relação a 2021, enquanto os preços dos alimentos estão quase 3% mais altos.

À medida que a inflação corrói os gastos, economistas alertaram que a economia da França pode encolher ainda neste ano.

“Os salários, especialmente os baixos, não estão aumentando na mesma proporção que o aumento dos preços”, disse Boris Plazzi, membro do conselho da Confédération Générale du Travail, um sindicato de trabalhadores com 700.000 membros. “Portanto, há uma preocupação real por parte dos trabalhadores”.

Le Pen prometeu restaurar entre 150 euros (US$ 163) e 200 euros (US$ 217) por mês no poder de compra das famílias, cortando impostos sobre combustível, reduzindo pedágios nas estradas e cortando benefícios sociais como moradia subsidiada para estrangeiros.

“Os preços de alimentos e combustíveis realmente dominaram a campanha do dia-a-dia”, disse Mujtaba Rahman, diretor administrativo para a Europa da consultoria Eurasia Group. “Essa é uma das razões pelas quais ela tem sido tão bem sucedida”.

Mas Macron criticou seus planos no debate de quarta-feira, observando que faz mais sentido continuar as políticas governamentais que ajudam os mais pobres, em vez de adotar medidas menos direcionadas, como cortar impostos sobre combustíveis.

Ele também destacou os 1,2 milhão de empregos criados durante sua presidência e disse que o governo manterá um teto temporário para os preços da eletricidade e do gás, o que ajudou a manter a inflação mais baixa do que em outros lugares da Europa.

Ainda assim, o aumento dos preços é um risco para Macron, enquanto ele tenta cortejar milhões de eleitores que permanecem indecisos. Cerca de 40% da população da França vive com menos de 1.600 euros (US$ 1.736) por mês, e muitos deles se abstiveram ou votaram no candidato de esquerda Jean-Luc Mélenchon no primeiro turno da eleição, segundo o jornal “Le Monde”.

Se Le Pen ganhar

O escrutínio de Le Pen aumentou desde o primeiro turno, particularmente por seu apoio anterior ao presidente russo, Vladimir Putin, e Macron continua sendo o favorito. O Eurasia Group acredita que ele tem 80% de chance de reeleição.

Se Le Pen vencer, no entanto, isso abalaria os mercados financeiros, que já estão nervosos devido à guerra na Ucrânia e às expectativas decrescentes de crescimento econômico.

Quando Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, em 2016, os mercados inicialmente entraram em pânico. Mas os temores duraram pouco, pois os investidores decidiram que as cabeças mais frias prevaleceriam e Trump seria impedido de seguir suas políticas mais extremas.

Os efeitos do voto do Reino Unido para deixar a União Europeia duraram mais. A libra britânica caiu e ainda não recuperou seu nível em junho de 2016.

Amundi, a gestora de ativos francesa, disse a clientes na semana passada que não recomenda comprar ações europeias agora por causa da guerra e da incerteza econômica. A eleição francesa, disse, é outra razão para ficar longe.

“Os mercados parecem complacentes com uma vitória de Macron, mesmo que a probabilidade de uma vitória não amigável de Le Pen não seja desprezível”, disse Vincent Mortier, diretor de investimentos, em nota.

Embora Le Pen tenha revertido sua proposta anterior para a saída da França da União Europeia, ela ainda está comprometida em reduzir os laços entre a França e o bloco por meio do lançamento de uma série de referendos.

Se ela tentar impedir que trabalhadores de outras partes da UE vão para a França ou tomar medidas para impedir a livre circulação de mercadorias, isso também gerará questões preocupantes sobre o futuro do país –e do próprio bloco.

“Mesmo que a saída da UE não esteja oficialmente no programa, dadas as políticas que ela quer colocar em prática, isso levaria a um confronto com os parceiros europeus”, disse Claeys, de Bruegel.

Muito dependeria das eleições legislativas de junho, o que determinaria a força de qualquer mandato de Le Pen.

“Uma vitória de Marine Le Pen precisaria ser seguida por uma forte exibição de seu partido nas eleições legislativas de junho, se ela quiser implementar a maior parte de seu programa”, disse Jessica Hinds, economista para Europa da Capital Economics.

Se ela precisar buscar uma coalizão de apoio mais ampla, isso “cortaria suas asas, pelo menos na política doméstica”, continuou Hinds. “Assim, uma presidência de Le Pen pode ser menos radical do que muitos investidores temem”.

Este conteúdo foi criado originalmente em inglês.

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