Em um ano, custo de alimentos supera reajuste salarial e reduz poder de compra

Brasileiros de renda mais baixa são os mais afetados, aponta pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Preços de sete itens básicos (arroz, feijão, farinha de trigo, açúcar, carne bovina, óleo de soja e café) custavam, juntos, R$ 83,05 em março de 2021; agora, valor é de R$ 95,38
Preços de sete itens básicos (arroz, feijão, farinha de trigo, açúcar, carne bovina, óleo de soja e café) custavam, juntos, R$ 83,05 em março de 2021; agora, valor é de R$ 95,38 08/04/2022REUTERS/Ricardo Moraes

Elis Barretoda CNN

no Rio de Janeiro

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O reajuste do salário mínimo para 2022 acompanhou a inflação de 10,06% de 2021, mas os preços dos alimentos superaram esse índice.

Um levantamento produzido pela CNN dos preços de alguns itens presentes na mesa do brasileiro, com base nos dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), constatou que o aumento deles foi de 14,8% em março deste ano, na comparação com o mesmo mês do ano passado.

A CNN levou em consideração sete itens básicos e presentes em praticamente todas as refeições da maioria das famílias: Arroz (1 kg), feijão (1 kg), farinha de trigo (1 kg), açúcar (1 kg), carne bovina (1 kg), óleo de soja (900ml), e café (500g).

Segundo a média de preços desses produtos no Dieese, em março de 2021, eles custavam, juntos, R$ 83,05. Agora, em março de 2022, esse valor subiu para R$ 95,38.

Segundo o levantamento, dos sete itens, apenas o arroz apresentou queda de preço nos últimos doze meses, passando de R$ 4,53 o Kg, para R$ 3,84. O maior aumento registrado foi o do café, que subiu 72,3%. Um pacote de 500 gramas custa, atualmente, R$ 19,54.

O açúcar, que sofreu um forte reajuste por conta da falta de chuvas no ano passado, continua em alta e registrou aumento de 46%, passando de R$ 2,90 em março do ano passado, para R$ 4,24 neste ano.

O óleo de soja teve o terceiro maior aumento, com alta de 24,1% no preço da garrafa de 900 ml, sendo encontrada a R$ 9,41.

Já no caso dos outros itens da pesquisa, o feijão registrou aumento de 6,1%, passando de R$ 6,99 para R$7,42.

A farinha de trigo foi de R$ 4,49 para R$ 5,49, e os cortes de segunda da carne bovina já chegam a custar R$ 45,74, frente ao R$ 40,35 verificados em março do ano passado.

A alta acima da inflação para itens básicos industrializados considerados na pesquisa da CNN se repete nos preços de alguns dos chamados alimentos in natura, como frutas e legumes, que também cresceram e puxaram a inflação do mês de março para cima.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pela divulgação dos índices da inflação, o tomate teve a maior alta para o mês, com aumento de 27,22%, na comparação com o mês anterior.

Ainda segundo o IBGE, foram registradas altas em diversos produtos, como as frutas com variação positiva de 6,39%, e a cenoura que acumula alta de 166,17% em doze meses.

Matheus Peçanha, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que a alta dos alimentos acima da inflação reduz o poder de compra dos brasileiros, em especial os de baixa renda.

De acordo com ele, essa população já transfere verbas de outros segmentos, como o entretenimento, para completar o custo dos alimentos.

“Desde o início da pandemia, a gente já temia que as faixas mais rendas sofriam o maior impacto, até porque a inflação está mais concentrada em alimentos. E o cenário se concretizou, principalmente em 2021. A queda no poder de compra é muito sentida na prática. Mesmo que seja uma diferença de 1%, já é uma perda real, imagina agora mais de 4%”, explica Peçanha.

“Isso gera um impacto na questão social, essas famílias precisam tirar recurso de outras questões do dia a dia para pagar as necessidades básicas, que consomem mais de 80% da renda das pessoas com baixa renda.”

Dicas de como economizar

Especialistas da FGV ouvidos pela CNN dão dicas para economizar nas compras diante do aumento de preço dos alimentos e a perda do poder de compra do brasileiro.

As compras em um curto espaço de tempo, a pesquisa de preço em supermercados diferentes e a substituição de marcas dos produtos são algumas das regras de ouro na hora das compras.

“Se você tem uma inflação alta, mas constante, não é necessário sair correndo para comprar tudo de uma vez. O mais importante é comprar em grupos, com vizinhos, familiares, em lugares mais baratos ou supermercados atacadistas. É melhor comprar quantidade em um lugar mais barato, do que estocar”, destaca o economista Alberto Ajzental, da Fundação Getúlio Vargas.

A principal dica para um cenário de alta de preços, além da frequência, é a pesquisa de comparação entre os supermercados existentes no bairro e redondezas.

Essa é a principal ferramenta do consumidor na hora de economizar na alimentação, segundo outro economista da fundação, o professor Joelson Sampaio.

“Existem estudos que mapearam boas práticas na hora das compras, quando você tem uma inflação mais alta. Outro ponto da importância da pesquisa de preços, é que a variação entre os estabelecimentos fica maior, então as famílias devem mapear os locais onde é mais barato comprar determinados produtos”, destaca Sampaio.

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