Entenda por que está mais difícil (e caro) conseguir carro em apps de mobilidade

Aumentos sucessivos nos preços dos combustíveis estão sufocando as margens de lucro dos motoristas, agravando uma situação que já era crítica antes da pandemia

Motorista de aplicativo
Motorista de aplicativo Paul Hanaoka/Unsplash

Matheus Pradodo CNN Brasil Business

em São Paulo

Ouvir notícia

Com certeza alguém já te disse ou você mesmo constatou: está mais difícil que o habitual conseguir embarcar em um carro via Uber ou 99. O relato se multiplica, ao vivo e na internet, em diferentes localidades do país.

Segundo diversos motoristas ouvidos pela reportagem, trata-se de um problema real, e não apenas de uma sensação dos consumidores.

Na verdade, uma série de questões, como a alta da gasolina e o aumento dos preços de aluguel de carros, se acumularam e tem afetado a atividade, a ponto de alguns profissionais questionarem se vale a pena seguir na atividade de motorista de aplicativo.

E, apesar das empresas não confirmarem possíveis mudanças nas tarifas básicas, o serviço encarece para o cliente final quando há menos oferta. Entenda:

Combustíveis

A gasolina, uma das grandes vilãs no processo, teve aumento de 51% ao longo do ano de 2021 e provavelmente esses valores devem continuar nas alturas.

Isso ocorre porque o petróleo teve uma enorme alta nos últimos meses, chegando a superar o valor de US$ 60 e ainda não há um aumento significativo de produção que justifique uma queda no preço.

O câmbio do dólar, que não tem baixado como esperado, é outro fator que está impulsionando a inflação no país.

Com isso, segundo pesquisa da ANP entre 15 e 21 de agosto, o preço do litro da gasolina comum na bomba de alguns postos de combustíveis já chega ou ultrapassa os R$ 7 em quatro estados: Acre, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Tocantins.

Nessa linha, os preços médios do etanol também subiram em 21 estados na semana passada. Nos postos pesquisados pela ANP em todo o país, o valor subiu 2,23% ante a anterior, de R$ 4,399 para R$ 4,497 o litro.

Eduardo Lima, da presidente da Associação dos Motoristas de Aplicativos de São Paulo (Amasp), diz que os aumentos sucessivos nos preços dos combustíveis estão sufocando as margens de lucro dos motoristas, agravando uma situação que já era crítica antes da pandemia.

Ao nível estadual, a categoria está negociando um financiamento com a secretaria de Desenvolvimento Econômico para realizar a instalação de Gás Natural Veicular (GNV) em até 60 mil veículos da categoria.

“Vai ajudar nos custos e reduzir as emissões dos carros que trabalham no setor”, diz. Procurada pelo CNN Brasil Business, a pasta confirma que se reuniu com a categoria, mas ainda não tem detalhes sobre como o projeto pode se desenvolver.

Aluguel de veículos

Outro custo fixo para boa parte dos motoristas de aplicativo, o aluguel de veículos também tem sofrido reajustes em 2021.

E, apesar de clientes mensalistas conseguirem negociar condições diferenciadas, a tabela abaixo mostra a tendência de alta nos preços.

O economista Juan Ferrés, responsável pelo levantamento divulgado pela Consultoria Teros, explica o movimento que tem ocorrido nos últimos meses.

“O mercado está sendo equilibrado por oferta e demanda, já que a retomada da economia está puxando a demanda por carros alugados”, diz.

“Do lado da oferta, algumas das principais locadoras do país (Localiza e Unidas) aproveitaram os preços altos dos seminovos para acelerar suas vendas, reduzindo a frota disponível.”

Ele cita ainda que, como há restrição na compra de carros novos por conta da crise de chips, a empresas menores não conseguem ofertar condições muito melhores aos consumidores.

Reajustes com apps

Um problema não tão recente, mas igualmente duro para a categoria no dia-a-dia é a relação com as empresas que disponibilizam o serviço.

“A Uber não reajusta as tarifas desde 2015, e a 99, que afirmou que iria isentar os motoristas de taxas neste período, aumentou os descontos para os passageiros. No final das contas, o repasse fica igual”, afirma Eduardo Lima.

“Nós tentamos manter um diálogo e estamos sempre enviando uma série de dados, informações para as empresas. O que pleiteamos é que haja, pelo menos, um reajuste seguindo a inflação.”

Outro lado

Em nota, a 99 afirma que “não registrou alteração no número de motoristas cadastrados, mas sim, aumento de demanda pelo serviço, impulsionado pela reabertura das cidades e a adoção dos carros por aplicativo pela Classe C”.

Diz ainda “que sempre esteve e continua aberta ao diálogo para reduzir o impacto gerado neste momento em que há uma conjuntura econômica que vem pressionando o valor dos combustíveis.”

Entre outras iniciativas, a companhia declara que já deu mais de R$ 3 milhões em descontos de combustível para os motoristas; está zerando a taxa de intermediação em dias ou horários específicos; e revisando a política de cancelamentos que bloqueia o motorista parceiro por infrações às regras da plataforma.

A Uber também alega que a demanda pelo serviço aumentou e que “opera em um sistema de intermediação de viagens dinâmico, por isso busca sempre considerar, de um lado, as necessidades dos motoristas parceiros e, de outro, a realidade dos consumidores que usam a plataforma”.

Para mitigar as dificuldades dos motoristas, a empresa defende que lançou em 2021 diversas iniciativas, como o cashback para abastecimento de veículos e promoções para ampliar ganhos em viagens curtas.

Já a Localiza diz que os preços praticados “levam em conta disponibilidade de carros na frota, demandas sazonais, períodos e locais específicos da retirada e entrega do veículo, além de uma série de outros fatores como modelo do carro, local e horário do aluguel”.

Afirma ainda ter criado um serviço chamado Zarp, que “conta com um aplicativo exclusivo que permite ao cliente gerenciar manutenções, revisões, troca de carros, além de facilitar a gestão financeira de corridas, contas a pagar e multas”.

Unidas e Movida não responderam até o fechamento da reportagem.

Mais Recentes da CNN