Entenda por que startups brasileiras estão abrindo escritórios na Europa

Movimento ajuda na globalização do time de colaboradores, além de facilitar trocas comerciais e contato com tendências de negócio

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Escritório Unsplash/Israel Andrade

Natália Eirascolaboração para o CNN Brasil Business

Em Lisboa

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O QuintoAndar anunciou, na semana passada, que vai abrir seu primeiro escritório internacional em Lisboa, em Portugal. A empresa brasileira é a mais recente a embarcar na tendência de abrir espaços de trabalho na Europa sem, necessariamente, ter operação na região. Antes, o Nubank abriu o primeiro hub de tecnologia internacional em Berlim, na Alemanha, e a Loggi inaugurou um escritório em Lisboa pouco antes da pandemia.

“A Europa tem tentado se firmar, junto com os Estados Unidos e a China, como um polo tecnológico e sustentável”, diz Arthur Igreja, especialista no mercado de inovação e tecnologia. “É um movimento estratégico e, de certa forma, a Europa sempre foi um lugar visado por conta da qualidade de vida e moeda forte.”

Diversidade na companhia

Esse movimento das empresas pode ajudar na globalização do time de colaboradores, além de facilitar trocas comerciais e contato com tendências de negócio. De acordo com o estudo “Getting to Equal 2019: creating a culture that drives innovation”, da consultoria Accenture, companhias inclusivas e diversas são 11 vezes mais inovadoras e têm funcionários seis vezes mais criativos.

“Uma equipe global traz diferentes experiências, mentalidades e culturas. Isso é fundamental para inovação. É preciso novos temperos para criar novos pratos, e essa fusão de cozinhas ajuda a alavancar essas empresas”, afirma Arthur Igreja.

Renee Mauldin, diretora de recursos humanos do Nubank, concorda que a presença internacional expande a diversidade. “Descobrimos que os bancos de talentos globais complementam nossas equipes, atraem aqueles que desejam estar em uma empresa global e querem aprender um com os outros”, afirma.

O Brasil e outros países da América Latina têm um mercado de tecnologia crescente, mas a Europa é, ainda, um celeiro de bons profissionais. Segundo Gabriel Braga, CEO do QuintoAndar, a mudança também facilita no acesso a esses profissionais.

Há estrangeiros que estão na Europa que estão interessados no que estamos fazendo no Brasil, mas não têm a possibilidade de mudar para lá. Com um hub europeu, podemos contratar essas pessoas

Gabriel Braga, CEO do QuintoAndar

Para Igreja, porém, a empresa precisa se tornar conhecida para atrair os profissionais. “O Nubank, por exemplo, é muito conhecido e visado no Brasil, mas se ele estiver contratando gente na Europa e não for minimamente conhecido na região, vai ser difícil fazer o recrutamento. É importante que, mesmo que uma empresa esteja apenas explorando um mercado, tenha presença no continente europeu”.

Ligados em tendências e incentivos

Igreja lembra que o Brasil é um país continental e, por isso, há pouco contato com a cultura de países fronteiriços. Na Europa, é o oposto, com muita troca entre os países. Assim, por mais que Loggi esteja em Lisboa e Nubank na Alemanha, as empresas têm acesso a conhecimento de diversos territórios.

Somos capazes de nos conectar a diferentes ecossistemas de tecnologia, o que nos permite estudar e aplicar tendências globais de forma rápida

Renee Mauldin, do Nubank

E cada cidade europeia pode representar algum atrativo, de acordo com o ramo e as expectativas das empresas brasileiras. Berlim, na Alemanha, por exemplo, é referência em sistema bancário digital.

“Queremos estar próximos de outras empresas e comunidades inovadoras. É por isso que buscamos lugares que estejam florescendo com novas ideias e alinhados à nossa cultura acelerada de startup”, complementa Mauldin.

Portugal, escolha da Loggi e do QuintoAndar, do ponto de vista de negócio, é como uma entrada suave no mercado europeu. “É um país cuja cultura e língua são semelhantes à nossa, além de estar investindo para atrair mais empresas de inovação para cá”, diz Igreja. Nos últimos cinco anos, mais de 80 centros de tecnologia se instalaram em território português e foram criados mais de 8,5 mil postos de trabalho.

“Para o grupo de tecnologia, o país tem apresentado destaque pelo estímulo do governo, que tem um programa de incentivo à imigração chamado Tech Visa”, explica Eduardo Thuler, da Loggi.

Criado em 2019, o “visto” diminui a burocracia na contratação de profissionais estrangeiros no mercado da tecnologia. Portugal oferece, ainda, incentivo fiscal e desconto no imposto de renda para residentes de outras nacionalidades.

Mudança pode mostrar potencial do Brasil

Segundo Arthur Igreja, esse movimento de internacionalização das empresas brasileiras é positivo para o país.

É legal ver unicórnios desbravando o mundo. É uma imaneira de mostrar o potencial do Brasil e pode despertar o interesse de outras companhias

Arthur Igreja

O hub de tecnologia do QuintoAndar deve começar a funcionar em março de 2022 com cerca de 50 colaboradores.

Já o Nubank abriu o primeiro hub de tecnologia internacional em Berlim, mas já tem times também nos Estados Unidos, Argentina e Uruguai, além de México e Colômbia, onde o Nubank tem operação. Atualmente, o banco digital conta com colaboradores de 46 nacionalidades diferentes, segundo a empresa.

A Loggi, plataforma de entregas, inaugurou um escritório em Lisboa em 2020, pouco antes da pandemia. Atualmente, o hub tem 60 pessoas de tecnologia. “Nós queremos chegar, em 2022, a 150 colaboradores em Lisboa”, diz Eduardo Thuler, vice-presidente de produto e líder do escritório em Portugal.

Segundo o executivo, pouco menos da metade dos colaboradores são brasileiros. O segundo maior grupo é o de portugueses. Há, ainda, funcionários do Egito, Romênia e Coreia.

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