Estímulos econômicos não garantem crescimento, diz estudo do Morgan Stanley

Brasil está entre os países emergentes que mais injetaram recursos na economia durante a pandemia de Covid-19

Karla Chavesda CNN

Em São Paulo

Ouvir notícia

Um estudo do banco de investimento Morgan Stanley, um dos principais do mundo, aponta que a oferta de grandes estímulos econômicos durante a pandemia não garante padrões de crescimento sustentável a longo prazo.

A estratégia de injetar mais dinheiro para um maior crescimento econômico, usada por muitos países, mostrou-se fundamental para garantir a travessia durante a pandemia, mas pode não ter o resultado esperado no longo prazo, segundo o estudo.

“Na verdade, no longo prazo, o que faz o crescimento econômico ser sustentável é investimento, ou em infraestrutura ou em educação, para que se aumente a produtividade e você aumente o PIB potencial desses países. Todo esse pacote pós-Covid, de todas essas economias, não veio acompanhado disso. Até porque isso tem um custo político e tem uma negociação política alta, que é reformas, que é políticas de investimento de longo prazo”, disse Erminio Lucci, CEO da BCG, à CNN.

De acordo com o levantamento, a matemática que funciona para economias desenvolvidas, como a dos Estados Unidos, não é a mesma para nações ainda em desenvolvimento. Para demonstrar isso, o estudo dividiu os principais mercados emergentes em dois grupos: no primeiro, os países que mais promoveram incentivos econômicos em 2020;  no outro, os mais conservadores. O resultado mostrou que as nações que gastaram mais estão tendo recuperações mais fracas.

“A necessidade de gastar mais por conta da pandemia piorou a dívida pública, isso piora a percepção de risco. Aí o câmbio desvaloriza, gera inflação e o Banco Central tem que agir. A Bolsa cai e esse pacote todo gera menos crescimento econômico”, detalhou o economista Samuel de Abreu Pessôa.

Efeitos colaterais

Segundo o Morgan Stanley, o Brasil está entre os mercados emergentes que mais injetaram dinheiro na economia, junto com as Filipinas e a Hungria: cada uma dessas nações gastou — pelo menos — 16% do Produto Interno Bruto (PIB) em estímulos, incluindo novos gastos do governo e compras de ativos pelo Banco Central. De acordo com a pesquisa, para estes países os efeitos colaterais, como maior inflação, desvalorização da moeda e aumento da taxa de juros, são maiores.

“Após a pandemia, você vai ter um período de mais inflação, mas com um patamar de dívida PIB mais alto do que pré-pandemia. Então, para ajustar as contas públicas, vai demorar um tempo. Isso, politicamente, custa. Necessariamente, o que acontece? Esses países vão entrar em 2022, 2023, com maior risco, com maior aversão desse investidor estrangeiro em investir em países com uma dinâmica ruim de dívida, disse Lucci.

Com base na previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI), o déficit governamental, no fim deste ano, também piora para os que gastam muito com o estímulo econômico, quase 7% do PIB — contra 6% para os que gastam menos.

No Brasil, desde o início da pandemia, um dos principais desafios é conseguir equilibrar o pagamento dos auxílios, que são fundamentais para milhões de brasileiros, com medidas que garantam o crescimento econômico.

“Dado que a gente, por conta da epidemia, teria que gastar mais, teríamos que aumentar a dívida pública. Para que nós não tivéssemos efeitos colaterais, nós teríamos que, simultaneamente, aprovar um pacote de medidas que sinalizassem que, ao longo do tempo, lá na frente, essa dívida pública iria reduzir”, afirmou Pessôa.

Importância das reformas

No cenário de hoje, aprovar reformas estruturais para modernizar as economias é fundamental — e, no caso do Brasil, isso inclui as reformas administrativa e tributária, por exemplo, que vão sinalizar para o mundo que os gastos que o país teve que adotar durante a pandemia não vão ser permanentes.

Para o economista Sérgio Rodrigo Vale, o Brasil só vai conseguir garantir o equilíbrio nas contas e um crescimento real, a médio e longo prazo, quando passar a tratar, com urgência as reformas econômicas.

“Se a gente atacasse, hoje, por esses dois lados, uma boa reforma administrativa de quem tá no setor público, e uma reforma tributária pensando em bens e serviços para aumentar a produtividade, seria o ideal”, disse.

(Publicado por Daniel Fernandes)

Mais Recentes da CNN