Furo no teto está precificado, problema é exceção virar regra, avaliam analistas

Mercado começa a olhar a possibilidade de que outros assuntos tão importantes como o programa social que substitui o Bolsa Família justificarem novos rompimentos

B3 em São Paulo19/10/2021 REUTERS/Amanda Perobelli
B3 em São Paulo19/10/2021 REUTERS/Amanda Perobelli REUTERS/Amanda Perobelli

Ligia Tuondo CNN Brasil Business

São Paulo

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A percepção de que o “puxadinho” sugerido pelo ministro Paulo Guedes na véspera para viabilizar o Auxilio Brasil pode representar o fim do teto de gastos agitou o mercado financeiro nesta quinta-feira (21). Apesar de o dia ser de forte queda na bolsa e alta do dólar, a avaliação de analistas ouvidos pela CNN é de que um eventual rombo no teto já está precificado. O problema, dizem os especialistas, é se a moda pegar.

Na véspera, o governo confirmou o Auxílio Brasil de R$ 400. O valor é R$ 100 a mais do que o proposto inicialmente e mais que o dobro do pagamento médio do Bolsa Família, de R$ 189. Já o número de beneficiários permanentes subiria de 14,7 milhões para 17 milhões.

Ninguém questiona a necessidade de oferecer ajuda às famílias vulneráveis nesse momento. O grande problema é que o governo não deixou claro de onde virá esse dinheiro. Ao tentar explicar, Guedes disse que considera permitir que o teto seja extrapolado em R$ 30 bilhões.

“Esse valor não teria grande impacto no orçamento. O problema é que o governo mostra estar disposto a romper com o arcabouço institucional para poder justificar suas medidas”, diz Pedro Lang, chefe de renda variável da Valor Investimentos.

Para o analista, o tamanho desse rombo já está precificado, mas o mercado começa a olhar a possibilidade de que outros assuntos tão importantes como o programa social que substitui o Bolsa Família justificarem novos rompimentos. “Por conta da trajetória fiscal delicada do Brasil, qualquer exceção que vire regra causa um medo gigante nos investidores”, diz.

Vale lembrar que a regra que limita o avanço anual dos gastos públicos à inflação do ano anterior surgiu em 2016 a partir da constatação de que o país caminhava para um cenário de desastre fiscal. Naquela época, as despesas públicas cresciam ao ano sistematicamente 6% acima da inflação, e a análise geral é que não demoraria até que o país perdesse a capacidade de arcar com suas dívidas.

Sinais de descontrole

O medo agora é que esse cenário de descontrole fiscal volte em algum momento. E o governo segue dando sinais de que isso pode acontecer. Na tarde desta quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) prometeu um auxílio a caminhoneiros para conter uma nova paralisação da categoria diante da alta no preço diesel.

“Os números serão apresentados nos próximos dias. Vamos atender aos caminhoneiros autônomos. Em torno de 750 mil caminhoneiros receberão ajuda para compensar aumento do diesel”, disse o presidente.

Depois desse anúncio, o Ibovespa, que caía quase 3%, acelerou as perdas e passou a recuar mais de 4%. Enquanto isso, o dólar chegou mais perto dos R$ 6.

Já as taxas dos contratos futuros de juros negociados na B3, que saltavam mais de 60 pontos-base pela manhã reagindo às falas de Guedes na véspera, passaram a subir até 90 pontos-base.

Para se ter uma ideia, os contratos futuros com vencimento em um ano, que terminaram o dia ontem em 9,53%, já chegam aos dois dígitos, a 10,15%. Essa medida transmite a expectativa do mercado para os juros no curto prazo. É como se o mercado estivesse sinalizando que espera que a Selic, taxa básica da economia, chegasse nos dois dígitos mais rápido.

Outro indicador do estresse dos mercados hoje diante do pavor de descontrole das contas públicas é o CDS de cinco anos do Brasil, usado como medida do risco-país, que subiu ao maior nível em mais de seis meses. O CDS é um derivativo que funciona como uma espécie de seguro contra calote de uma dívida — seja soberana ou corporativa— e tem precificação baseada no risco de base dos treasuries, os títulos do governo dos EUA, considerados o ativo mais seguro do mundo.

Vai melhorar?

A avaliação de que as recentes decisões do governo não foram ideais já está dada. Mas o stress visto nos ativos tende a entrar num equilíbrio agora, e pode ser perturbado caso o governo mude de novo de ideia.

“Eles finalmente assumiram o custo disso [Auxílio Brasil]. Vão querer furar o teto para dar o auxílio. Isso tem um custo no mercado de capitais, e está sendo precificado. Uma vez precificado, espero que venha certa clareza. O mercado cai, mas depois volta. Mas só volta se não tiver nova contradição em relação ao que eles falam e o que eles vão fazer”, diz André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton.

“O dólar já subiu bastante. Esse cenário de tensão deve dar o tom do dia e talvez da próxima semana. Depois tende a estabilizar”.

O momento também é oportuno para investidores em busca de “pechinchas”, destaca Alexandre Espirito Santo, economista-chefe da Órama. “A nossa bolsa está relativamente barata, por isso, não creio que seja interessante vender nesse nível”, diz.

O problema maior, segundo ele, é efeito das decisões do governo no câmbio. “O pior mesmo é o efeito secundário do dólar sobre a inflação, que já está muito alta”, diz.

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