Geração de energia por termelétricas em agosto bate recorde no Brasil

Pior crise hídrica dos últimos anos e maior oferta das usinas térmicas no país explicam novo recorde; alta na demanda energética também impacta produção

Lucas JanoneIuri Corsinida CNN

No Rio de Janeiro

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Um levantamento feito pela CNN com base em dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) aponta que o mês de agosto foi o período que houve a maior quantidade de energia gerada por termelétricas, desde o início da série histórica, iniciada em 1999 pelo ONS.

Foram cerca de 20.970 megawatts-médios (MWmed) gerados por termelétricas no Brasil no mês de agosto, superando o recorde anterior registrado no mês de julho deste ano (18.625 MWmed). E o volume produzido pelas termelétricas pode precisar aumentar ainda mais, já que a demanda por energia no país cresce constantemente.

O levantamento da CNN mostra que a demanda por energia cresceu em 12% nas primeiras duas semanas de setembro, quando comparado com o mesmo período do mês anterior. De acordo com as informações apuradas, o consumo elétrico saltou de 913.596 MWmed em agosto, para 1.039.497 no mês seguinte.

As altas na quantidade de energia gerada por termelétricas representam um reflexo direto da pior crise hídrica vivenciada pelo Brasil em pelo menos 90 anos. Em setembro, com dados colhidos até o dia 17 deste mês, a média de geração de energia por termelétricas já está em 20.454,13 MWmed. Também acima do registrado em julho deste ano.

Segundo especialistas ouvidos pela CNN, a tendência é de que essa geração continue aumentando, já que houve aumento do acionamento das termelétricas para suprir a deficiência das hidrelétricas.

Porém, o maior desafio, segundo o Professor Marcio Cataldi, coordenador do curso de Engenharia de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Universidade Federal Fluminense, é conscientizar a população e as indústrias a reduzirem o consumo de energia.

Segundo ele, mesmo que chova bastante nos próximos meses, as chuvas não serão suficientes para suprir os reservatórios a ponto de ajudar na crise hídrica. Sendo assim, segundo ele, a única solução para evitar apagões ou cortes programados de energia é, de fato, a redução do consumo.

“O solo está tão seco que mesmo que chova muito agora, a contribuição será muito pequena. É muito difícil aumentar efetivamente o nível dos reservatórios. Se chegarmos em meados de novembro, podemos estressar o sistema ainda mais. Ou seja, se o consumo aumentar muito em um dia, com a chegada de dias mais quentes a partir do próximo mês, o consumo acaba sendo maior do que o previsto. Sendo assim, será preciso acionar fontes para gerar energia acima do programado. Mas se o sistema está no limite (estressado), você não tem de onde tirar e aí ocorrem os apagões”, explicou Cataldi.

O professor critica a demora na tomada de decisões por parte do governo federal. Segundo ele, em dezembro do ano passado já havia sido identificada uma possibilidade cada vez maior de racionamento neste ano e a União poderia ter estipulado medidas com mais antecedência.

“Em dezembro de 2020 já vimos que tinha uma grande chance de racionamento. Então já tínhamos essa perspectiva dessa crise hídrica. Uma coisa é a seca, fenômeno natural, mas a crise hídrica é também questão de gestão e medidas já poderiam ter sido tomadas antes para evitar chegarmos nesse patamar”.

Cataldi cita medidas adotadas na crise hídrica de 2001, como a isenção de tarifa para quem consumisse o mínimo, bônus para quem reduzir consumo, conscientização midiática no intuito de incentivar a população a consumir menos energia. Medidas que ou não foram adotadas ainda neste ano, ou que demoraram para ser estipuladas.

O professor considera a Redução Voluntária de Demanda de Energia Elétrica (RDV) implantada recentemente pelo Ministério de Minas e Energia como algo positivo, mas que também já deveria ter sido feito antes. Além disso, o RDV só contemplará grandes consumidores de energia – majoritariamente indústrias.

Porém, segundo Cataldi, a medida deveria ser estendida também para o consumo residencial. “Sem essas medidas, os apagões ou cortes de energia serão inevitáveis nos próximos meses”, finaliza.

Nota do governo federal

O Ministério de Minas e Energia (MME) afirmou que, desde outubro de 2020, tem adotado diversas medidas para mitigar o impacto no setor elétrico do pior cenário de escassez hídrica da história do país. E destacou que toma medidas tanto para aumentar a oferta de energia quanto para reduzir o consumo.

Entre as ações propostas pelo governo federal estão o acionamento de mais termelétricas, flexibilização de restrições de defluência mínima e de armazenamento mínimo em reservatórios de usinas hidrelétricas, flexibilizações de critérios operativos, entre outros. E ressaltaram que as usinas termelétricas foram acionadas já em outubro do ano passado.

O Governo Federal também afirmou que um decreto estabelece medidas para redução do consumo de energia elétrica na administração pública federal. O objetivo é ter uma redução de 10% a 20% no consumo de eletricidade em relação ao período pré-pandemia.

“As restrições de vazões e os níveis mínimos de reservatórios das usinas hidrelétricas têm sido analisadas com uma visão de País, ponderando os usos dos recursos hídricos e resguardadas as prioridades legais”, destaca a nota.

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