Governo deveria ter agido em 2020 contra crise hídrica, diz especialista

País adotou bandeira de escassez hídrica em setembro

Produzido por Alvaro Gadelhada CNN

Em São Paulo

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Não será possível reduzir as tarifas na energia elétrica como levantado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na última quinta-feira (14), de acordo com o professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP Pedro Côrtes. O especialista explicou à CNN neste sábado (16) os motivos e diz que o governo deveria ter agido bem antes para que a situação do abastecimento no país não chegasse a esse ponto.

“É uma intervenção totalmente descabida. Não há sustentação técnica para uma mudança menor da tarifa praticada hoje, infelizmente. Estamos com uso intensivo das termelétricas, esse custo precisa ser pago e cabe a nós, consumidores pagar essa conta. Não há como promover uma redução agora, as termelétricas ficariam sem condição de operação, algumas iriam interromper as operações e aumentaria ainda mais o risco de apagões ou racionamento”, afirma.

“O governo deveria ter tomado medidas no início do ano ou no segundo semestre do ano passado, quando já se sabia que o período de primavera e verão não teria chuvas suficientes para recarregar os reservatórios e estaríamos sob o efeito do La Niña. Essas providências já poderiam ter sido tomadas, ele demorou a tomar atitudes, e uma delas, a prática de bônus, só vai ser percebida em janeiro do ano que vem. Então efetivamente o governo não está tomando as medidas que poderia no enfrentamento dessa crise”, continua.

As atitudes poderiam ser outras, diz Côrtes. “O governo vem usando praticamente numa política tarifária para inibir o consumo, isso tem todo o impacto na inflação e no custo de vida. E agora ele (Bolsonaro) atropela o sistema com esse tipo de declaração de ‘voltou a chover, vamos voltar à bandeira amarela’. Os reservatórios não estão recuperados. Esse tipo de declaração só tumultua mais o ambiente”, afirma.

A redução de impostos sobre a conta de energia elétrica não parece viável a curto prazo, avalia o professor. “Os governos seja federal ou estaduais, não querem efetivamente abrir mão da arrecadação. Reduzir os impostos e encargos sobre a energia elétrica vejo como muito improvável diante da voracidade diante da arrecadação”.

Soluções, no entanto, precisam ser buscadas. “Temos uma situação climática que vem se mantendo de redução de volumes de chuva que se estende por dez anos, e a tendência é que permaneça. Então os reservatórios tendem a manter o nível baixo, mesmo que haja alguma recuperação no período de chuva. Isso é uma consequência do desmatamento da Amazônia, que está precificado na nossa conta de energia. Isso coloca em risco nosso abastecimento para as próximas décadas. Seria importante rediscutir esse modelo para adoção de energia de fontes sustentáveis, como eólica e solar”.

 

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