Inflação deve ficar acima de 10% ao menos até fevereiro, diz economista da FGV

Desaceleração dos preços deve acontecer no segundo semestre, mas inflação deve fechar o ano bem acima da meta, alertou André Braz

Elis FrancoRaphael Coraccinida CNN

Em São Paulo

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Os preços medidos pelo IPCA devem seguir acima dos dois dígitos ao menos até o final do mês de fevereiro e, embora uma desaceleração seja esperada para a metade final de 2022, a inflação pode fechar o ano quase dobrando a meta, que foi estabelecida em 3,5%, é o que aponta o economista da FGV/IBRE, André Braz.

“Nós vamos ter janeiro e fevereiro garantindo que a taxa em 12 meses se mantenha em dois dígitos”, disse André Braz à CNN nesta quarta-feira (26). “Fechamos em 10,06% esse IPCA, que desacelerou em 12 meses, mas ainda continua em dois dígitos”, adicionou o especialista.

Considerado a prévia da inflação oficial no Brasil, o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15), registrou alta de 0,58% em janeiro, divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Ele relacionou a persistência do alto índice de inflação a alguns itens em especial, entre eles bens duráveis.

“As pressões inflacionárias continuam bem disseminadas entre as principais despesas familiares, como itens de linha branca e carros, tudo isso continua subindo muito de preço”, disse.

 

O aumento dos alimentos também mantém os preços pressionados, segundo o especialista, por conta de “fenômenos climáticos, que são mais fortes nessa época do ano e que afetam principalmente a oferta de produtos in natura. Frutas, legumes, hortaliças, tiveram um aumento importante neste mês”, explicou.

Aumento de 25% no transporte público

Para fevereiro, ele destaca também reajustes em serviços importantes, que pesam sobre o orçamento familiar, como da mensalidade escolar e, principalmente, do transporte público.

“Existe impacto em preços administrados relevantes, como passagem de ônibus, se a gente levar em conta o aumento do diesel, das peças de reposição, dos veículos, dos pneus. A gente teria aí reajuste em torno de 25%”, diz Braz.

Ele ressalta que as prefeituras estão se movimentando para tentar uma maneira de subsidiar esse aumento da passagem e diminuir o impacto do serviço essencial na inflação.

Clima e demanda mundial

Ainda que a inflação feche fevereiro acima dos dois dígitos, Braz afirma que a tendência é que ela perca força ao longo do ano por conta de um clima mais favorável às lavouras brasileiras e pelo esfriamento da demanda mundial.

A perspectiva da FGV/Ibre é de inflação próxima de 6% ao final de 2022, bem abaixo da registrada em 2021, porém, ainda muito acima da meta, de 3,5%.

Braz afirma que a política de aumento de juros nas economias desenvolvidas pode esfriar a demanda por produtos básicos, o que esfriaria também a inflação brasileira, já que o brasileiro compete por esses itens com consumidores de outros países, em especial, dos grandes mercados.

Petróleo pode mudar o cenário

Porém, a iminência de uma guerra na Ucrânia e sanções econômicas envolvendo a Rússia, grande produtora de energia, poderia mudar o cenário e alavancar o preço do petróleo acima dos US$ 100.

Segundo o Centro Brasileiro de Infraestrutura, se o barril ficar acima de US$ 100, a gasolina pode chegar a mais de 10 reais o litro em alguns lugares do Brasil, causando uma forte pressão inflacionária em toda a cadeia.

Além disso, aumento do dólar e instabilidade política poderiam agravar esse cenário inflacionário, diz Braz.

“A gente deve levar tudo isso em consideração. Há, sim, condições de a gasolina repetir o tom do ano passado e vir como grande destaque da inflação desse ano”, alertou.

“Mas, colocando essa guerra comercial de lado e considerando que grandes economias devem diminuir seus estímulos, aumentar juros e parar de comprar títulos, isso também pode frear a demanda e trazer alguma estabilidade no preço do petróleo”, afirmou o especialista.

Com informações de Priscila Yasbek e Ligia Tuon

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