Liberação de petróleo pelos EUA teria efeito pequeno nos preços do Brasil

Segundo especialista, ação pode ter um impacto de curto prazo e tendência de alta do dólar neutraliza qualquer baixa

Preço do petróleo só teria grandes variações se Opep+ aumentasse produção
Preço do petróleo só teria grandes variações se Opep+ aumentasse produção Getty Images

João Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Os Estados Unidos anunciaram nesta terça-feira (23) que vão liberar cerca de 50 milhões de barris de petróleo de suas reservas estratégicas, em um movimento para aliviar o preço internacional da commodity. A ação será acompanhada por outros países, incluindo Índia, China e Japão.

O anúncio ocorre em meio a um ciclo de alta do petróleo iniciado no fim de 2020, mas que se intensificou em 2021. O petróleo tipo Brent, referência para a Petrobras, segue girando em torno da casa dos US$ 80.

Para especialistas consultados pelo CNN Brasil Business, a ação pode ter um impacto de curto prazo no preço do petróleo, mas qualquer variação significativa dependerá da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados, a Opep+.

Nesse sentido, quedas, mesmo que pequenas, no preço da commodity permitiriam que a Petrobras reduzisse o preço nas refinarias. Entretanto, isso duraria pouco, e qualquer queda seria neutralizada caso o dólar, moeda em que o petróleo é cotado, continue a subir no Brasil.

O movimento dos EUA

Para Virginia Parente, professora do Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE-USP), é preciso primeiro saber mais detalhes sobre o ritmo e o período de liberação das reservas americanas para projetar o efeito sobre os preços.

Até o momento, o governo Biden afirmou apenas que a quantidade seria liberada “nos próximos meses”, por meio de um empréstimo e também via vendas para empresas.

Parente afirma que os Estados Unidos possuem uma reserva significativa de petróleo, mas que ainda são os principais consumidores da commodity no mundo. Os países que vão liberar parte das suas reservas também são grandes compradores, em geral mais dependentes do petróleo pela pobreza de outras fontes de energia.

A professora diz que a medida faz parte de um esforço desses países para aumentar a oferta do petróleo de algum modo e reduzir os preços, já que os grandes produtores globais, reunidos na Opep+, se recusam a retomar o nível de produção pré-pandemia.

“A Opep+ ganha em quantidade com a demanda alta e também pelo preço, a receita é preço vezes quantidade, então eles estão empurrando as duas frentes para embolsar ganhos”, afirma.

Política de produção da Opep+ é principal entrave para queda nos preços do petróleo / REUTERS/Vasily Fedosenko

Os países produtores de petróleo estão, segundo a professora da FGV Energia Fernanda Delgado, surfando na tendência de alta para recuperar as perdas de 2020. Se hoje o petróleo ronda os US$ 80, ele passou a maior parte do ano passado cotado a US$ 40, distante da média histórica entre US$ 60 e US$ 70.

Delgado afirma que o preço alto não é vantajoso para a organização pensando no médio prazo, já que isso incentiva países e indústrias a procurarem outras fontes de energia. Parente cita, como alternativas, desde fontes renováveis até o gás natural e a possibilidade de aumentar temporariamente o consumo de carvão.

“Eles sabem que a demanda no curto prazo é inelástica [variará pouco], é difícil os agentes se organizarem para consumirem mesmo, mas no médio prazo há a tendência de migração para outras fontes”, diz.

O efeito no preço

Delgado afirma que qualquer efeito que a liberação de reservas tenha na cotação do petróleo durará pouco e não levará a uma queda grande. Seria, segundo ela, um ponto de inflexão, mas sem uma alta na produção a tendência de valorização retornaria em pouco tempo.

“A quantidade anunciada é um terço do consumo diário mundial, não faria muita diferença. É mais um efeito psicológico, trazer uma significância de calmaria para o mercado, do que um mecanismo de pressão na Opep+”, diz.

Alguns investidores no mercado já apostam que a Opep+ poderia reduzir a produção ao invés de aumentá-la como reação ao movimento liderado pelos Estados Unidos, o que teria levado a uma alta dos preços após o anúncio. Mas Delgado diz que isso está ligado mais à expectativa de que a produção será mantida.

Já Parente afirma que a Opep+ pode “pagar para ver” se a medida terá efeito. “As reservas são altas, mas são finitas. Acho que a ideia do Biden de coordenar com outros países é essencial para o sucesso dessa medida, porque os EUA respondem por uma fatia importante da demanda, são os principais consumidores, mas sozinhos não vão dar conta de atingir essa meta de pressionar a Opep”.

“Eu não sei se é uma pressão para a Opep+, não faz muito sentido porque seria pontual, se fosse uma forma mais perene, constante de ação, até poderia ser um mecanismo de pressão. Acho que o que buscam é um alívio nos preços, mesmo que de alguns dias ou semanas”, diz a professora da FGV.

Ela também aponta que, no mercado futuro, as apostas ainda são de uma tendência de alta, algo que ocorre há quase dois anos. Entre os fatores para isso estão o inverno no Hemisfério Norte, a crise de energia em vários países e a demanda alta, com uma oferta reduzida.

Mais do que a liberação das reservas, Delgado afirma que a Opep+ consideraria dois fatores para aumentar a produção. O primeiro seria já ter uma recuperação dos prejuízos de 2020, e o segundo a intensidade da busca por alternativas.

Segundo ela, o fim do inverno no Hemisfério Norte, com a demanda um pouco menor, pode levar a uma mudança de postura da Opep+. Alguns especialistas, porém, mantêm apostas de que o petróleo poderia chegar a até US$ 120 por barril.

“É um problema pontual de descasamento entre oferta e demanda, as duas não estão normais, a demanda explodiu e a oferta está artificialmente represada, e podemos ter novos lockdowns na Europa, que vão refletir no preço negativamente mais para frente”, diz.

E no Brasil?

Considerando apenas a partir do início de 2021, o preço da gasolina já subiu mais de 70% no Brasil. As altas refletem a política da Petrobras de paridade, em que o preço cobrado nas refinarias segue a cotação do petróleo, que não apenas subiu como é cotada em dólar.

Parente afirma que a média de alta ao redor mundo é de 40%, o que indica o peso da desvalorização do real ante o dólar nas elevações dos combustíveis. Entretanto, a alta do petróleo, de cerca de 60%, ainda é a maior responsável.

Nesse sentido, uma queda no preço internacional da commodity, mesmo que pequena, permitiria que a Petrobras abaixasse um pouco os preços. Porém, a queda seria pontual, e então a tendência de alta retornaria.

“Em teoria, uma queda mesmo que pequena levaria a uma redução nas refinarias, que é o preço manejado na Petrobras, mas se chega ao consumidor final é outra coisa, porque não tem um controle do preço na ponta”, diz Delgado.

Segundo a professora da USP, “se o preço do petróleo ceder um pouco lá fora, vai ser bom para os países que mantém a paridade, mas só vai ser válido se os EUA e aliados conseguirem manter essa política por um tempo enquanto negociam, porque a Opep vai fazer conta e ver se compensa ou não aumentar a produção”.

O problema, entretanto, é que essa conta de redução do preço da gasolina só seria válida se o dólar não subir.

Essa não é a expectativa atual da maior parte dos agentes do mercado financeiro, que culpam a incerteza fiscal com os planos de gastos do governo e a possibilidade de aceleração da retirada de estímulos nos Estados Unidos por possíveis novas elevações da moeda em 2022.

“Se o dólar continuar subindo, esse efeito seria neutralizado”, diz Parente.

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