Mercado de Carbono: conheça empresas que pretendem compensar suas emissões

Mecanismo discutido na COP26 promete benefícios econômicos e ambientais

Towfiqu barbhuiya/Unsplash

Natalia Norado CNN Brasil Business*

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A venda de créditos de carbono é um mecanismo que permite aos países e às empresas atingirem suas metas de emissões de gases que agravam o efeito estufa, os chamados GEE, que por sua vez impactam nas mudanças climáticas.

Convencionou-se que uma tonelada de dióxido de carbono (CO2) corresponde a um crédito de carbono. As emissões de outros gases também seguem essa conversão.

O mercado de carbono funciona para balancear – e limitar – as emissões. Quem emite abaixo do limite proposto vende esses créditos de carbono  para quem emite a mais.

Apesar de o mecanismo de compra e venda de crédito de carbono existir desde meados dos anos 2000 e já ser adotado por muitas empresas, ainda não há um mercado regulado.

A ideia era que isso ocorresse durante a COP26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), realizada em Glasgow em novembro de 2021,e o avanço sobre o tema foi limitado.

Entre as empresas, as metas variam entre zerar, diminuir ou compensar as emissões de carbono ao longo dos próximos anos, ou décadas. Para o especialista em Economia do Meio Ambiente e professor da Universidade de São Paulo, Ariaster Chimeli, “zerar é sempre possível, mas esse custo é muito alto em termos de desemprego e perda de lucro”, por isso, a compra de créditos de carbono é a opção mais adotada pelas empresas.

Uma das principais fontes emissões de GEE atualmente é o uso de combustíveis fósseis, que são mais acessíveis do que fontes de energia limpa para muitas empresas.

Segundo Chimeli, essa diferença de custo se dá em “grande parte porque os combustíveis fósseis têm muitos subsídios de governos do mundo inteiro, então de certa forma a poluição está sendo subsidiada”.

Para Chimeli, “a compensação é uma forma de internalizar esse custo que recai sobre o meio ambiente, o que pode ser feito com títulos negociáveis ou com impostos sobre o carbono.”

No Brasil não existem leis que obriguem as empresas a compensar carbono ou estabelecer metas em relação às emissões de GEE. Atualmente esse compromisso é feito de maneira voluntária e sem incentivos fiscais do governo.

Segundo o CEO da startup de logística iTrack Brasil, Daniel Drapac, antes de estabelecer metas, “as empresas precisam conhecer suas emissões e saber qual é o impacto que as atividades geram no meio ambiente”.

Drapac explica que existem basicamente três formas de emissões que podem ser mensuradas: as que são originadas diretamente das atividades da empresa, as emissões das atividades terceirizadas ou relacionadas às matérias primas e aquelas provenientes do consumo de eletricidade da empresa. “A compra de créditos de carbono tem uma grande base e segurança técnica por conta da estrutura de compliance, verificação e auditoria”.

Vantagens econômicas

Sem incentivos definidos dentro do país e com custos adicionais, não parece lógico que as empresas optem por reduzir ou compensar suas emissões de carbono. Porém, para Chimeli existem pelo menos três vantagens econômicas para as corporações que estão planejando mudar suas práticas.

A primeira delas é o marketing positivo que a empresa promove, “cortar a poluição pode gerar valor no sentido de melhorar a imagem e valorizar aquela marca, abrindo mais oportunidades de mercado e garantindo mais vendas”.

Outro motivo é a antecipação de possíveis regulamentações ambientais, fazendo com que a empresa esteja preparada para evitar futuras multas e impostos, algo que é bem visto pelos acionistas.

Empresas que não se preocupam com os custos de danos ambientais correm mais riscos de ter “choques de custos” no futuro, tornando-se menos interessantes para investidores.

“É muito melhor para a empresa que ela saia na frente para ter essa vantagem competitiva, para não ser pega de surpresa assim como os concorrentes que não se tiverem essa preocupação”, explica Chimeli.

Atualmente, investidores e consumidores de todo o mundo estão de olho em empresas alinhadas com os conceitos ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança), e um selo de compensação de carbono se torna uma característica de competitividade entre as companhias.

Para Drapac, este é um “caminho sem volta”, em que as companhias precisam investir para continuarem atraindo investidores.

Conheça algumas empresas que anunciaram metas de redução de emissões:

Apple

Em outubro de 2021, a Apple divulgou que o número de fornecedores que utilizam apenas energia limpa mais do que dobrou ao longo do último ano. Essa é uma das etapas para que a empresa atinja a meta de compensar as emissões GEE de todos os produtos e da cadeia de fornecimento até 2030.

Ambev

A empresa de bebidas anunciou recentemente duas metas de sustentabilidade: a redução das emissões de carbono de toda a cadeia em 25% até 2025, e zerar as emissões líquidas até 2040.

Amazon

A empresa anunciou em 2019 que pretende compensar suas emissões de carbono até 2040. Recentemente, a Amazon se juntou à startup BovControl para criar a plataforma Sabiá para adquirir créditos de carbono e atingir suas metas de compensação.

Boticário

Em junho do ano passado, a empresa anunciou que 100% da energia utilizada em suas fábricas é de fontes renováveis.

Natura

A Natura afirma que desde 2007 compensa todos os poluentes produzidos pelas atividades com apoio de projetos socioambientais.

iFood

A empresa anunciou a compra do equivalente a mais de 115 mil toneladas de CO2 para neutralizar seu impacto ambiental.

Unidas

A empresa disponibiliza a opção de compensação de carbono dentre as preferências dos consumidores ao alugar um carro. A quantidade de quilômetros percorridos e a consequente emissão de GEE podem ser mensuradas e compensadas por meio da compra de créditos de carbono.

*Sob supervisão de Ana Carolina Nunes

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