Modelo dos grandes da Europa, clube-empresa pode ser aprovado no Senado

Enquanto projeto tramita no Congresso, clubes avaliam a possibilidade de mudança na gestão e olham para exemplos de sucesso, como RB Bragantino e Cuiabá

André Jankavski, Leonardo Guimarães e Iara Oliveira,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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O futebol brasileiro, há tempos, sofre com críticas em duas áreas: o calendário desorganizado e a falta de gestão dos clubes. Boa parte delas com razão, diga-se de passagem. E o que estava ruim ficou ainda pior com a pandemia. Jogos a cada dois dias e estádios vazios complicaram mais a qualidade nada alta das partidas no Brasil e esvaziaram os cofres dos combalidos clubes brasileiros.

Um desses problemas –o das finanças– pode ter um empurrãozinho para ser solucionado, caso um projeto de lei que está em tramitação no Senado Federal seja aprovado. O PL 5516/2019 cria a Sociedade Anônima do Futebol. Em outras palavras, os clubes poderão se tornar clubes-empresa, modelo que já é bem difundido pelas principais ligas do mundo.

De acordo com um levantamento realizado pela consultoria EY, 92% dos clubes das cinco maiores ligas europeias funcionam como empresas – no Brasil, o número é exatamente o inverso. Caso aumente o escopo para a 2ª divisão desses países, o percentual vai para 96%. Alguns deles, como Juventus e Manchester United têm, inclusive, ações negociadas em bolsa.

Mas o que mudaria, de fato, caso o projeto de lei seja aprovado? Primeiro, poderia atrair mais investidores ao futebol brasileiro. Atualmente, por aqui, os clubes são associações sem fins lucrativos. A gestão deles, em sua maioria, é feita por presidentes eleitos por um seleto clube de associados. Isso, segundo o consultor Pedro Daniel, da EY, é um grande problema.

Afinal, esse tipo de gestor, normalmente, é mais voltado para focar em resultados dentro de campo do que arrumar a casa fora dele. Usando uma comparação futebolística, é como se eles utilizassem os dez jogadores de linha como atacantes e deixassem o goleiro totalmente desguarnecido. Às vezes, isso dá resultado – mas que vem com uma cobrança cara lá na frente.

O Cruzeiro talvez seja a maior prova recente disso. Na década passada, o time mineiro foi um dos maiores vencedores do país. Foram dois títulos do Campeonato Brasileiro, dois da Copa do Brasil e quatro mineiros.

Tudo isso, é claro, após investimentos milionários em jogadores (até mesmo de qualidade duvidosa ou em idade em que o ativo não tem mais retorno de revenda), mas que depois se tornaram inviáveis de serem pagos. Para completar, diversas acusações de corrupção da então gestão – que levantou diversos canecos – passaram a ser rotina no noticiário esportivo.

Red Bull Bragantino
Time do Red Bull Bragantino, um dos clubes-empresas do Brasil
Foto: Bruna Prado/Getty Images

 

“A torcida aplaude quando o erro dá certo. Hoje, o Cruzeiro paga pelos títulos brasileiros de 2013 e 2014, que foram conquistados em condições em que não se dava para manter”, diz Sérgio Rodrigues, presidente do Cruzeiro.

Resultado: em 2019, veio o rebaixamento – o primeiro de sua história, mas algo que se tornou comum em diversos grandes clubes. Até aí, tudo bem. O problema é que o Cruzeiro foi o primeiro grande a não conseguir subir em seu primeiro ano na segunda divisão. Isso impacta diretamente nas finanças do clube. Nos últimos anos, os grandes clubes passaram a perder milhões de reais em receitas em cotas de TV e também em patrocínio.

Luis Orejuela; Cruzeiro
Luis Orejuela, ex-jogador do Cruzeiro, durante campanha que rebaixou o time mineiro à Serie B do Brasileirão
Foto: Pedro Vilela/Getty Images

Estima-se que o rombo do Cruzeiro seja de cerca de R$ 60 milhões por ano, segundo Rodrigues. Para completar, a falta de um pagamento de 850 mil euros para o Al Wahda fez o clube perder 6 pontos na disputa da última Série B, que não fizeram tanta diferença na classificação da Raposa.

Não por acaso, Rodrigues afirma que a resistência atual do clube ao projeto de clube-empresa é “zero”. Mas admite: “está longe de ser a solução ao futebol brasileiro, mas é um passo para a melhoria da gestão.”

Investidores interessados

Como dito, a sucessiva mudança de presidentes dos clubes causa um efeito parecido com o que vemos na política: falta de continuidade nos projetos, especialmente aqueles que precisam de longo prazo. Com isso, se perde tempo e dinheiro.

Rodrigues quer aprovar um novo estatuto no clube mineiro em que o Cruzeiro retiraria o futebol da associação sem fins lucrativos, mas ainda assim manteria 51% das ações. Ou seja, na prática, o Cruzeiro continuaria como controlador, mas teria um investidor em par de igualdade para tocar o projeto. Rodrigues afirma que diversos investidores o procuraram interessados em investir no Cruzeiro.

Mas, de fato, há investidores querendo investir por aqui? Segundo os especialistas, sim. De todos os clubes-empresas do mundo, 35% são geridos por estrangeiros. Alguns exemplos são fáceis de lembrar: o francês Paris Saint-Germain, que tem Neymar entre os seus jogadores, tem como principal acionista o fundo soberano do Qatar.

Assim como o PSG, Chelsea e Manchester City estão nas semifinais da Liga dos Campeões da Europa e são controlados por estrangeiros. A exceção é o Real Madrid, que é uma das poucas associações da Europa – juntamente com o arquirrival Barcelona.

E por que o Brasil seria um bom investimento para esses estrangeiros? É uma lógica parecida com a exploração de commodities por aqui, como a soja, o minério de ferro e o petróleo. Imagine que para um estrangeiro, com o real bem depreciado frente as outras moedas estrangeiras, é muito barato investir e explorar o Brasil, especialmente nas categorias de base.

A diferença é que esse investimento rapidamente pode virar um retorno em euro ou em dólar. É só lembrar por quanto jogadores como Neymar, Gabriel Jesus, entre outros, foram vendidos. Isso é visto no setor de mineração. Não à toa, a Vale é a empresa mais valiosa da América Latina – tem gastos em real e a maioria das suas receitas é em dólar.

Exemplos do Brasil

Porém, mesmo sem a aprovação do projeto, já existem clubes-empresa no Brasil. São três: Red Bull Bragantino e Cuiabá, ambos na primeira divisão, e o Botafogo de Ribeirão Preto (Botafogo-SP), recém rebaixado para a terceira divisão. O Red Bull é talvez o melhor exemplo de investidores estrangeiros interessados no Brasil.

Em março de 2019, o Red Bull comprou a operação do tradicional Bragantino e finalmente chegou à primeira divisão, após anos tentando fazer isso de maneira isolada.

Além do clube de Bragança Paulista, o Red Bull mantém times como o Red Bull Leipzig (Alemanha) e o Red Bull Salzubrg (Áustria). No ano passado, o craque do Brasileirão foi o atacante Claudinho, que joga no time da empresa de energéticos. 

Já o Cuiabá Esporte Clube já nasceu como empresa. Em 2009, o time foi comprado pela família Dresch, dona de uma multinacional da indústria da borracha. Desde a compra do Cuiabá, a família vem investindo no clube, que em 2021 vai fazer a sua estreia na série A.

A possível aprovação do PL que viabiliza a operação do modelo clube-empresa será “ótima” para o time do Mato Grosso e “vai diminuir muito” o custo da operação do clube, afirma Cristiano Dresch, vice-presidente do Cuiabá.

Ele se anima ao comentar sobre a possibilidade de criação de uma cota única de imposto –  de cerca de 7% –, redução da indenização que o clube precisa pagar a atletas em fim de contrato e pagamento de impostos por clubes que seguem o modelo associativo.

Essa, aliás, é uma grande mudança do projeto. Hoje, os times que são associações são isentos do pagamento de diversos impostos.

Com o projeto de lei, esses clubes perderiam a isenção de maneira gradativa até chegarem a pagar 5% de sua receita bruta em impostos, o que incluiria Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ), Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) e o Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social). Isso assemelharia os tributos pagos pelo clube-empresa aos das associações sem fins lucrativos.  

No Brasil, as empresas recolhem 25% do seu lucro para o IRPJ, 9% para o CSLL e 3% das receitas para o Cofins. 

Pagando tudo isso de imposto, o Cuiabá ainda não consegue caminhar com as próprias pernas. Para chegar à elite do futebol brasileiro foi preciso muito investimento, já que o futebol não deu lucro quando a disputa aconteceu em divisões menores. Porém, Dresch não parece tão preocupado com o retorno imediato do investimento. “O clube vale, hoje, mais do que já investimos. O retorno vem a longo prazo”.

Para que o retorno venha, é muito importante que o time se mantenha na Série A, que, segundo o vice-presidente do Cuiabá, é o único lugar que permite que os clubes comecem a sonhar em sobreviver com receita própria.

Por enquanto, a direção do Cuiabá só faz elogios ao modelo profissional que adotou, sem a interferência política dos modelos associativos e gestão exemplar. “Nossa estrutura é mais enxuta que a dos clubes tradicionais e, além disso, não temos dúvida alguma”, diz Dresch.

Cuiabá EC
Jogadores do Cuiabá comemoram vitória sobre o Dom Bosco
Foto: Reprodução/Twitter

Falta gestão

Apesar do otimismo em torno do andamento desse projeto, nenhum investidor vai aportar milhões de reais em uma operação que não consiga parar de pé. Essa é a premissa da iniciativa privada. E quando olhamos para as dívidas dos clubes brasileiros, especialmente se comparadas às receitas, a situação complica para muitos deles. Confira no quadro abaixo.

A situação deve piorar ainda mais nos balanços referentes ao ano de 2020, porque os clubes sequer vão poder contar com as receitas vindas da bilheteria. “A pandemia aumentou ainda mais o desafio das gestões”, diz Amir Somoggi, sócio fundador da consultoria Sports Value, especializada em marketing esportivo.

Por isso, é necessário arrumar a casa, segundo Daniel, da EY. “O projeto de lei ajudará a trazer segurança jurídica para o investidor, mas a gestão das equipes precisa mudar”, diz ele.

Em busca de exemplos

Atualmente, investidores apontam para o exemplo do que boas gestões fizeram com Flamengo e Palmeiras. Nos últimos anos, os dois clubes estão se revezando entre os maiores vencedores do país. E isso não deve mudar no curto prazo, já que ambos possuem muito maior capacidade de investimento do que os outros.

Já o Atlético-MG quer seguir caminho diferente do seu rival e rivalizar com Flamengo e Palmeiras. Não por acaso, se inspira bastante no modelo seguido pelos concorrentes carioca e paulista. Um dos pontos que é crucial para essa mudança é a construção da Arena MRV, em Belo Horizonte.

O Galo está construindo uma nova arena que consumirá investimentos de R$ 560 milhões e, segundo especialistas, pode ter um efeito tão positivo nas receitas do clube quanto o Allianz Parque teve na do Palmeiras. A previsão da inauguração é em outubro de 2022.

O que ainda assemelha mais o exemplo do Atlético ao do Palmeiras é um grande investidor por trás. No Palmeiras, esse processo iniciado pelo ex-presidente Paulo Nobre foi acelerado pelos aportes da patrocinadora Crefisa e personificado na presidente da companhia, Leila Pereira. 

Já o Galo tem o apoio de “4 R’s” – Rubens Menin, principal acionista da MRV e do Banco Inter e o proprietário da CNN, seu filho e o CEO da MRV, Rafael Menin, Ricardo Guimarães, que é o dono do banco BMG, e Renato Salvador, da rede Mater Dei de Saúde.

Mas a missão já no médio prazo para o Galo é diminuir uma dívida bilionária. Com os últimos investimentos em jogadores cobiçados pelo mercado, a dívida do Atlético-MG bateu R$ 1,2 bilhão. Porém, o clube afirma que a dívida pode ser equacionada, pois o patrimônio do Galo é superior (R$ 1,3 bilhão) aos débitos. 

Mas, para isso, o Atlético-MG tem como meta diminuir a dívida para R$ 341 milhões até 2026. Para isso, elencou algumas prioridades: R$ 200 milhões como teto para o pagamento de salários por ano, R$ 50 milhões na compra de novos atletas, a arrecadação de R$ 120 milhões em vendas de jogadores e, por último, que um terço do elenco seja oriundo das categorias de base.

Além disso, o Atlético-MG quer renegociar parte das suas dívidas com os credores. Segundo José Murilo Procópio, vice-presidente do Atlético Mineiro, algumas contas já estão sendo reduzidas em até 30%. E para fechar a conta, o Atlético também conta com dinheiro em premiações, já que tem um time mais competitivo do que o do ano passado.

“É perfeitamente razoável e natural compor com os credores e dizer ‘preciso que você me dê desconto e um prazo de pagamento’. Já estamos encontrando credores nessa posição”, disse Procópio.

A respeito do clube-empresa, Procópio acredita que não é o momento do Atlético discutir isso e que a meta agora é tocar a gestão no atual modelo e arrumar em casa. Até agora, houve demissões no clube (de 750 foi para 500 funcionários) e uma redução de gastos na ordem de R$ 1,5 milhão por mês.

O São Paulo, na primeira década do milênio, foi pintado como o clube com a melhor gestão. E os resultados vieram. De 2005 a 2010, foram três brasileiros, uma libertadores e um mundial. Porém, de lá para cá, o clube conquistou somente uma Sul-Americana, em 2012. A fila, portanto, está em quase dez anos.

Em 2019, o clube teve um dos piores déficits entre os clubes brasileiros. A situação não melhorou muito, mas, segundo o presidente do clube, Júlio Casares, uma reorganização já está sendo feita.

“Temos dívidas que possuem maior urgência do que as outras e o São Paulo restabeleceu o contato com os credores. Nós temos R$ 70 milhões em compromissos que estamos negociando”, diz ele.

Julio Casares
Julio Casares, presidente do São Paulo Futebol Clube
Foto: Divulgação/SPFC

Casares diz que vê com “bons olhos” a mudança para o modelo de clube-empresa, mas que não vai antecipar a discussão. A sua missão atual, segundo o próprio presidente, é fazer a lição de casa. “Precisamos sanar financeiramente o clube, recuperar a credibilidade, fazer novos acordos com credores e olhar para frente. É como consertar um avião em pleno voo.”

Mas, se depender do senador Carlos Portinho (PL-RJ), Casares e os outros presidentes dos clubes discutirão isso ainda neste ano. A ideia é que o projeto seja colocado em votação ainda em abril, mas como precisará ir para a Câmara dos Deputados e, depois, à sanção presidencial, é possível que fique para o segundo semestre.

Segundo o senador, todos os participantes do setor – dirigentes, jogadores, patrocinadores e investidores – estão sendo ouvidos para se desenhar o melhor formato. Antes, quem tocava esse projeto era o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), mas como foi eleito presidente do Senado, passou a bola para Portinho.

“Estamos confiantes de que esse projeto será uma revolução para o futebol brasileiro”, diz o senador.

Há muita expectativa em torno desse projeto. É bom lembrar de um caso bem recente. O Figueirense, em 2017, repassou o futebol a holding de investimentos Elephant cuidar. O ânimo era grande e a conquista do catarinense ajudou a trazer ainda mais otimismo. Mas foi só.

O contrato que teria 20 anos de duração terminou em dois, após a falta de pagamentos de salários e até de alimentação. O clube chegou a perder uma partida por W.O. por protesto dos jogadores. Em 2021, ano de seu centenário, vai disputar a terceira divisão.

Há outro exemplo que pode ser visto como negativo dentro de campo, pelo menos no retrospecto recente. O Botafogo-SP fez uma parceria com a empresa Tex Holding em 2018. No mesmo ano, a o clube subiu para a segunda divisão, terminando um hiato de 16 anos. Porém, no ano passado, veio a pandemia, dificuldades financeiras e a queda para a terceira divisão. Atualmente, o Botafogo-SP é o lanterna do seu grupo no Campeonato Paulista. As contas, no entanto, continuam em dia. 

Então, é importante que além de clubes bem geridos, os investidores que venham para o Brasil também sejam responsáveis. Com uma lei bem-feita, pode ser que isso aconteça. 

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