Não basta ter dinheiro na mão: por que há fila de espera para comprar carro 0 km

Dependendo do modelo e da versão, a fila de espera por um veículo novo pode atingir 120 dias

Foto: Divulgação

Thiago Moreno, colaboração para o CNN Brasil Business

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Analisando apenas os números de emplacamentos, parece que a indústria automotiva nacional está se recuperando. Dados da Fenabrave, a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores, mostraram que, em março, 177.109 novos veículos foram comercializados no Brasil. Na comparação com fevereiro, que teve 158.226 unidades comercializadas, o crescimento foi de 11,93%, e de 13,69% em relação a março de 2020.

No papel, parece que as coisas estão engrenando novamente. No entanto, quem está procurando um carro 0 km para comprar sabe que esta missão não é tão simples. Dependendo do modelo e da versão, a fila de espera por um veículo novo pode atingir 120 dias. Segundo a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, os clientes corporativos podem ter que aguardar até 180 dias pela entrega.

Outro indício de que a procura ainda está maior que a oferta são os dados de estoque das associadas da Fenabrave. Em março de 2020, um carro 0 km passava, em média, 48 dias no pátio da concessionária até ser vendido. No mês passado, esse número caiu para 16 dias. Então, mesmo com o dinheiro nas mãos, são raros os casos em que você vai conseguir sair da loja com um carro 0 km imediatamente. Mas, o que levou a isso?

 

Sim, está relacionado com a pandemia

As consequências da Covid-19 começaram a ser mais sentidas no Brasil em março do ano passado. Naquele período, a maioria das montadoras precisou paralisar as linhas de montagem como forma de evitar que o vírus se alastrasse ainda mais. Nesse período, as lojas também fecharam, o que criou um pouco de demanda reprimida.

Sem produção e com as vendas dificultadas, o segundo semestre do ano passado foi marcado por filas de espera longas e uma lenta volta aos negócios. A retomada das vendas estava acontecendo mesmo assim. Porém, a segunda onda da crise sanitária, em 2021, voltou a afetar tanto as fábricas quanto as lojas.

Montadoras como Honda e Volkswagen, entre outras, voltaram a suspender a produção em suas linhas de montagem preventivamente, mais uma vez para evitar que o vírus se alastrasse dentro das fábricas. Novamente, o mercado de automóveis viveu uma situação onde há mais gente querendo comprar do que carros saindo das linhas de produção.

Mas não é só a pandemia

Do início de 2021 para cá, pode parecer que não mudou muita coisa no Brasil, mas o começo da vacinação em massa em outros países já movimenta a economia global e está pressionando não só a oferta de matérias-primas como a de componentes eletrônicos. E ambos são bastante demandados pela indústria automotiva.

Ainda no final do ano passado, as montadoras daqui já enfrentavam a falta de materiais como aço, alumínio e até borracha. Como muitas pessoas passaram mais tempo em casa durante a pandemia, a procura por aparelhos eletrônicos como smartphones, computadores e TVs aumentou. Com isso, as montadoras enfrentam uma falta de chips e semicondutores, necessários aos sistemas de segurança e de entretenimento dos carros atuais.

Para completar o drama, uma das maiores fabricantes de semicondutores do mundo, a Renesas, teve uma de suas unidades atingidas por um incêndio em março, o que interrompeu a produção. O recente bloqueio do canal de Suez também impactou o transporte global de componentes eletrônicos, o que atrasou ainda mais o cronograma de retorno.

Vai melhorar?

Uma apuração da Agência CNN apontou que, até o final de março, o Brasil já tinha aplicado mais de 20 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19. Assim, é menos provável que as linhas de montagem automotivas nacionais voltem a suspender a produção por conta de uma piora na situação sanitária do país.

Enquanto o mês de abril teve início com nove montadoras paradas por conta da pandemia, a maior parte delas ficou 15 dias sem produzir. Hoje, a maioria já retomou as atividades, seguindo protocolos de segurança. A Renesas, fornecedora dos semicondutores, também prometeu que a sua unidade atingida pelo incêndio voltará a produzir até o final desta semana.

Todos os fatores que levaram o mercado brasileiro a conviver com longas filas de espera por um 0 km desde o ano passado estão melhorando. A indústria automotiva, apesar de cautelosa, ainda está trabalhando com uma previsão de crescimento de cerca de 15% nas vendas de carros 0 km em 2021 na comparação com 2020, que registrou a venda de 1.950.899 unidades,  apontando uma recuperação.

Em resumo, a situação vai melhorar, só não será rápido. Dependerá do controle da Covid-19 no país e da normalização da oferta de materiais. Enquanto isso, quem quiser um carro novo terá que esperar.

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