Nas crises, pobre fica mais pobre e rico fica mais rico, diz professor da FGV

Para William Eid Junior, as crises tendem a aumentar a desigualdade social, em especial em países como o Brasil

Foto: REUTERS/Bruno Domingos

Tamires Vitorio, do CNN Brasil Business, em São Paulo

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13,9 milhões. É essa a quantidade de desempregados no Brasil no quarto trimestre de 2020 em meio à pandemia do novo coronavírus. US$ 5 trilhões. É esse o valor do aumento na riqueza dos maiores bilionários do mundo no ano passado, segundo a Forbes.

Enquanto os mais pobres ficam mais pobres, os mais ricos tendem a ficar mais ricos. A situação representa os dois lados da mesma moeda e parece relembrar uma música antiga: “O de cima sobe, e o de baixo desce”. 

Para William Eid Junior, diretor do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef), essa é a realidade dessa e de todas as outras crises vividas no mundo. 

Por que as crises tendem a aumentar a desigualdade social?

Porque ricos costumam aproveitar as oportunidades. O rico tem dinheiro, tem caixa disponível, investimentos que estão em uma boa posição e, dessa forma, consegue ganhar mais capital. Quem tem dinheiro se aproveita da situação.

A pessoa que é pobre tem a renda reduzida em períodos de crise. Mesmo aqui, na Europa, com todo o apoio que foi dado para as pessoas de baixa renda ou que ficaram sem trabalhar, ninguém teve aumento de renda. Agora, a pessoa mais rica conseguiu manter sua renda. 

Certas áreas da economia cresceram muito na economia, como o próprio varejo, e a Amazon, consequentemente. 

Isso acontece em todas as crises ou é algo específico da atual?

Todas as crises têm essa característica de maior concentração de renda, porque todas elas causam uma maior volatilidade no mercado financeiro e corporativo, e quem tem dinheiro vai lá e aproveita.

Essa situação tende a ocorrer todas as vezes?

Sim. Ainda mais com a diferença de pobres e ricos no país. A diferença de ricos e pobres no Brasil provavelmente será muito maior do que na Bélgica ou em Portugal, onde a desigualdade é menor. O número de miseráveis também tende a aumentar.

Com o lockdown no Brasil, os informais não têm o que fazer, então, ficam mais pobres ainda. E, falando do Brasil, o governo não consegue dar apoio para toda a população brasileira, porque boa parte dela vive na informalidade. Dessa forma, o governo não consegue apoiar.

Se a pessoa não tem CPF, não tem renda, não tem nada, como é que eu vou ajudá-lo se ele é desconhecido pelo Estado? No Brasil, são cerca de 40 milhões de pessoas que estão na informalidade, o que é muito difícil de mensurar.

E existe alguma forma de diminuir a desigualdade durante as crises?

Dando apoio social, mas o apoio depende de as pessoas existirem para o Estado. O que não é fácil. No Brasil, isso implica ainda em outro problema: em diminuir a corrupção, porque, até chegar na pessoa, esse dinheiro já desapareceu. Mas as soluções são facéis de falar e difíceis de implementar, a nossa história não nos favorece nesse sentido. 

Por que a desigualdade no Brasil durante as crises tende a ser muito maior?

Isso vem desde a nossa origem. Temos dois sistemas jurídicos, o britânico e o francês. O britânico quer proteger o cidadão contra as ações do Estado, enquanto o francês protege o Estado contra a ação do cidadão.

E você vê isso claramente nas notícias financeiras sobre o Brasil. Nós criamos uma casta no sistema brasileiro, a casta do setor público. Esta é a primeira causa.

Temos também a manutenção da ignorância da população. Nós não damos educação, então as pessoas não têm como crescer profissionalmente. Nossa matemática é ruim, não ensinamos inglês direito para as crianças.

Nosso ensino é fraco para manter a estrutura do populismo e a manutenção da elite. Principalmente no setor público. Os países no mundo só se desenvolveram quando investiram brutalmente em educação. 

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