Nem Airbus, nem Boeing: veja empresas que querem de volta os aviões supersônicos

Empresas dos EUA e até a Nasa estão envolvidos em projetos para viabilizar o retorno dos aviões comerciais supersônicos

Thiago Vinholescolaboração para o CNN Brasil Business

em São Paulo

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Em 24 de outubro de 2003, o Concorde, o último avião comercial supersônico do mundo, fez seu voo derradeiro com as cores da companhia aérea British Airways. Cinco meses antes, a Air France, o outro operador do clássico jato com asa delta, já havia retirado de cena os seus aparelhos após 27 anos de serviço.

O Concorde é um raro caso de uma aeronave comercial que foi aposentada e não teve um substituto imediato capaz de repetir sua performance de forma mais eficiente. Era caro demais desenvolver um novo supersônico de passageiros naquele momento, e o retorno financeiro era incerto, afinal, esse tipo de avião tem custos operacionais exorbitantes e causam um preocupante impacto ambiental.

Para voltar ao mercado civil, os aviões supersônicos precisam superar os problemas que levaram à aposentadoria precoce do Concorde.

A maior ‘pedra no sapato’ do jato anglo-francês era seu altíssimo consumo de combustível. Em um voo entre Londres e Nova York, realizado em três horas e a mais de 2.100 km/h, a aeronave consumia quase uma tonelada de querosene por passageiro – o Concorde podia transportar até 120 passageiros e quase 100 toneladas de combustível.

Quem pagava essa conta eram os passageiros, que desembolsavam até US$ 12.000 para viajar no jato supersônico.

O outro problema do Concorde é que objetos que se deslocam na velocidade do som (acima de 1.234 km/h) geram o fenômeno do estrondo sônico (sonic boom, em inglês), que são ondas de choque que soam como explosões.

Por conta desse efeito, o jato europeu (e seu concorrente soviético menos conhecido, o Tupolev Tu-144) foi proibido de voar em velocidade supersônica sobre regiões continentais. Essa imposição inviabilizou a aeronave, que só podia alcançar sua velocidade máxima sobre os oceanos.

Passados quase 20 anos da aposentadoria do avião construído em parceria pela britânica BAC (atual BAE Systems) e a francesa Sud Aviation (que unida a outras fabricantes europeias formou o grupo Airbus), novos nomes e grandes corporações da indústria aeroespacial, incluindo a Nasa, estão comprometidos em sanar os problemas do voo supersônico comercial e abrir o caminho para os sucessores do Concorde.

Corrida supersônica

Nem Airbus, nem Boeing. A empresa com o projeto de avião comercial supersônico mais adiantado do momento é a Boom Supersonic, dos Estados Unidos.

Baseada em Denver, no estado do Colorado, a companhia fundada em 2014 trabalha no desenvolvimento do Overture, um trimotor com espaço para 55 passageiros e projetado para voar a 1.800 km/h com autonomia transoceânica de 8.334 km.

Em sua página na internet, a Boom informa que pretende iniciar a construção do Overture no ano que vem, e a apresentação do primeiro modelo está marcada para 2025. Já o início das atividades comerciais, com transporte de passageiros, é previsto para 2029.

Ainda neste ano, a empresa americana deve iniciar os testes de voo com o demonstrador supersônico XB-1. Segundo a fabricante, o protótipo impulsionado por três motores turbofans com pós-combustor (semelhantes aos motores de aviões de caça) tem um terço da escala proposta para a versão final do Overture e servirá para avaliar as novas tecnologias e o design da aeronave, que é projetada para minimizar os efeitos do estrondo sônico a níveis aceitáveis ou imperceptíveis.

Com um projeto promissor, a Boom conseguiu atrair uma série de investidores e angariou mais de US$ 150 milhões para continuar desenvolvendo a aeronave, que inclusive já tem encomendas.

Em junho deste ano, a companhia aérea norte-americana United Airlines anunciou um acordo para comprar 15 exemplares do Overture com opção para mais 35 unidades adicionais. É um pedido e tanto se comparado à carreira do Concorde, que teve apenas 14 unidades de série concluídas.

A Boom também tem pré-encomendas de dez unidades do Overture para o grupo Virgin, liderado pelo bilionário britânico Richard Branson (que no passado tentou comprar os Concordes da British Airways), 20 unidades para a Japan Airlines e de outros três potenciais clientes ainda não identificados.

O governo dos Estados Unidos é outro interessado na aeronave, tanto que encomendou com a fabricante um estudo sobre um Air Force One (avião presidencial dos EUA) supersônico.

Além de solucionar a questão do estrondo sônico, a Boom também garante que o Overture será econômico a ponto de permitir aos seus operadores vender bilhetes a preços comparáveis aos de tarifas de classe executiva em aviões convencionais.

A empresa americana também promete que o avião supersônico terá zero emissão de carbono, já que será abastecido com SAF (sigla em inglês para Combustível de Aviação Sustentável).

Outro nome dos Estados Unidos que propõe um avião civil supersônico é a startup Spike Aerospace, de Massachusetts, que projeta o jato executivo S-512 para 18 passageiros e com velocidade máxima de 1.700 km/h. No entanto, diferentemente da Boom, a Spike ainda não apresentou avanços significativos ou datas de lançamento de sua aeronave.

A Aerion Corporation, de Nevada, também propunha um jato de negócios supersônico, mas a empresa fechou as portas em março deste ano após ficar sem financiamento.

Há também estudos sobre aviões comerciais supersônicos na Rússia e Japão, embora poucas informações sobre essas iniciativas tenham sido divulgadas.

É uma postura bem diferente da Nasa, a agência espacial dos EUA, que trabalha em conjunto com a Lockheed Martin no projeto X-59 Quiet SuperSonic Technology (Tecnologia Supersônica Silenciosa).

“Usando nossa aeronave de pesquisa X-59, forneceremos aos formuladores de regras os dados necessários para suspender as proibições atuais de viagens aéreas mais rápidas do que o som em terra e ajudar a habilitar uma nova geração de aeronaves supersônicas comerciais”, diz a Nasa, referindo-se a proibição dos voos supersônicos na região continental dos Estados Unidos.

O X-59 está sendo construído em Palmdale, na Califórnia, na sede da Skunk Works, a divisão de projetos avançados da Lockheed Martin e onde foram desenvolvidas algumas das aeronaves mais espetaculares do mundo, entre eles o SR-71 Blackbird, o avião mais rápido de todos os tempos (alcançava 3.529 km/h).

O primeiro voo do demonstrador da Nasa está programado para 2022.

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