Participação do Brasil em fundos estrangeiros é a menor desde 2014

Fatia da bolsa brasileira em fundos globais de ações caiu de 1% para 0,2% e, naqueles que investem só em América Latina, saiu de 65% para 55%

Baixo crescimento e perda de grau de investimento estão entre razões mencionadas por economistas para perda de atratividade do Brasil
Baixo crescimento e perda de grau de investimento estão entre razões mencionadas por economistas para perda de atratividade do Brasil REUTERS/Edgar Su

Juliana Eliasdo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Fazia tempo que os fundos de investimentos estrangeiros não reservavam um pedaço tão pequeno de seu dinheiro para comprar ações brasileiras. É o que mostram dados da companhia internacional de informações financeiras EPFR, compilados pelo banco BTG Pactual.

Em outubro de 2021, dado mais recente, estava alocado no Brasil 4,3% de todo o capital dos fundos internacionais especializados em investir em ações de mercados emergentes. É a metade e a menor fatia destinada para a bolsa brasileira desde pelo menos 2014, quando consideradas a posições ao final de cada ano.

Naquele ano, 8,6% da montanha de dinheiro investido globalmente por esses fundos estava alocada aqui. “O Brasil é um país emergente importante e, antes disso, essa participação já chegou a ser ainda maior, de 12%”, disse o chefe de análise e pesquisa do BTG Pactual para América Latina, Carlos Sequeira.

A mesma tendência também vem de longe e é generalizada entre vários outros perfis de fundos internacionais especializados em ações. São fundos muitas vezes bilionários, sediados em vários lugares do mundo, e que aplicam em papéis de diferentes países, podendo ter o foco em uma região específica ou não.

No caso dos fundos globais, ou seja, aqueles que não têm nenhuma restrição e podem alocar os recursos em ações de qualquer país, a participação do Brasil caiu a um quinto do que era em 2014, de 1% à época para 0,2% em 2021.

As grandes fatias desses fundos vão para os principais mercados, como Estados Unidos, Europa e China, e é normal que o Brasil e outros países com bolsas relativamente menores tenham participações pequenas.

Perdendo para o México

Já nos fundos que só investem em América Latina, o pedaço aplicado no Brasil – o maior e principal mercado da região – caiu de 65% no auge, em 2019, para 55% agora. É a menor proporção desde 2015, quando 43% do dinheiro deles ficou aqui.

O grosso desses recursos que deixaram de vir para cá acabou indo para o México, que viu sua participação no bolo latino subir de 18% para 26% no mesmo intervalo.

Chile, Colômbia e Peru, que juntos têm uma participação que varia de 10% a 20% nos fundos de América Latina, são outros que também vieram perdendo espaço nos investimentos.

“A competição do Brasil na América Latina não é difícil. O nosso competidor mais direto é o México”, diz Sequeira, lembrando que, fora estes dois, os demais países da região têm bolsas de valores e economias bem menores em tamanho.

“O México também tem muitos defeitos, mas eles têm as contas muito ajustadas, não há questões fiscais, além de estarem grudados nos Estados Unidos. Se os Estados Unidos crescem, eles crescem imediatamente também.”

Menos do que poderia

Sequeira lembra que participação menor não significa necessariamente que caiu o volume de recursos destinados a investimentos no Brasil – em especial nos últimos dois anos, em que os superestímulos de governos de todo o mundo durante a pandemia inundaram o mercado financeiro de dinheiro e ajudaram a turbinar os investimentos em ativos de risco como ações.

É isso que ajuda a explicar, por exemplo, a queda na participação do Brasil no bolo total de investimentos globais ao mesmo tempo em que os valores aplicados por estrangeiros na bolsa brasileira no ano passado bateram recorde.

“Tem muito dinheiro disponível. Não é que não estamos recebendo investimentos, mas estamos recebendo bem menos do que outros mercados”, disse o economista do BTG.

Problema de longa data

Na visão de economistas e analistas, o enxugamento das posições desses grandes investidores no Brasil é uma tendência que já vem de longa data, fomentado por uma série de fatores.

Para o economista-chefe da gestora Neo Investimentos, Luciano Sobral, é uma tendência que vem acontecendo desde pelo menos 2015, quando o Brasil perdeu o grau de investimento – a nota dada pelas agências internacionais de crédito que avalia o risco de calote do país.

“Mudou o perfil de quem investe aqui. O dinheiro estrutural, que são os grandes fundos soberanos e de pensão de países desenvolvidos, que vêm para investir no longo prazo, investem basicamente em quem tem grau de investimento”, diz.

“Sem isso, o Brasil cai na categoria de emergentes sem grau de investimento e tem que competir com outros países por uma fatia muito menor do dinheiro. Acaba virando um mercado de nicho, que recebe um certo dinheiro do mundo reservado para alocações de alto risco e alto retorno, de curto prazo”, afirma Sobral.

“É uma tendência clara de redução que acontece desde cerca de 2014, e que passa por vários governos, não vem de um partido ou de outro”, disse Sequeira, do BTG.

Entre as razões para menor interesse dos fundos estrangeiros pelo Brasil, ele menciona o baixo crescimento que o país vem registrando desde o fim da grande recessão de 2015 e 2016 e também a piora rápida nos gastos e nas contas do governo, que fez a dívida pública sair da faixa dos 60% do PIB em 2014 para mais de 80% hoje, nível alto se comparado a outros países emergentes.

O México, por exemplo, encerrou o primeiro ano da pandemia, em 2020, com sua dívida em 42% do PIB, de acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Dívidas públicas altas acabam forçando o país a subir juros, para não perder investidores, explica Sequeira. Juros mais altos na renda fixa, por sua vez, deixam o valor das empresas e as ações na bolsa menos atrativas, o que acaba impactando a renda variável também.

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