Pressão de combustível e alimentos deixa incerto fim de ciclo na Selic

Com aumento de 1,00 ponto porcentual da última quarta, Selic chegou a 11,75% ao ano, o maior patamar desde abril de 2017

Funcionários atualizam preços dos combustíveis em posto de gasolina do Rio de Janeiro
Funcionários atualizam preços dos combustíveis em posto de gasolina do Rio de Janeiro 26/10/2021REUTERS/Ricardo Moraes

Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues, do Estadão Conteúdo

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Com a inflação sem dar trégua e a guerra no Leste Europeu pressionando ainda mais os preços de alimentos e combustíveis, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) elevou a taxa básica de juros pela nona reunião consecutiva.

Com um aumento de 1,00 ponto porcentual da última quarta-feira (16), a Selic chegou a 11,75% ao ano, o maior patamar desde abril de 2017 (12,25%).

Mesmo com os choques causados pela invasão russa na Ucrânia, o Copom manteve a promessa de tirar o pé do acelerador. Nas últimas três reuniões, o colegiado havia aumentado a Selic em 1,5 ponto porcentual em cada uma.

Após ter chegado à mínima histórica de 2,00% ao ano durante a pandemia, a taxa básica já acumula um ajuste de 9,75 pontos desde março passado.

A última vez que houve nove aumentos seguidos (um ano de aperto) foi entre abril de 2013 e abril de 2014. Na época, o avanço foi mais modesto, de 7,25% para 11,00%, ou 3,75 pontos porcentuais, nas vésperas da campanha de reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

O ritmo de alta dos juros deste ciclo já é o maior desde 1999, quando, durante a crise cambial, o BC aumentou a Selic em 20 pontos porcentuais de uma só vez.

O colegiado também avisou que continuará subindo a taxa. Para a próxima reunião, no começo de maio, a sinalização é de nova alta de 1,00 ponto, levando a Selic para 12,75%.

O BC pregou cautela, mas deixou claro que, sob a incerteza ampliada com a guerra, poderá estender o aperto monetário o quanto for necessário para trazer as expectativas de inflação, principalmente de 2023, para perto da meta.

“O Copom avalia que o momento exige serenidade para avaliação da extensão e duração dos atuais choques. Caso esses se provem mais persistentes ou maiores do que o antecipado, o Comitê estará pronto para ajustar o tamanho do ciclo de aperto monetário”, afirmou o BC, após a reunião.

Tendência

O aviso de que os juros terão mais um aumento de 1,00 ponto porcentual em maio mostra que o BC está comprometido a fazer o que for preciso para trazer a inflação de volta ao centro da meta no ano que vem.

A avaliação foi feita pela economista-chefe do Santander, Ana Paula Vescovi, após leitura do comunicado do Copom.

Conforme a economista, que foi secretária do Tesouro no governo Michel Temer, a atuação dos bancos centrais diante da escalada das commodities após a guerra na Ucrânia é para inibir os efeitos secundários do choque de oferta.

No Brasil, o BC vai na mesma direção, e deve deixar a porta aberta, conforme expectativa de Vescovi, para mais um aumento de 0,5 ponto porcentual após a reunião de maio, para quando o Copom já indicou que levará a Selic para 12,75%.

Segundo a economista-chefe do Santander, o movimento do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de começar a subir os juros ontem, indicando mais seis aumentos dos fed funds até o fim do ano, coloca pressão sobre a Selic.

A avaliação dela é de que o ciclo de alta da Selic termina com a taxa a 13,25%, o que deve ser suficiente para que a inflação possa convergir ao centro da meta de 2023 (3,25%).

O Brasil se consolidou como sede de uma das maiores taxas de juros reais (descontada a inflação) do mundo. Cálculos do site MoneYou e da Infinity Asset Management indicam que o juro real brasileiro está agora em 7,10% ao ano.

É o segundo juro real mais alto, entre as 40 economias mais relevantes. Só fica atrás da Rússia, que recentemente teve de elevar sua taxa nominal de 9,5% para 20% e estabelecer o controle de capitais, sob a guerra.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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