Primeira usina nuclear do Brasil, Angra 1 só tem operações garantidas até 2024 

Vida útil a unidade é de 40 anos; Eletronuclear tenta estender o prazo em duas décadas

Instalações das usinas nucleares Angra I e II
Instalações das usinas nucleares Angra I e II Saulo Cruz/MME/Divulgação

Stéfano Sallesda CNN

no Rio de Janeiro

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Em meio a uma crise energética que não tem previsão de chegar ao fim, o Brasil se vê ameaçado de ter que parar as atividades de sua primeira usina nuclear. Inaugurada em 1985, Angra 1 foi concebida com vida útil de 40 anos.

O prazo expira em 2024 e, para que a unidade possa continuar funcionando, a Eletronuclear depende de uma nova autorização da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que analisa um pedido já apresentado pela empresa, subsidiária da Eletrobras.

A companhia pediu a prorrogação do prazo por mais 20 anos, o que a permitiria continuar a operação de Angra 1 até 2044. Caso ela não seja concedida, as atividades serão obrigatoriamente paradas. Assim, a empresa, que planeja também a retomada das obras da usina nuclear de Angra 3 — iniciadas em 1984 e paradas desde 2015, por escândalos de corrupção da Operação Lava Jato –, manteria apenas Angra 2 em funcionamento até 2026. Essa é a data prevista para a conclusão das obras da terceira unidade.

Segundo a Eletronuclear, o pedido de prorrogação foi apresentado em 2019, com documentos que informam sobre a rotina de funcionamento de Angra 1 e o monitoramento do envelhecimento da unidade, seguindo parâmetros estipulados pela CNEN e pela Comissão Reguladora Nuclear dos Estados Unidos. A estatal fez um programa de extensão de vida útil da usina, com custo estimado em 300 milhões de dólares (R$ 1,66 bilhão).

“Os recursos financeiros necessários à execução desses projetos de modernização e de melhorias de segurança de Angra 1 estão sendo negociados com o Banco Santander, o Banco de Exportação-Importação dos Estados Unidos (Exim Bank) e a Eletrobras”, informa a Eletronuclear, por meio de nota.

De acordo com a estatal e a CNEN, a prorrogação do licenciamento é feita em etapas. A próxima é a terceira reavaliação periódica de segurança, que ocorrerá em dezembro de 2023 e segue diretrizes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). “Este será o principal marco do processo de licenciamento para a operação de longo prazo de Angra 1”, cita a Eletronuclear em outro trecho da nota.

A CNEN confirmou ter recebido o pedido e destacou ter elaborado duas notas técnicas com os requisitos necessários. “A avaliação está em andamento. Existe documentação complementar que ainda será submetida para avaliação, como, por exemplo, resposta a exigências geradas em auditorias já realizadas e o relatório da terceira e última reavaliação periódica de segurança, em desenvolvimento, com previsão de ser entregue em 2023”, informou a comissão a respeito do pedido da Eletronuclear.

Professor do curso de Engenharia Nuclear da UFRJ, um dos poucos do país nessa área, Luiz Pinguelli Rosa, ex-presidente da Eletrobras, destaca que a prorrogação da vida útil de usinas nucleares tem ocorrido no mundo inteiro, mas reforça os cuidados necessários para que isto aconteça.

“Nunca uma prorrogação deste tipo se dá apenas de forma documental. Ela sempre vem acompanhada de medidas de substituição de equipamentos e análise do reator. Todo reator é um sistema muito delicado, apesar de grande. É como um grande relógio. O reator de Angra 1 é de uma tecnologia dos Estados Unidos. Provavelmente, eles vão contratar uma empresa de lá que supervisione essa revisão”, afirma o especialista.

Embora tenha pedido a prorrogação da vida útil da usina em 2019, a Eletronuclear destaca que começou a tomar medidas para conseguir a extensão em 2002, e que isso inclui a troca de geradores a vapor, ocorrida em 2009, e a substituição da tampa do vaso de pressão do reator, realizada em 2013.

Com as duas usinas, o parque nuclear de Angra dos Reis tem 2.013 megawatts (MW) de capacidade instalada, o equivalente a 1,1% da matriz energética brasileira. Pode parecer pouco, mas a energia nuclear alimenta 30% da demanda de todo o Rio de Janeiro, percentual que pode chegar a 50% em 2026, em caso de prorrogação das operações de Angra 1, combinada com o início das atividades de Angra 3.

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