Produção de etanol no Brasil pode dobrar em uma década, aponta Embrapa

Setor defende mais segurança para investimentos e tecnologias do biocombustível, que emite até 500% menos gás carbônico que a gasolina comum

Segundo previsões da entidade, produção de etanol pode quase dobrar, chegando a quase 50 bilhões de litros por ano
Segundo previsões da entidade, produção de etanol pode quase dobrar, chegando a quase 50 bilhões de litros por ano Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil (15/03/2021)

Elis Barretoda CNN

no Rio de Janeiro

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No momento em que o petróleo sofre um choque de oferta em nível global, o etanol pode se tornar uma alternativa menos volátil e mais competitiva do que a gasolina no Brasil, segundo especialistas e entidades do setor ouvidos pela CNN.

Eles defendem um investimento maior na produção de álcool devido ao custo mais baixo que o da gasolina, por ser um combustível renovável e com emissões neutras de gases do efeito estufa.

O chefe-geral do setor de Meio Ambiente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Marcelo Morandi, aponta que, na próxima década, a produção de etanol pode quase dobrar, chegando a quase 50 bilhões de litros por ano.

Segundo Morandi, em 2021, a produção foi de aproximadamente de 27 bilhões, sendo 11 bilhões de litros de etanol anidro, um tipo do álcool sem adição de água que é incorporado à gasolina comum, e 16 bilhões de etanol hidratado, tipo de combustível com 8% de água e é consumido diretamente em carros de motor híbridos e flex.

Para a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), maior entidade do setor, a produção de etanol tem condições de crescer e uma grande frota flex para abastecer, mas necessita de previsibilidade econômica e preços competitivos com a gasolina, como aponta o diretor técnico da entidade, Antônio de Pádua.

“O que precisa é uma retomada de investimento no setor nas questões dos canaviais, da melhoria da produtividade agrícola. Nós temos uma capacidade instalada ociosa, poderíamos aumentar em mais de 100 milhões de toneladas de cana nossa produção, com a indústria pronta para ser processada e gerar um incremento positivo na oferta de etanol”, argumenta.

A previsibilidade pode vir por meio de um programa criado pelo governo federal em 2017, o RenovaBio, a Política Nacional de Biocombustíveis, que prevê estimular a produção de etanol, biodiesel, biogás, por meio de incentivos fiscais e metas de redução de gases do efeito estufa.

Etanol e as metas para descarbonização

O RenovaBio criou um tipo de crédito de descarbonização chamado CBIO. Cada crédito equivale a uma tonelada de CO2 (gás carbônico) que deixou de ser jogada na atmosfera.

De acordo com o documento de metas para o ano de 2022, o setor de distribuição deve emitir um total de 35,98 milhões de CBIOs. No ano passado, 33 empresas não cumpriram a meta individual de descarbonização, o que foi adicionado aos desafios deste ano para essas distribuidoras.

À CNN, Marcelo Morandi, da Embrapa, afirma que as metas do programa RenovaBio são crescentes a cada ano. “O objetivo para esse ano é que cerca de 35 milhões de toneladas deixem de ser emitidas. A meta é que, no ano de 2030 consigamos deixar de emitir mais de 90 milhões de toneladas de CO2 com o uso dos biocombustíveis. Isso irá acontecer gradualmente, conforme o aumento da produção e utilização do etanol”.

O etanol pode reduzir em até 70% as emissões de gases de efeito estufa, em relação ao combustível fóssil.

Segundo uma projeção do Instituto Energia e Meio Ambiente (IEMA), organização sem fins lucrativos de defesa do uso sustentável dos recursos naturais, feita a pedido da CNN, a cada litro utilizado de etanol, 444 gramas de CO2 são emitidos, enquanto a cada litro de gasolina usado, são jogados na natureza 2,176 gramas de gás carbônico, ou seja, quase 500% a mais de gases de efeito estufa.

O analista de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), Felipe Barcellos, explica que todo o CO2 emitido por meio da combustão do etanol já foi captado da atmosfera, durante o processo de produção da cana-de-açúcar.

Por isso, ele pode ser considerado neutro em gás carbônico.

“É claro que também é necessário contabilizar toda a cadeia de produção do etanol. Hoje, o fator de emissão desse combustível é baixo, mas se for aumentar muito a produção, no Brasil, é preciso tomar cuidado em que áreas essa cana vai ser produzida. Não pode de jeito algum, por exemplo, ocupar espaços que seriam de área natural hoje”, aponta o especialista em política energética e mobilidade urbana do IEMA.

Ainda segundo Barcellos, a cana-de-açúcar é uma monocultura (plantio de uma única cultura em determinado local) que ocupa um grande espaço.

Ele defende que reservas naturais não podem ser ocupadas para o aumento da produção, uma vez que isso causaria um aumento das emissões, pois as plantas possuem a função de captar o gás carbônico da atmosfera.

O analista alerta que esse é um ponto importante a ser considerado quando o Brasil for propor maneiras de aumentar a produção e o consumo de etanol no país.

De acordo com Marcelo Morandi, da Embrapa, a melhor forma de aumentar a produtividade das plantações cana-de-açúcar, é o investimento em tecnologias que enfrentem principalmente a volatilidade das chuvas, já que o cultivo cana no Brasil não usa sistema de irrigações.

“A produtividade depende de um solo fértil, depende de chuvas equilibradas na hora certa, depende de cultivar espécies corretamente, da variedade da planta adequada para aquele ambiente, depende de questões, por exemplo de ocorrência de pragas e doenças. Tudo isso são fatores que afetam a produtividade no caso da cana-de-açúcar. Talvez o maior fator que afete produtividade é a questão climática, especialmente o déficit hídrico”, colocou.

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