Sistema para filtrar urina de astronautas pode fornecer água potável na Terra

Pesquisa científica para melhorar a vida a bordo da ISS levou a inúmeros avanços na tecnologia espacial, mas também trouxe benefícios para as pessoas na Terra

Ana Moreno, da CNN Business, de Copenhagen, Dinamarca

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O astronauta da Nasa Chris Cassidy
O astronauta da Nasa Chris Cassidy trabalha em módulo para permitir pesquisas do lado de fora da ISS (Estação Espacial Internacional)
Foto: Divulgação/Nasa Johnson (21.jul.2020)

O mês de novembro de 2020 marcou 20 anos de presença humana contínua na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). A pesquisa científica para melhorar a vida a bordo da ISS levou a inúmeros avanços na tecnologia espacial, mas também trouxe benefícios para as pessoas na Terra.

A tecnologia de iluminação LED, desenvolvida para ajudar os astronautas a evitar a privação de sono, foi adaptada para uso doméstico, e um sistema de levantamento de peso para manter os astronautas em forma na gravidade zero está sendo usado para exercícios em casa.

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Agora, a empresa que projetou um sistema de purificação de água para a ISS está desenvolvendo tecnologias similares, com o potencial de fornecer água potável para os locais mais necessitados.

Filtro da natureza

Na ISS, todas as gotas, seja de umidade do ar ou até de urina, têm de ser filtradas e reutilizadas. Mas o sistema atual é muito pesado, precisa ser substituído a cada 90 dias e não consegue filtrar certos contaminantes, de acordo com a NASA.

A empresa dinamarquesa Aquaporin A/S desenvolveu um novo sistema que usa proteínas chamadas aquaporinas. “É basicamente o mecanismo que permite que a água atravesse a membrana de células vivas”, disse Peter Holme Jensen, CEO da Aquaporin.

Na natureza, essas proteínas permitem que as raízes das plantas absorvam água do solo e permitem que os rins dos seres humanos filtrem cerca de 170 litros de líquido por dia. Elas também são muito seletivas, evitando a passagem de contaminantes. Depois de testá-las no espaço, a NASA está considerando substituir seu sistema atual pelo da Aquaporin, mas a tecnologia também pode ter usos mais terrenos.

Mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo não têm acesso a água potável e, nos países desenvolvidos, muitas pessoas não confiam na água da torneira. Mais de metade das famílias nos Estados Unidos têm preocupações sobre a qualidade da água, e apenas 55% dos europeus bebem água
diretamente da torneira.

A tecnologia da Aquaporin pode ajudar com isso. A empresa tem trabalhado com empresas de tratamento de águas residuais (como a BIOFOS, a maior empresa pública do setor da Dinamarca, e a UTB Envirotec na Hungria) para remover micropoluentes e microplásticos das águas, evitando que essas substâncias fluam para o mar.

Um estudo realizado na BIOFOS demonstrou que as aquaporinas removem mais de 95% dos microplásticos e micropoluentes das águas residuais, usando muito menos energia do que os sistemas tradicionais.

“Existe um potencial enorme”, disse o gerente de inovação da BIOFOS, Dines Thornberg, que coordenou o estudo. “Acho que o sistema da Aquaporin pode ser um pioneiro na produção de água potável acessível a partir de águas residuais no futuro. Estou muito otimista de que podemos enfrentar os desafios da escassez de água em muitas partes do mundo com tecnologias como essa”.

Água potável em casa

Jensen também identificou uma oportunidade de entrar no mercado de purificação de água doméstica, um setor que pode valer US$ 24 bilhões (cerca de R$ 130 bilhões) até 2025, segundo uma estimativa. Em novembro de 2020, a Aquaporin lançou um sistema de filtragem de água residencial para ser instalado embaixo da pia que funciona sem eletricidade.

O sistema custa € 650 (cerca de R$ 4.329), e a empresa está atualmente visando o mercado europeu. Há também planos da empresa expandir para os Estados Unidos e, em seguida, Índia e China nos próximos dois anos. À medida que a produção aumentar, o objetivo de longo prazo é oferecer um produto acessível para regiões com escassez de água. “Eu acredito que podemos fazer a diferença”, afirmou Jensen.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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