SPACs estão em alta; veja como funciona o ‘cheque em branco’ da bolsa de valores

Dados da Statista mostram que, entre janeiro e março de 2021, 296 dessas empresas abriram capital em Wall Street; modalidade pode chegar também ao Brasil

Bolsa de Nova York
Bolsa de Nova York Foto: Reuters

Matheus Prado,

do CNN Brasil Business, em São Paulo*

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“Special Purpose Acquisition Companies”, ou SPACs, estão decolando em Wall Street. Dados da Statista mostram que, entre janeiro e março de 2021, 296 dessas empresas abriram capital por lá. Para se ter uma ideia do ritmo de crescimento, foram 248 durante todo o ano de 2020 e apenas 59 em 2019.

Mas antes de qualquer coisa, o que são essas empresas? Os SPACs são companhias “de fachada”, com poucos ou nenhum ativo operacional. Os gestores por trás do processo, chamados de sponsors, abrem capital apenas para levantar dinheiro de investidores e utilizar estes recursos para comprar empresas já existentes.

Por isso, o processo é chamado pelo mercado de “cheque em branco”. É a figura do sponsor, através do road show, que atrai os investidores, em geral qualificados. Depois disso, eles têm dois anos para investir em alguma companhia, ou a empresa é desfeita e o dinheiro, devolvido aos investidores.

E por que isso tem crescido agora? Em parte, por conta de dois suspeitos de costume: liquidez no mercado e taxas de juros em níveis historicamente baixos. “O investidor que está ganhando pouquíssimo com títulos do governo, por exemplo, pode preferir dar esse dinheiro na mão de um gestor capacitado que possa transformá-lo em algo rentável”, diz William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

“Mesmo que alguns destes investimentos não sejam tão frutíferos, um que dê certo já paga a conta dos outros. Também por isso, os sponsors emprestam o nome e a carreira deles para o projeto, se tornando ‘fiadores’ do processo.”

Além da conjuntura ajudar, uma das principais críticas às SPACs também vem sendo superada. O mercado reverberava que elas só serviam para empresas que não conseguiam a bênção mais tradicional de Wall Street por meio de um IPO lucrativo, o que está mudando após estreias bem-sucedidas de empresas como a Virgin Galactic, de Richard Branson, e a gigante dos jogos DraftKings.

O êxito de Branson fez, inclusive, com que outros bilionários e celebridades procurassem fazer parte da ação montando suas próprias SPACs. Peter Thiel, bem como atletas como Alex Rodriguez e Colin Kaepernick, a estrela pop Ciara, o investidor Bill Ackman e o ex-conselheiro econômico da Casa Branca Larry Kudlow são alguns dos nomes que entraram em ação.

Naturalmente, esse boom está chamando cada vez mais a atenção de reguladores como a SEC, reguladora do mercado norte-americano. A agência alertou que os investidores comuns não devem jogar seu dinheiro em SPACs só porque há uma celebridade ligada, e indicou que aumentaria o escrutínio sobre as práticas contábeis da modalidade.

“Os incentivos para os sponsors não podem estar atrelados à conclusão de um negócio entre uma SPAC e uma empresa, e sim aos resultados que a companhia vai entregar após a listagem”, diz Guilherme Stuart, sócio da boutique RGS Partners.

Nessa linha, a startup Grab, uma espécie de Uber de Cingapura, anunciou na última semana que se fundiria com uma SPAC apoiada pela Altimeter Capital, mas que as ações adquiridas teriam, por exemplo, um bloqueio de três anos antes que pudessem ser negociadas no mercado.

No fim das contas, o negócio abriu caminho para que a empresa fosse listada em Nova York e avaliou o negócio em cerca de US$ 39,6 bilhões. Foi o maior negócio da categoria até hoje, segundo a Dealogic.

Casos como este e da WeWork, que também estuda seguir o caminho, são outro sinal claro de que startups maiores e maduras têm considerado essa opção na hora de abrir capital. Muitas empresas que usam SPACs também acabam levantando dinheiro de grandes investidores institucionais, o que vai inflando sua avaliação e levantando recursos.

Isso não impede que empresas menores e menos experientes –particularmente em setores mais jovens, como veículos elétricos e criptomoedas– também prefiram abrir capital por meio de SPACs em vez de um IPO. Isso porque eles tendem a ter menos obstáculos regulatórios para superar.

“Há muitas vantagens em abrir o capital mais rapidamente por meio de um SPAC. Esse foi um fatores que consideramos”, disse Tyler Page, CEO da Cipher Mining, uma empresa com sede nos Estados Unidos que planeja se fundir com uma SPAC chamada Good Works Acquisition. A empresa não deve gerar receitas em 2021.

No Brasil

Não é possível, neste momento, abrir uma SPAC no Brasil, mas a CVM criou uma consulta pública para avaliar a viabilidade de oferecer a modalidade no mercado nacional. O período para envio de sugestões vai até julho.

Para Stuart, da RGS Partners, o processo pode ser benéfico. “Estamos vendo vários cancelamentos de IPOs por questões macroeconômicas, por exemplo. As SPACs podem ajudar nisso, já que ficam menos sujeitas a balanços de humor do mercado”, diz.

*Com informações de Paul R. La Monica e Michelle Toh, do CNN Business

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