Stock-to-Flow: entenda o modelo que projeta o bitcoin a US$ 1 milhão

Um dos argumentos mais fortes da teoria está ligado à relação entre escassez e produção anual da criptomoeda mais popular

Bitcoin poderá passar a ser usada como moeda em El Salvador
Bitcoin poderá passar a ser usada como moeda em El Salvador Getty Images

Do CNN Brasil Business*

em São Paulo

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O bitcoin chamou a atenção dos investidores institucionais em 2020 em meio à crise da Covid-19 e emendou um forte movimento de alta que levou o preço de US$ 10.000 para quase US$ 65.000 em cerca de sete meses. No entanto, muita gente não foi exatamente pega de surpresa.

Mesmo após forte queda em junho de 2021, os acumuladores de bitcoin (chamados pelo apelido de “hodlers”) dizem ter aproveitado a baixa apenas para adicionar mais às suas reservas. O motivo é simples: eles consideram que a valorização está longe do fim.

Um dos argumentos mais fortes está ligado à relação entre escassez e produção anual do bitcoin conforme descrito no modelo stock-to-flow (estoque sobre fluxo), pensado pela primeira vez por um usuário anônimo conhecido no Twitter como PlanB.

Seu trabalho original, publicado em março de 2019, tenta precificar o bitcoin segundo sua escassez. A ideia é a mesma que dita o valor monetário de ativos de refúgio como o ouro e a prata: como sua produção não pode aumentar consideravelmente para acompanhar um eventual crescimento da demanda, o preço só tende a aumentar quando há maior procura.

As commodities vão no caminho oposto, já que podem até experimentar um aumento de preço momentâneo por conta da demanda, mas a produção tende rapidamente a acompanhar o ritmo, derrubando o valor de mercado na sequência.

PlanB defende uma teoria – e tenta provar com estatística – que o bitcoin segue a mesma regra do ouro e da prata. Para isso, ele criou um modelo que projeta o preço do bitcoin no futuro aplicando o conceito de escassez descrito acima, em combinação com o valor de mercado.

As projeções parecem dar certo até aqui: em março de 2019, quando um bitcoin valia cerca de US$ 4.000, o especialista projetou que o preço alcançaria US$ 55.000 entre 2020 e 2021. A marca foi alcançada pela primeira vez em fevereiro deste ano.

O mesmo modelo teórico diz que, em pouco tempo, o preço de 1 bitcoin estará em cerca de US$ 1 milhão.

Escassez do bitcoin

A ideia de que o bitcoin é o primeiro ativo digital escasso vem do mecanismo de produção da criptomoeda. Ela tem um estoque máximo limitado a 21 milhões de unidades, com emissão controlada ao longo do tempo.

Um bloco (conjunto de dados validados pelos mineradores) é descoberto a cada 10 minutos, e traz na primeira transação a recompensa do minerador que o descobriu.

A recompensa é composta por taxas de rede coletadas em transações naquele bloco, além de novas moedas, conforme previsto no código do bitcoin.

Originalmente, a recompensa era de 50 bitcoins, mas a quantia é cortada pela metade a cada 210.000 blocos, o que leva cerca de quatro anos. Hoje, o montante já é de 6,25 bitcoins por bloco.

Esse mecanismo garante previsibilidade e constância na produção anual do bitcoin, pois aumentar a descoberta de novos blocos exigiria um gasto de energia e computação alto demais para compensar o investimento.

Desse modo, é possível conhecer com boa segurança todos os novos bitcoins colocados no mercado todo ano – inclusive de maneira bem mais precisa do que com o ouro.

Stock-to-flow

O stock-to-flow é um modelo que utiliza os dados conhecidos sobre o bitcoin para definir o “valor SF” do ativo. Expresso em anos, o número demonstra o tempo necessário para que a produção anual consuma a sua valorização – portanto, quanto maior, melhor.

O valor SF do ouro, por exemplo, é 67, bem na frente que os 22 do bitcoin em 2019, quando o modelo foi desenhado, já perto do registrado pela prata.

Como a criação de novos bitcoins reduz a cada quatro anos, o valor SF também cai na mesma proporção, indicando uma possível curva constante de alta no futuro.

PlanB sobrepôs o crescimento do SF e o preço do bitcoin ao longo dos anos e descobriu uma correlação difícil de ignorar: a cada quatro anos após um corte pela metade na produção de bitcoin, o preço do ativo respondia com uma disparada substancial.

Ele mostrou que isso havia ocorrido em 2012, no primeiro corte (chamado de halving) e no segundo, em 2016. Dessa forma, projetou que, após o halving do ano seguinte, em 2020, o bitcoin passaria por uma subida forte de cerca de US$ 4.000 para impressionantes US$ 50.000 “entre um e dois anos depois”.

Como já se sabe hoje, foi exatamente isso que aconteceu, mais precisamente 11 meses depois do corte na produção do bitcoin por bloco. A cada fechamento mensal da criptomoeda, PlanB comemora no Twitter o alcance das suas previsões, quase sempre com a expressão “como um relógio” (like clockwork), ressaltando a precisão do modelo.

Bitcoin a US$ 1 milhão

O stock-to-flow, portanto, oferece uma ferramenta para projetar o preço do bitcoin no futuro levando em conta que o código da criptomoeda não permite alterar as regras do jogo e que, sobretudo, a demanda continuará a aumentar.

O dinheiro para fazer isso acontecer, aposta o criador do modelo, virá de investidores que veem o dinheiro render cada vez menos – ou até em terreno negativo – em instrumentos tradicionais, como títulos do Tesouro americano, além do próprio ouro.

A aposta é que, se apenas uma parcela desse capital migrar para o bitcoin, a valorização da criptomoeda para o patamar de sete dígitos é apenas questão de tempo.

*Texto publicado por Ana Carolina Nunes

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