Tarifa Branca pode reduzir conta de luz em até 15%, mas exige cuidado

Lançada em 2018, a modalidade incentiva o consumo de energia em horários fora do pico de demanda

Economia na conta de luz com a Tarifa Branca pode chegar a 15%
Economia na conta de luz com a Tarifa Branca pode chegar a 15% Unsplash/Shubham Kumar

João Pedro Malardo CNN Brasil Business*

em São Paulo

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Com a conta de luz pesando cada vez mais no bolso do consumidor, a busca por formas de reduzir o consumo e pagar menos no fim do mês tornou-se uma necessidade para muitos. Além da economia de energia, há outra opção que pode ajudar a reduzir a conta: a Tarifa Branca.

A modalidade pode oferecer uma economia de até 15% no gasto com energia, segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), mas, por outro lado, se o usuário não conhecer bem seus hábitos de consumo, pode até pagar mais na conta de luz.

O que é a Tarifa Branca?

Criada em 2018 pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Tarifa Branca é uma nova modalidade tarifária. “É uma tarifa diferenciada em que o valor que as pessoas pagam depende do horário em que a energia é consumida”, diz Juliana Inhasz, professora do Insper,

Ou seja, a tarifa cobrada do consumidor varia de acordo com a hora em que ele consome a energia.

O valor da cobrança se baseia em três períodos de consumo. O primeiro é o de ponta, em que há a maior demanda por energia. Clauber Leite, coordenador do programa de energia do Idec, diz que esse período costuma se concentrar na faixa das 18h30 até as 20h. Devido à alta demanda, o sistema gerador de energia precisa trabalhar mais, o que torna o custo de produção maior.

No outro extremo, há o período fora de ponta, em que a demanda de energia é menor e, portanto, é mais barato produzi-la. Essa faixa também é aplicada para qualquer consumo em feriados nacionais e finais de semana.

Por fim, há a faixa intermediária, que geralmente fica 1 hora antes e 1 hora depois da ponta. Os horários específicos dessas faixas variam de acordo com a distribuidora de energia.

Assim, a tarifa branca envolve a cobrança de taxas diferentes de acordo com o consumo nesses horários. O valor cobrado é maior na ponta e menor fora dela. Com isso, quem consegue consumir mais energia fora dos horários de pico acaba pagando menos na conta.

“É uma aposta, um comprometimento de fazer um consumo consciente, em horários de demanda menor de energia”, afirma Inhasz. Esse processo demanda, segundo a professora, entender quais são os hábitos de consumo, e repensá-los.

A tarifa está disponível desde janeiro de 2020 para todas as chamadas unidades consumidoras de baixa tensão: residências, área rural e o grupo Industrial, Comércio, Serviços e outras atividades, Serviço Público, Poder Público e Consumo Próprio.

Qual a diferença da Tarifa Branca para a tarifa padrão?

Leite, do Idec, afirma que a principal diferença entre as duas tarifas é que, normalmente, “o valor da tarifa é igual o dia todo”. “Não tinha uma tarifa para fazer um consumo fora de ponta, o preço fica igual, então foi uma forma de viabilizar a tarifa horária”, explica ele.

Um consumidor que mora em São Paulo e tem a Enel como distribuidora, por exemplo, paga R$ 0,594 por kWh (quilo-watt hora) consumido, independente da faixa de hora. Se ele aderir à Tarifa Branca, passa a pagar R$ 0,499 por kWh na faixa fora da ponta, R$ 0,724 na faixa intermediária e R$ 1,115 na ponta.

Com isso, se o consumidor conseguir concentrar seu consumo de energia na faixa fora da ponta, ele conseguirá reduzir sua conta. Segundo Leite, cálculos indicam que o máximo de redução possível no valor é de 15%.

“Muita gente nem sabe que [a tarifa] existe, e quando começa a ver as regras e vê que é algo possível, em especial se o consumo é maior durante o dia, pode aderir”, diz Inhasz.

Outra diferença é que a cobrança da Tarifa Branca exige a instalação de um medidor específico nos locais que optam pela modalidade. É ele que conseguirá medir o consumo por faixa de horário, atribuindo os valores referentes a cada período.

Além disso, a Tarifa Branca também pode ajudar a desafogar o sistema que produz energia no Brasil. “Desafoga o sistema no sentido de que evita picos de consumo. A energia é gerada o tempo todo, mas pode gerar uma sobrecarga se todo mundo consome ao mesmo tempo”, explica a professora.

Como aderir à Tarifa Branca?

O processo de adesão à tarifa é gratuito. O consumidor deve solicitar a troca do medidor de energia à distribuidora, que tem um prazo de 30 dias para fazer a mudança.

Leite afirma que também é um direito do consumidor escolher voltar para a tarifa padrão a qualquer momento, caso não tenha visto uma redução da conta de luz que justifique a mudança nos hábitos de consumo, ou caso a conta tenha subido.

Também é possível que o consumidor solicite o retorno para a Tarifa Branca, mas nesse caso é exigido um período de carência, ou espera, de seis meses após o retorno à tarifa padrão.

Antes do processo de adesão, também é importante conhecer quais os valores das taxas cobradas pelas distribuidoras em cada faixa de horário, e quais são esses horários. A Aneel possui uma ferramenta que reúne essas informações, e o Idec possui uma calculadora que ajuda a decidir sobre a adesão.

Quais os riscos da Tarifa Branca?

Para Leite, o principal risco que o consumidor corre é não conseguir alterar seus hábitos de consumo de energia, mantendo um alto consumo no horário de ponta. Nesse caso, a conta não apenas não diminuirá como acabará vindo com um valor maior. Em casos extremos, a alta pode ser de até 20%.

Por isso, quem decide aderir à Tarifa Branca precisa, primeiro, conhecer bem os hábitos de consumo de energia no local, algo que já é incomum para a maioria da população. Em segundo lugar, é essencial tomar medidas para reduzir o consumo na faixa de ponta.

“O consumidor precisa conseguir deslocar o consumo. Trocar os horários de tomar banho, acender luzes, de lavar roupa, levar tudo isso para outro horário”, diz Leite. Ele afirma, porém, que essa mudança pode ser difícil, ou quase impossível, de ser feita em algumas residências.

“O período de pico coincide com o período de entretenimento, de estar junto com a família, é um consumo difícil de mudar”, diz. Como as distribuidoras não informam o padrão de consumo de energia das residências por faixa de horário, os consumidores acabam tendo que adivinhar o próprio padrão, o que não é necessariamente simples. Existem, também, empresas que prestam consultorias e identificam a faixa de consumo.

“Tem coisas que consomem muita energia na casa, em especial, eletrodomésticos. Mas às vezes exige fazer o que não dá, por exemplo, desligar eletrodoméstico no horário de pico e religar depois, mas é bem no horário que todo mundo usa. Para o consumidor comum é mais difícil, mas é uma possibilidade”, afirma Leite.

 

 

Qual é o tamanho da adesão à tarifa?

Segundo dados da Aneel coletados até junho de 2021, existem atualmente 60.978 unidades consumidoras que aderiram à Tarifa Branca, com quase 30 mil no estado de São Paulo. A quantidade é baixa, e segundo Leite dificulta a análise do quanto a tarifa realmente reduz a conta de luz.

“Poucos consumidores optaram e os que optaram não necessariamente fizeram a mudança de comportamento, eles já tinham esse comportamento, era um pequeno comércio que funciona só durante o dia, por exemplo”, diz Leite.

Para ele, dois fatores contribuem para a baixa adesão. O primeiro é a insegurança dos consumidores em relação à tarifa, e se vale a pena tentar realizar a mudança de consumo e correr o risco de não conseguir e ver a conta de luz subir.

O segundo é a falta de comunicação sobre a tarifa, mostrando que ela é uma possibilidade para os consumidores. “As informações disponíveis também são difíceis de entender, cansativas, as pessoas acabam desistindo”, afirma ele.

A expectativa de Leite é que mais pessoas busquem aderir à Tarifa Branca devido ao momento de alta nas contas em meio a uma crise hídrica, quando os consumidores já estão tentando reduzir o consumo.

“[A crise] demanda um relacionamento mais de perto com a energia, é bom sempre olhar dentro de casa o que está fazendo, o que está ligado, o que pode desligar, procurar aparelhos ineficientes, hábitos que estão elevando o consumo, mudar esses hábitos pode ajudar a reduzir [a conta] mais do que tentar aderir à Tarifa Branca e não dar certo”, aconselha ele.

Já para Inhasz, é importante que, antes de tomar uma decisão, o consumidor entenda seu contexto de consumo, e então tenham condições de analisar o que pode ser cortado ou melhor utilizado. “A primeira coisa é entender o quanto elas gastam. Muitas pessoas não entendem o quanto gastam, não fazem conta”.

*Sob supervisão de Ligia Tuon

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