Trabalho e aulas fazem brasileiro voltar a ter duas linhas de celular na pandemia

Número de linhas móveis no país já cresceu 11% desde 2020, depois de ter passado cinco anos em tendência de queda

Juliana Eliasdo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Depois de um primeiro ano de aulas remotas em que seu WhatsApp passou a receber mensagens ininterruptas de alunos e pais, a professora Adriana Ferreira, que leciona para turmas da primeira à quarta série de uma escola pública da periferia da Praia Grande, no litoral de São Paulo, começou 2021 com a decisão de retomar a separação entre sua vida profissional e a pessoal.

No início do ano, vendo que o retorno das aulas presenciais não aconteceria tão cedo, adquiriu uma segunda linha de celular e também um novo aparelho, para onde jogou todas as conversas ligadas à escola e que desliga após as 18h e também aos finais de semana.

Uma mensagem automática na versão “Business” que passou a ter do aplicativo de conversas avisa aos alunos, que têm de seis a nove anos: “professora descansando”.

“Eram mais de 30 mensagens por dia, com dúvidas sobre a atividade, sobre o prazo de entrega, também mensagens e perguntas dos pais”, conta a professora.

“Eu comecei a ficar o tempo todo trabalhando; de sábado, domingo, madrugada. Antes, quando era só presencial, eles nem tinham meu contato. Era só o horário da aula, de manhã e de tarde, e acabava.”

Adriana, definitivamente, não está sozinha nas mudanças. Outros 24,2 milhões de novos chips de telefonia móvel foram adquiridos e habilitados no país desde junho do ano passado, ajudando a trazer de volta uma realidade que já foi bastante comum e tinha ficado para trás: a de uma mesma pessoa ter mais de um número de celular.

Seria naquele mês que o número de linhas móveis voltaria a crescer depois de passar cinco anos em franca queda, apontando um movimento de recuperação intimamente ligado à pandemia, que havia desembarcado oficialmente no Brasil três meses antes, no final de fevereiro.

De junho de 2020 até setembro deste ano, dado mais recente, o aumento na base de linhas de celulares do país já é de 11%, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). São 249,4 milhões de chips habilitados atualmente, o maior volume desde 2016.

De maio de 2015, quando o país atingiu o recorde de 284 milhões de celulares, até junho de 2020, o encolhimento na base de linhas móveis no país tinha sido de 20%.

“As pessoas tinham abandonado o segundo chip”, diz Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, especializada em telecomunicações. “A ligação para outras operadoras era muito cara, então os usuários tinham chips de várias. Isso acabou.”

Entre as razões para o abandono das linhas extras que perdurou de 2015 até o começo da pandemia, em 2020, Tude menciona a redução na tarifa que era cobrada nas ligações entre operadoras diferentes. O amadurecimento das redes e a redução de custos permitiu que a taxa fosse praticamente zerada.

Tude também cita as novas tecnologias que tiraram as chamadas do telefone e levaram para a internet e os aplicativos.

Aulas online e limites no trabalho

As razões para que a busca por um novo chip para o celular, a casa ou o negócio, agora, tenha voltado a crescer, ainda são pouco estudadas. Os especialistas do setor, porém, apontam para algumas tendências – a maior parte delas ligadas ao avanço das atividades remotas acelerado pela pandemia.

Em seu Relatório de Acompanhamento do Setor de Telecomunicações de 2020, a Anatel reconhece a guinada na tendência e menciona o possível crescimento na busca de jovens e famílias pelo celular como a alternativa mais barata de ter internet e alguma alternativa ao computador em casa e acompanhar as aulas, que passaram a ser à distância.

“Com a transferência forçada de atividades para a modalidade online, em especial as aulas de crianças e de adolescentes, houve um aumento na compra de dispositivos para permitir a realização dessas atividades”, diz a agência.

“O celular é o dispositivo mais barato de acesso à internet, e muitos desses aparelhos já são vendidos atrelados à contratação de um novo plano.”

“Muitos alunos não têm celular próprio e esperam a mãe chegar em casa para usar, por isso só mandam mensagem à noite”, conta a professora Adriana, da escola municipal da Praia Grande.

Com a maioria dos alunos sem computador e rede wi-fi em casa, as aulas nem chegaram a ser feitas por vídeo – há quase dois anos são substituídas apenas por tarefas que as crianças buscam impressas na escola para fazer em casa. É sobre elas que trocam tantas mensagens com a professora.

“O WhatsApp todos têm, porque já vem incluso no plano de dados; eles colocam R$ 15 de crédito e usam quase o mês todo”, diz Adriana.

Tude, da Teleco, menciona também a necessidade crescente das pessoas de separar sua linha pessoal das demandas profissionais, tanto quanto organizar as diferentes demandas em aplicativos de mensagens como o WhatsApp, a plataforma de comunicação mais usada pelos brasileiros.

“O pessoal começou a ter duas linhas para separar a da empresa da dele; como a maioria dos aparelhos permite dois chips, dá para ter um para cada coisa”, diz.

Linhas de empresa puxam crescimento

Pode ser o que ajuda a explicar a disparada especialmente forte na aquisição de chips móveis por pessoas jurídicas, isto é, por empresas.

Embora ainda tenham uma participação menor, as linhas corporativas cresceram 20% até setembro, na comparação com setembro do ano passado. No mesmo período, os chips pertencentes a pessoas físicas viram um aumento de 7%.

A fatia das linhas de celular ligadas a empresas também cresceu rápido: saiu de 13,5% do total no início de 2019 para 19,1% em setembro deste ano.

Passageiro ou o novo normal?

A dúvida, agora, é se essas mudanças no comportamento das pessoas e no mercado da telefonia móvel vieram para ficar, ou se passarão tão logo a pandemia e suas excentricidades, um dia, passem também.

Tude acredita que não. “São mudanças que vieram para ficar, até porque os grandes impactos da pandemia aconteceram no primeiro semestre de 2020; hoje muita coisa já voltou ao normal.” E, ainda assim, a tendência de alta nas linhas continua mês a mês.

A professora Adriana também garante que, como era, não volta. “Eu não vou mais não ter dois celulares”, disse, afirmando que pretende manter o aparelho e a linha exclusivos para o contato – controlado – com os alunos.

“Eu gostei. Criou uma parceria e uma proximidade com as famílias que antes não tinha e que é muito difícil de conseguir em uma comunidade de periferia como a nossa.”

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