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    Transição energética vai mudar após pandemia e guerra, dizem analistas

    Fontes de energia mais poluentes, como petróleo e carvão, ganharam sobrevida após crises

    Tendência de longo prazo ainda é de perda de espaço dos combustíveis fósseis e avanço de fontes renováveis
    Tendência de longo prazo ainda é de perda de espaço dos combustíveis fósseis e avanço de fontes renováveis Andriy Onufriyenko/Getty Images

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business

    em São Paulo

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    A combinação dos efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia deve mudar a forma como os países conduzem a chamada transição energética para combater as mudanças climáticas, afirmam especialistas ao CNN Brasil Business.

    O termo se refere ao processo de mudança na matriz energética de um país, mais recentemente especificando a perda de espaço de fontes poluentes por fontes verdes, como as energias eólica, solar e hidrelétrica.

    Esse processo, que ainda é recente, deve ganhar novas perspectivas depois dos acontecimentos dos últimos anos, incorporando um termo que voltou à moda: segurança energética.

    A Agência Internacional de Energia (AIE) divulgou um relatório no início desta semana em que afirma que o consumo de carvão em 2022 voltará ao maior nível já registrado, em 2002.

    O recorde ocorre enquanto muitos países buscam conter emissões de gases poluentes, com o carvão sendo uma das fontes mais prejudiciais ao meio ambiente.

    No mesmo relatório, a AIE explica que o novo patamar está ligado à mudança de postura dos países com a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia.

    Para especialistas, a transição energética não acabou, e é necessária para evitar mudanças ainda mais drásticas no clima global, mas ainda não há como saber qual velocidade ela terá após as duas crises.

    Transição com segurança?

    A grande mudança de paradigma para a transição, segundo Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura e Energia (Cbie), veio com a guerra entre Ucrânia e Rússia, já que passou a ser necessário conciliar a preocupação climática com a de fornecimento de energia.

    Ele afirma que a tendência agora é de uma “transição com mais segurança”. “Os combustíveis fósseis voltaram a ter um certo protagonismo, e o cenário atual mostra que eles foram demonizados rápidos demais”.

    O economista espera que os países busquem construir matrizes energética cada vez mais diversificadas, incluindo com combustíveis fósseis, de modo a compensar a vulnerabilidade de cada tipo de fonte.

    As renováveis, por exemplo, têm como principal problema a intermitência, com a capacidade de geração dependendo de fatores como intensidade de chuvas, vento e sol. Já os fósseis têm fatores de risco envolvendo preço, fornecimento e poluição.

    “O mundo não pode abrir mão de nenhuma fonte de energia, até porque o consumo é muito desigual, e  cada fonte tem um atributo. O desafio é continuar fazendo a transição, mas tendo segurança”, opina.

    Por isso, ele considera que enquanto as fontes renováveis não passarem segurança de fornecimento para os países, o uso de combustíveis fósseis continuará.

    Já Edmilson Moutinho, professor do IEE-USP, avalia que as sinalizações econômicas têm sido graduais, mas na direção de incentivar investimentos em outros tipos de energia devido ao salto de preço do petróleo com a guerra e a pandemia.

    Essa reação, porém, é de prazo mais longo, e diverge dos esforços de curto prazo dos países. A China, por exemplo, voltou a usar carvão quando não conseguiu atender à demanda do país via renováveis e gás natural.

    Países europeus, em especial a Alemanha, reativaram usinas termelétricas movidas a petróleo e carvão enquanto a Rússia retém o fornecimento de gás, mas prometem que a ação é temporária.

    “Se o petróleo continuar alto, a transição pode ganhar força, servir como um incentivo. O carvão ganhou sobrevida, mas não de longo prazo. O petróleo ganha sobrevida, como uma fonte enquanto houver um sentimento de insegurança, e o gás ganha sobrevida maior”, diz.

    Na visão de Moutinho, o gás natural é a fonte não renovável mais beneficiada pelo novo cenário. Por ser menos poluente que o petróleo e o carvão, ele passou a ser visto como seguro e importante na transição para as fontes renováveis.

    Mesmo assim, ele afirma que a visão dos países sobre as mudanças climáticas não vai mudar, mas sim incorporar temas de segurança energética e econômica. A tendência é que o carvão, o gás, o petróleo e a energia nuclear virem fontes de resolução de inseguranças, mas temporárias.

    Já as fontes renováveis ainda devem ter saltos de eficiência e espaço para redução de custos, ajudando a incentivar a transição. Uma fonte importante nesse processo, ainda com poucas iniciativas práticas, é o hidrogênio verde, que deve ter “um papel muito relevante”.

    “Alguns acham que o hidrogênio vai ser o petróleo do futuro, mas parece que ainda vai demorar para isso. O gás natural ainda é a solução mais rápida e barata, e mesmo não sendo a ideal, já dá um ganho de redução de poluição, podendo servir como uma passagem para o hidrogênio”, ressalta.

    Gesner Oliveira, professor da FGV, considera que a guerra e a pandemia não apenas não atrasaram a transição energética como devem ajudar a acelerá-la, mas com um perfil diferente.

    No curto, os países vão “usar o que tiver”, incluindo os fósseis, mas enquanto isso desenvolverão projetos de fontes renováveis conforme eles ficam cada vez mais atraentes.

    “O que era atrativo antes da pandemia e da guerra ficou ainda mais atrativo, porque percebe-se que, mesmo com custos elevados, dado o patamar do petróleo, compensa investir, mesmo que o preço atual ceda”, avalia.

    Oliveira também vê um espaço maior para o gás natural, servindo como uma fonte de “transição em um processo de combinação entre o velho e o novo. Não pode simplesmente excluir ou paralisar determinados investimentos, porque depende deles. Ainda tem essa dependência até que as renováveis possam substituir tudo”.

    Outro ponto importante que os dois eventos globais levantaram, afirma, é de mudança de preços relativos das fontes poluentes, em especial o petróleo, que encareceram.

    “Países tentaram aumentar preços dos fósseis via impostos, mas falharam, e a guerra conseguiu fazer esse aumento”, diz. Essa mudança de preços, de acordo com o professor, deve acelerar a transição.

    Conheça os tipos de energia renovável

    Antes das crises

    Moutinho diz que a grande mudança que a transição energética trouxe até o momento foi colocar as questões climáticas no centro das políticas para o setor em todo o mundo.

    O foco dos países passou a ser, de alguma forma, incentivar as energias renováveis e o abandono dos combustíveis fósseis, seja via políticas públicas, como alta de impostos para os fósseis e corte para renováveis, ou investimentos em pesquisa e inovação.

    Mesmo assim, “cada país seguia o seu caminho, dependendo suas disponibilidades de recursos naturais e financeira para ter alguma forma de incentivar a mudança para outras fontes, mesmo que temporariamente a energia ficasse mais cara”.

    Países europeus se tornaram referência nesse processo, apostando em fontes como eólica, solar, nuclear e até na promessa do hidrogênio verde.

    Houve, ainda, uma busca por eficiência energética maior, ou seja, fazer com que as fontes poluentes emitissem menos gases mantendo a quantidade de energia produzida ou até aumentando, um caminho que ganhou força nos Estados Unidos.

    Entretanto, Moutinho considera que nenhum país conseguiu chegar próximo aos três países com maior presença de fontes renováveis em suas matrizes, o Brasil, a Islândia e a Noruega.

    Nesse sentido, o processo de transição tinha ganho velocidade, com alinhamento das potências mundiais em torno de uma descarbonização da economia, afirma Oliveira, da FGV.

    O maior símbolo desse alinhamento, envolvendo o setor privado, foi o Acordo de Paris, em um momento de “conscientização da emergência climática e que é preciso fazer a transição energética”. O resultado foi um ritmo alto de transição, com comprometimento maior.

    O ambiente era de “transição muito rápida, e isso acabou também influenciando investimentos de empresas. Petroleiras pararam de investir o que costumavam em expansão e produção de petróleo”, diz Pires.

    Com isso, o mundo parecia caminhar para um processo mais rápido de substituição de fontes, mesmo que isso levasse a uma energia mais cara no curto prazo. Depois dos acontecimentos entre 2020 e 2022, esse não deve ser mais o caso.

    Pedras no meio do caminho

    Oliveira avalia que a disseminação da Covid-19 foi um choque que imediatamente se tornou o foco dos países, em detrimento de temas como a transição.

    Ainda em 2020, a baixa demanda com os lockdowns e as incertezas derrubaram os preços do petróleo. O cenário, porém, reverteu em 2021, com a commodity chegando aos US$ 80 com um descompasso entre oferta e demanda e desorganização de cadeias.

    “A pandemia acirrou a redução de investimento em combustíveis fósseis, e a demanda ficou em uma velocidade maior do que as fontes renováveis conseguem suprir. Aí foi necessário retomar projetos com fósseis para responder à escassez de oferta”, explica.

    Esse cenário foi piorado com a guerra, com o problema do petróleo indo além dos investimentos baixos e passando para cortes diretos de oferta, em especial na relação entre Rússia e Europa. Com isso, a commodity ultrapassou os US$ 120 pela primeira vez desde 2008.

    Pires observa ainda que a Organização de Países Produtores de Petróleo (Opep) e seus aliados definiram durante a pandemia cotas de produção que ajudaram a manter a oferta baixa e fizeram os preços subirem.

    “A guerra transformou esse evento de subida de preço dos fósseis na maior crise de energia que o mundo viveu até agora, o copo transbordou”, afirma.

    Na visão do diretor do Cbie, se antes os países olhavam apenas para a transição, a guerra fez com que muitos deles precisassem encarar também a questão da segurança de abastecimento, “e quem dá segurança é o combustível fóssil, porque não depende da natureza”.

    Já Moutinho acredita que o cenário de 2020 é diferente do de 2021. No primeiro ano, o preço barato do petróleo incentivou o seu uso em detrimento de fontes mais caras, esfriando investimentos nas renováveis.

    No ano seguinte, o encarecimento do petróleo poderia favorecer fontes mais baratas, mas o quadro de insegurança impediu o movimento, já que o medo fez os países buscaram a segurança. Se nas finanças, a “segurança” é o dólar, na energia, é o petróleo.

    Outro problema que a alta gerou foi a pressão política pelos cortes nos preços dos combustíveis, puxados pelo petróleo, resultando em cortes de impostos.

    “Isso vai contra a ideia de transição energética, cuja ideia é encarecer o petróleo para incentivar outras energias, e acaba reduzindo o caixa para subsidiar outras fontes”, diz. Com isso, a combinação criou o “pior dos mundos” para a transição no período, facilitando o uso de fontes fósseis.

    “A cautela sobre o tema voltou a ser a que existia em 2008. A transição e escolha de fontes agora depende muito de emoções, de dirigentes e pessoas, mas as pressões continuam”, ressalta.

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