Treasuries: entenda como os títulos do Tesouro americano influenciam o mercado

Busca pelos títulos mais seguros do mundo tem aumentado com a aposta em alta de juros nos EUA, o que afeta bolsa e dólar no Brasil

Foto: Vecteezy

Matheus Prado,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Quem acompanha notícias sobre o mercado financeiro tem visto nos últimos dias, com grande frequência, que as oscilações dos treasuries americanos –como são chamados os papéis do Tesouro dos EUA– vêm afetando a performance de ativos no mundo inteiro e preocupando gestores e o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA).

Isso ocorre por uma série de fatores, já que a importância destes títulos vai muito além dos prêmios marginais que o governo americano paga aos seus investidores. “As taxas da modalidade servem de referência até para contratos de crédito, financiamento imobiliário”, diz Adriano Cantreva, sócio da Portofino da Portofino Multi Family Office.

O aspecto mais contundente destes papéis é a sua segurança. Não há renda mais fixa do que a dos títulos públicos atrelados à maior economia do mundo, que, além da exuberante capacidade financeira, possui pouquíssimas oscilações de juros e inflação.

Nessa linha, existem três tipos de treasuries (independente do indexador utilizado):

  • bills, de curto prazo, com duração de até um ano;
  • notes, de até 10 anos, a principal referência do mercado;
  • e bonds, com prazos de 20 a 30 anos, que podem servir como termômetro para a curva longa de juros.

O que nos traz para o momento atual, em que os bonds têm tido uma procura altíssima. (Antes de entrar no tema, vale lembrar que o Fed tem atribuição dupla: determinar a política monetária dos EUA e, consequentemente, controlar os juros, ao mesmo tempo em que busca condições para garantir o pleno emprego no país.)

Guilherme Zanin, estrategista da Avenue Securities, explica então que, atualmente, o BC americano está sendo mais leniente com gastos (vide os sucessivos pacotes de estímulos), pois busca uma retomada no crescimento do país e, consequentemente, uma maior geração de empregos no pós-crise.

Tanto é verdade que a meta de inflação estabelecida para o país é de 2%, superior aos cerca de 1,6% registrados atualmente.

O problema é que, enquanto o órgão garante que não deve alterar o juro básico do país até 2023, a curva longa está “empinando”, juntamente com a expectativa de inflação.

“Os juros de longo prazo saltaram de 0,6% para 1,6% em pouco tempo, o que assustou o mercado”, diz Zanin. “Investidores começaram, então, a temer um aumento na inflação e a apostar que haverá reajuste na taxa de juros mais rápido do que prometido pelo Fed, fazendo com que a renda fixa se torne mais atrativa.”

Trata-se de uma correlação negativa e um dos princípios básicos do mercado. Quanto mais o juro cai, melhor é para ativos de renda variável, já que o investidor busca alternativas para rentabilizar o seu capital. Quando se trata do oposto, é natural que o mercado fuja dos riscos e se abrigue em títulos mais previsíveis.

Ou seja, o que estamos vendo é uma realocação de recursos para a segurança, que afeta uma série de outros ativos. Na bolsa americana, por exemplo, é possível ver a derrocada do setor de tecnologia, o grande vencedor de 2020. Mais profundamente, o movimento afeta até mercados emergentes, como o brasileiro.

Cantreva explica que, com opções rentáveis em uma economia mais segura, é natural que os investidores permaneçam ali. Isso pode afetar ainda, de maneira indireta, o câmbio desses mercados menos desenvolvidos, que acabam perdendo atratividade frente a outras divisas.

“Além da oferta e da demanda, a taxa de juros do país afeta o câmbio da sua moeda, porque determina a sua atratividade”, diz. “Quando a Selic [taxa básica de juros do Brasil] estava em dois dígitos e o Fed Rate era zero, o investidor americano aceitava comprar real para ganhar em cima dessa diferença, o chamado ‘carry trade’. Hoje não temos mais isso.”

Na quarta-feira (3), Jerome Powell, presidente do Fed, disse que o crescimento dos papéis “chamou sua atenção”, mas garantiu que a autarquia está atenta ao movimento e que não existe pressão inflacionária nos EUA. Zanin, da Avenue, entende que, nas circunstâncias atuais, a subida dos juros é natural.

“O spread entre o juro de curto prazo e o de longo prazo está abaixo da média histórica dos últimos 10 anos, 2,5% contra 1,5%. Por isso, vemos este avanço como marginal, dentro do esperado, e não consideramos que o Fed tenha que realizar ajustes na taxa básica de juros antes do previsto.”

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