Áreas desmatadas têm maior potencial de seca e enchentes, diz estudo

Levantamento avaliou oito pequenas bacias hidrográficas no leste de Mato Grosso ao longo de três anos por meio de monitoramento de campo

Felipe Souza, da CNN Brasil, em São Paulo
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Um novo estudo, divulgado nesta sexta-feira (20), aponta que o avanço do desmatamento na região de transição entre Cerrado e Amazônia tem provocado impactos diretos na dinâmica da água, aumentando o risco de enchentes no período chuvoso e reduzindo a disponibilidade hídrica durante a seca.

A pesquisa do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), intitulada Impactos hidrológicos do desmatamento na dinâmica de fluxo de pequenas bacias hidrográficas na região de transição Cerrado-Amazônia, no Brasil, analisou, por meio de monitoramento de campo, como diferentes níveis de cobertura vegetal influenciam o fluxo dos rios.

O levantamento avaliou oito pequenas bacias hidrográficas no leste de Mato Grosso ao longo de três anos. As áreas estudadas apresentavam diferentes características de relevo e cobertura vegetal nativa.

Conforme a pesquisa, bacias mais desmatadas registraram aumento consistente no volume anual e diário de água escoada e também foram observados picos mais intensos de vazão durante chuvas fortes, indicando maior risco de enchentes e alterações rápidas no comportamento dos cursos d’água.

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Segundo os pesquisadores, o desmatamento rompe o equilíbrio natural do ciclo hidrológico ao reduzir processos como evapotranspiração e infiltração da água no solo. A substituição da vegetação nativa por pastagens ou lavouras diminui a capacidade da paisagem de reter água, favorecendo o escoamento superficial.

Como consequência, bacias com maior nível de desmatamento podem apresentar até o dobro do fluxo anual de água em comparação com áreas mais preservadas.

Apesar do aumento do volume de água no período chuvoso, o cenário se inverte na estação seca. Em bacias altamente desmatadas, a vazão nesse período representa apenas 10% do fluxo anual. Já em áreas com vegetação conservada, cerca de 30% do fluxo anual é mantido durante a seca, inclusive em anos com menor precipitação.

Para o pesquisador do IPAM, Leonardo Maracahipes-Santos, os resultados reforçam que o desmatamento impacta diretamente a segurança hídrica e evidenciam a importância do planejamento do uso da terra.

O estudo aponta ainda que a manutenção de pelo menos 50% da vegetação nativa, especialmente em áreas com maior inclinação, pode contribuir para maior estabilidade na disponibilidade de água ao longo do ano, reduzindo extremos no período chuvoso e sustentando o fluxo na estação seca.

Segundo os autores, a combinação entre produção agropecuária e conservação estratégica é fundamental para garantir segurança hídrica e produtividade no longo prazo.