Descoberta "extra doce": açúcar é encontrado no espaço pela primeira vez

Molécula de quatro carbonos foi identificada em uma nuvem molecular no centro da Via Láctea e pode ajudar a explicar como compostos essenciais à vida chegaram à Terra

Manuella Dal Mas, da CNN Brasil, em São Paulo
Compartilhar matéria

Astrônomos identificaram, pela primeira vez, um açúcar considerado "verdadeiro" no espaço interestelar. A molécula, chamada eritrulose, possui quatro átomos de carbono e foi detectada em uma nuvem de gás e poeira próxima ao centro da Via Láctea. A descoberta foi publicada nesta segunda-feira (13) na revista científica Nature Astronomy.

Segundo os pesquisadores, trata-se do açúcar mais complexo já detectado no espaço interestelar. O achado reforça a hipótese de que moléculas fundamentais para o surgimento da vida podem ter sido formadas no espaço e transportadas para a Terra por asteroides e cometas há bilhões de anos.

O estudo também indica que a eritrulose pode ter se formado diretamente sobre grãos de poeira interestelar, a partir de moléculas mais simples. Posteriormente, esse material poderia ter sido incorporado a cometas e asteroides durante a formação de sistemas planetários.

A pesquisa foi liderada por Izaskun Jiménez-Serra, do Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC). A identificação da molécula foi possível após a equipe comparar observações astronômicas com a assinatura espectroscópica da eritrulose — uma espécie de "impressão digital" que permite reconhecer compostos químicos a partir da luz que emitem.

O sinal apareceu em dados de uma nuvem molecular localizada no centro da galáxia e a detecção foi feita a partir de um levantamento espectral de banda larga realizado com os radiotelescópios Yebes 40 metros e IRAM 30 metros.

A nuvem estudada, denominada G+0.693−0.027, é considerada um dos ambientes mais ricos em moléculas orgânicas já identificados na Via Láctea e tem sido alvo de pesquisas por reunir diversos compostos de interesse para a química prebiótica.

Veja descobertas astronômicas de 2026

O que a descoberta significa

Até então, os cientistas haviam encontrado no espaço apenas moléculas mais simples, como o glicolaldeído, composto por dois átomos de carbono. Embora ele tenha propriedades semelhantes às dos açúcares, não é classificado como um açúcar verdadeiro.

Quimicamente, açúcares verdadeiros precisam ter uma cadeia com pelo menos três átomos de carbono. Por isso, conforme explica o estudo, a detecção da eritrulose representa um marco para a astroquímica. Segundo os autores, as nuvens moleculares são regiões onde estrelas e planetas se formam. Caso açúcares estejam presentes nesses ambientes, eles podem ser incorporados a asteroides e cometas durante a formação de sistemas planetários.

Um dos resultados que surpreendeu os pesquisadores foi o fato de a eritrulose ter sido encontrada em abundância semelhante à do glicolaldeído e ser, no mínimo, oito vezes mais abundante do que açúcares de três carbonos, que ainda não foram detectados nessa nuvem molecular.

Segundo os pesquisadores, a eritrulose também é a maior molécula não cíclica já detectada no meio interestelar, a primeira contendo quatro átomos de oxigênio e apenas a segunda molécula quiral já identificada fora do Sistema Solar. Para os autores, isso demonstra que compostos orgânicos cada vez mais complexos podem ser sintetizados naturalmente no espaço.

Uma das principais hipóteses sobre a origem da vida sustenta que, durante um intenso período de bombardeamento ocorrido há cerca de 4 bilhões de anos, esses corpos celestes podem ter levado à Terra compostos orgânicos essenciais para o desenvolvimento das primeiras formas de vida.

De acordo com Jiménez-Serra, a eritrulose poderia ter fornecido a matéria-prima para os primeiros ácidos nucleicos — versões mais simples dos blocos que deram origem ao DNA e ao RNA modernos.

No artigo, os autores ressaltam que experimentos anteriores já demonstraram que nucleotídeos — os blocos que formam o RNA — podem ser produzidos a partir de misturas contendo açúcares como a eritrulose. Além disso, essa molécula pode se transformar naturalmente em outros açúcares importantes em ambientes aquosos, processo considerado essencial para a formação da ribose e, posteriormente, dos ácidos nucleicos.

Os pesquisadores afirmam que a descoberta fortalece a hipótese de que o meio interestelar pode atuar como uma fonte de açúcares necessários à química prebiótica, não apenas na Terra primitiva, mas potencialmente também em outros sistemas planetários do Universo.

Próximos passos

Para Anthony Remijan, astrofísico do Observatório Green Bank, nos Estados Unidos, as evidências apresentadas no estudo tornam os cientistas "confiantes" de que a molécula foi realmente detectada.

Ao mesmo tempo, ele destacou que ainda considera surpreendente o fato de um açúcar de quatro carbonos ter sido encontrado antes dos açúcares de três carbonos, que continuam sem ser identificados no espaço.

O próximo objetivo dos pesquisadores é buscar moléculas ainda mais complexas, como a ribose, açúcar de cinco carbonos que compõe o RNA. Segundo Remijan, detectar esse composto seria "o próximo grande passo", por representar um dos principais blocos de construção do RNA e, consequentemente, da vida como é conhecida hoje.