Mesmo uma grande quantidade de café pode diminuir risco de doença hepática
Nova pesquisa com mais de 354 mil participantes aponta benefícios da bebida, mesmo em grandes quantidades diárias

Uma nova e ampla pesquisa descobriu que sua xícara diária de café pode diminuir o risco de doenças hepáticas ou câncer de fígado — mesmo que você beba cinco ou mais xícaras por dia.
As conclusões são baseadas em mais de 354.000 participantes que foram acompanhados pelos pesquisadores por mais de uma década, de acordo com o estudo publicado na quarta-feira no periódico Clinical Gastroenterology and Hepatology.
“Este é provavelmente o estudo de acompanhamento de longo prazo mais abrangente sobre o impacto do café ”, disse o primeiro autor do estudo, Dr. Hyunseok Kim, hepatologista especializado em transplantes no Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles. “Observamos que, provavelmente, o benefício do café para o fígado não se deve à cafeína, pois vemos benefícios semelhantes em quem consome café descafeinado. Portanto, parece estar mais relacionado ao efeito antioxidante do café.”
No estudo, os pesquisadores mediram a doença hepática pelo número de casos de cirrose — cicatrizes e danos permanentes no fígado que podem resultar de diversas doenças hepáticas crônicas, incluindo esteatose hepática, hepatite viral, doença hepática alcoólica e outras, especialmente quando não tratadas. A cirrose afeta mais de 58 milhões de pessoas em todo o mundo e mata quase 1,5 milhão de pessoas anualmente.
O carcinoma hepatocelular, o tipo de câncer de fígado analisado pelos autores, é o câncer de fígado mais comum, com quase 685.000 casos e mais de 597.000 mortes ocorrendo globalmente a cada ano.
Os pesquisadores descobriram que o potencial efeito protetor do café geralmente aumentava quanto maior era a quantidade consumida pelos participantes: o consumo de uma a duas xícaras diárias foi associado a uma redução de 20% no risco de cirrose, 24% no risco de câncer de fígado e 31% na probabilidade de morte por causas hepáticas. O consumo de três a quatro xícaras diárias foi associado a uma redução de 35% no risco de cirrose e de câncer de fígado, e a uma redução de 41% na probabilidade de morte por causas hepáticas. O consumo de cinco xícaras ou mais foi correlacionado a uma redução de 32% no risco de cirrose, uma redução de 47% no risco de câncer de fígado e 42% na probabilidade de morte por causas hepáticas.
“Esses são números significativos para algo tão comum quanto uma xícara de café diária”, disse Lauren Manaker, nutricionista registrada que não participou do estudo, por e-mail. Mas “são associações, não provas de causalidade”.
Consumir café com segurança
Os pesquisadores também descobriram que essas reduções de risco entre aqueles que adoçavam o café com açúcar ou adoçantes artificiais eram ligeiramente menores, mas, de resto, semelhantes.
Mas você ainda deve ser inteligente em relação à sua ingestão de açúcar, adoçantes artificiais e cremes altamente processados.
Os participantes que usaram adoçantes apresentaram um marcador elevado de inflamação hepática, o que pode contribuir para a doença hepática gordurosa, disse Kim, que também é professor assistente na Divisão Karsh de Gastroenterologia e Hepatologia do Cedars-Sinai Medical Center.
A Associação Americana do Coração recomenda limitar a ingestão de açúcar adicionado a no máximo 6% das calorias diárias — 9 colheres de chá ou 36 gramas para homens e 6 colheres de chá ou 26 gramas para mulheres. A Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) recomenda limitar a ingestão de cafeína a no máximo 400 miligramas por dia para adultos geralmente saudáveis — o que equivale a cerca de duas a três xícaras de café de 350 ml. No entanto, a sensibilidade e o metabolismo da cafeína podem variar bastante.
Para evitar que a cafeína interfira com o seu sono, pare de consumi-la pelo menos seis horas antes do seu horário habitual de dormir — alguns especialistas recomendam evitar a cafeína após as 15h.
Outras questões sobre café também precisam de respostas.
Na nova pesquisa, exames avançados de ressonância magnética e outras análises mostraram que os consumidores de café também apresentavam perfis de proteínas hepáticas mais saudáveis e menos gordura e inflamação no fígado.
“A verdadeira força reside na combinação das três camadas de evidência”, disse Manaker, proprietária da Nutrition Now Counseling, uma empresa de comunicação nutricional sediada em Charleston, Carolina do Sul. “Quando os exames de imagem e as proteínas se alinham com os resultados clínicos, o quadro geral se torna mais confiável do que qualquer medida isoladamente.”
O estudo apresenta algumas limitações importantes. O consumo de café foi medido apenas no início e quando as ressonâncias magnéticas foram realizadas 10 anos ou mais depois, o que representa um longo período para o surgimento de outros fatores influentes.
“Devemos considerar essa medição inicial como um guia aproximado para hábitos a longo prazo, em vez de um registro preciso”, disse Manaker.
Além disso, mais de 90% dos participantes eram europeus e relativamente preocupados com a saúde, e apenas 10% de todo o grupo se submeteu a ressonâncias magnéticas, disse Kim.
“Pode haver um pouco de viés nisso”, acrescentou. “Se esse benefício será o mesmo em um grupo étnico diverso, como a população dos EUA, precisa de mais validação.”
Mas os antioxidantes presentes no café, independentemente do teor de cafeína, podem diminuir a ativação de vias ou proteínas que levam à inflamação e à formação de cicatrizes, disse Kim.
O fígado não é o único órgão para o qual o café pode ser benéfico — muitos outros estudos descobriram que ele está associado a um menor risco de diabetes tipo 2 , doenças cardíacas e insuficiência cardíaca , acidente vascular cerebral, demência e outras doenças crônicas .


