Naufrágio do século XIV revela carga de "porcelana mágica" da Dinastia Yuan
Descoberta de embarcação de 650 anos revela enorme carga de cerâmica chinesa da era mongol e avança estudos da arte

Nas águas próximas a Singapura, um naufrágio recentemente descoberto, contendo uma enorme carga de porcelana azul e branca, está lançando luz sobre a história da arte chinesa produzida durante a turbulenta era do Império Mongol.
O navio, com cerca de 650 anos, que provavelmente navegava da China para Temasek, um assentamento histórico no local da atual Singapura, continha uma quantidade recorde de porcelana da Dinastia Yuan, de acordo com o artigo que detalhou sua descoberta.
Michael Flecker, o arqueólogo marinho que liderou a investigação, e sua equipe levaram quatro anos para vasculhar o local do naufrágio do século XIV e recuperar os restos da carga do navio.
Os pesquisadores encontraram aproximadamente 3,5 toneladas métricas de fragmentos de cerâmica, dos quais cerca de 136 quilos (cerca de 300 libras) eram de porcelana Yuan – aquela cerâmica azul e branca característica, com padrões intrincados –, além de várias peças de porcelana intactas ou quase intactas.

Embora o local do naufrágio fosse raso, os pesquisadores enfrentaram "correntes fortes e a consequente visibilidade extremamente baixa", o que significava que só podiam mergulhar cerca de uma vez a cada quatro semanas, disse Flecker à CNN.
“Mesmo assim, ocasionalmente éramos lançados ao longo do fundo do mar ou tínhamos que tatear o caminho de volta para o mergulhador na escuridão”, acrescentou Flecker, arqueólogo sênior da Heritage SG, uma subsidiária do Conselho Nacional do Patrimônio de Singapura.
Nessas condições, a embarcação em si se desintegrou quase completamente, embora Flecker suspeite que provavelmente se tratava de um junco chinês, um tipo de navio à vela amplamente utilizado no início da Idade Média.
Poucos artefatos sobreviveram a essas condições, e quase toda a porcelana recuperada do sítio arqueológico consistia em fragmentos. Mesmo assim, objetos intactos suficientes sobreviveram para identificar os desenhos característicos.
Uma delas apresenta um dragão de quatro garras; outra retrata uma fênix rodeada por uma faixa de crisântemos.
A recorrência de um desenho particularmente popular – patos-mandarim em um lago de lótus – permitiu até mesmo que Flecker datasse o naufrágio.
Esse desenho era o motivo característico do Imperador Wenzong, que o restringiu ao seu uso pessoal durante seu reinado, de 1328 a 1332 , de acordo com o estudo. Essas restrições provavelmente terminaram após sua deposição, o que significa que fornos comerciais produziram muito mais cerâmica com esse motivo, grande parte da qual foi exportada, disse Flecker.

É provável que os fornos imperiais tenham sido fechados cerca de 20 anos depois, após a invasão dos Turbantes Vermelhos, um movimento de rebelião camponesa, reduzindo o período em que este navio poderia ter afundado.
Mesmo que alguns fornos tivessem continuado a produzir cerâmica, a dinastia Yuan caiu em 1368 e o primeiro imperador Ming proibiu o comércio por volta de 1371, portanto, mesmo estimativas conservadoras para datar o naufrágio ainda o situam entre o final da década de 1320 e 1371, de acordo com o estudo.
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Material 'mágico e milagroso'
Durante o período em que a porcelana Yuan foi produzida, ela se tornou cobiçada pelas elites de toda a Eurásia, afirmou Shane McCausland, professor de história da arte da SOAS University of London (antiga Escola de Estudos Orientais e Africanos), que não participou do estudo.
“Isto é louça, não é valorizada da mesma forma que ouro, pintura, caligrafia ou as maiores obras de arquitetura”, disse ele à CNN. “No entanto, tem algo a ver com a translucidez, a incrível dureza dela; é um tipo de material que é um pouco milagroso.”
“Há até quem acredite que possui propriedades mágicas, que se envenenado, se quebraria… isso explica em parte por que governantes paranoicos gostariam de ter um pedaço de azul e branco”, acrescentou.
A porcelana também lança luz sobre a natureza das redes comerciais que existiam na época – ela foi feita por artesãos chineses, utilizando cobalto originário da Pérsia, atual Irã, antes de ser exportada pelas rotas da seda continental e marítima, que eram dominadas pelos mongóis, disse McCausland.
Para ele, a porcelana Yuan representou um grande avanço cultural e tecnológico na arte chinesa sob o domínio mongol, contrariando as percepções ortodoxas e de longa data sobre a dinastia imperial.
“Assim que os mongóis se retiraram da China em 1368, o conhecimento de que essa pintura azul e branca representava um avanço do período Yuan se perdeu”, disse ele.
Até a década de 1930, estudiosos ainda identificavam erroneamente a porcelana como produzida por outras dinastias. "Em outras palavras, o que os mongóis poderiam ter a ver com isso? Eles destruíram, estupraram, saquearam", disse ele.
Segundo Flecker, é provável que essa remessa em particular tenha partido de Quanzhou, um porto na costa leste da China, próximo aos polos criativos das províncias de Fujian, Zhejiang e Jiangxi, com destino à Temasek.
Embora os historiadores já soubessem que Temasek era um importante porto franco durante o século XIV, este naufrágio "indica a extensão do consumo local" e "demonstra a riqueza" do assentamento, disse Flecker.
O estudo foi publicado em junho de 2025 no Journal of International Ceramic Studies.



