O que a ciência computacional nos ajuda a entender sobre o vírus do Ebola?

Pesquisadores utilizaram tecnologias gemônicas para criar um retrato sobre a progressão da doença e rastrear o caminho percorrido pelo vírus em primatas semelhantes a humanos

Yasmin Silvestre, da CNN Brasil*, São Paulo
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Um caso de suspeita de Ebola registrado em um homem de 37 anos, no último sábado (30), em São Paulo, ressurgiu nos brasileiros as dúvidas sobre o risco de contágio e uma possível epidemia, comparada até ao período da pandemia do COVID-19.

Considerado uma das doenças infecciosas mais graves e com maiores taxas de letalidade, o que seria mesmo este vírus? E como ele se espalha de forma tão rápida no organismo humano? A CNN Brasil explica para você.

Estudo internacional

Um estudo internacional publicado na revista Cell Genomics, em 2023, mostrou como o Ebola (EBOV) pode se "esconder" e evoluir de forma diferente em diversos lugares do nosso corpo.

Para desvendar tais questões, os pesquisadores utilizaram tecnologias gemônicas e ferramentas da ciência computacional para revelar estes detalhes.

A pesquisa analisou mais de 400 amostras de tecidos coletados de macacos rhesus  - primata com semelhança biológica dos humanos - infectados a uma dose letal da variante Kikwit do EBOV, criando um retrato sobre a progressão da doença.

Benefícios da ciência computacional

De forma simples, a tecnologia gemônica funciona como uma ferramenta capaz de ler o material genético dos organismos.

No caso do Ebola, permitiu que os cientistas observassem tanto o RNA (molécula) do vírus quanto a respostas biológicas dos macacos infectados, algo impossível de ser identificado apenas por exames convencionais.

Para realizar toda essa pesquisa, os pesquisadores desenvolveram uma ferramenta chamada ternaDecov, capaz de analisar grandes volumes de dados genéticos e estimar como diferentes tipos celulares mudam ao longo do tempo durante a infecção.

A tecnologia permitiu reconstruir a dinâmica da doença nos tecidos e relacionar essas alterações com a carga viral observada em cada órgão.

E quais foram as descobertas? Entenda

Uma das principais técnicas utilizadas foi o sequenciamento de RNA (RNA-seq), que mostrou quais genes do hospedeiro eram ativados ou desativados ao longo da infecção. Com isso, os pesquisadores descobriram que o Ebola interfere em mecanismos responsáveis pela integridade dos tecidos, o que pode ajudar a explicar sintomas graves, como hemorragias e falência de órgãos.

A genômica também permitiu rastrear o caminho percorrido pelo vírus dentro do corpo. Ao identificar pequenas mutações que surgiam durante a infecção, os cientistas conseguiram acompanhar a disseminação do Ebola entre diferentes órgãos, incluindo fígado, baço e cérebro.

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Eles também constaram que o vírus se dissemina por quase todos os tecidos do corpo em poucos dias, sendo detectável em todos os órgãos analisados até o 6º dia após a infecção. Ele utiliza os monócitos - um tipo de célula de defesa - como "veículos" para viajar pelo sangue e entrar nos tecidos.

O vírus é tão potente que ele pode entrando em todos esses tecidos, ele pode se esconder e realizar mutações em lugares diferentes. Ou seja, a doença que está no sangue pode ser geneticamente diferente do vírus que está escondido em algum órgão reprodutor.

Em tese, o Ebola usa as próprias células do corpo para se espalhar e destruir a estrutura física dos nossos tecidos, o que pode causar a falência dos órgãos.

Características do vírus

De acordo com o CDC (Centro de Controle de Doenças e Prevenção) dos Estados Unidoso ebola é uma doença mortal e rara, com incidência principalmente na região da África Subsaariana. Seu vírus causador foi descoberto por cientistas em 1976.

Segundo o centro médico Mayo Clinic, o ebola não é contraído pelo ar. A doença é repassada por animais como morcegos que entram em contato com seres humanos.

A partir disso, a infecção é contraída por meio de fluidos corporais como: sangue, fezes, vomito, urina, saliva, lágrimas e suor.

Pacientes de ebola podem apresentar sintomas entre 2 a 21 dias de infecção. Esses sintomas podem incluir febre, dores no corpo e fadiga.

À medida que a pessoa fica mais doente, a enfermidade normalmente progride para sintomas mais graves, que podem incluir diarreia, vômito e sangramentos inexplicáveis.

O tratamento acontece por meio de controlação de dor, dos fluidos e a nutrição dos pacientes.

Impacto no Brasil

Apesar da epidemia já estar sendo registrada em países africanos, aqui no Brasil os impactos são menores, visto que apenas um caso foi registrado, e ainda é tratado como suspeito.

A infectologista Giovanna Marssola, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, afirmou, em entrevista à CNN Brasil, as características de transmissão da doença tornam o controle epidemiológico mais viável do que foi durante a pandemia de coronavírus.

"A transmissão do ebola é por contato com fluidos de um indivíduo infectado", como vômito e sangue. Isso reduz significativamente a chance de que a doença se espalhe em ambientes como aviões, onde, no caso do coronavírus, a troca de ar limitada favorecia a contaminação", explicou.

Segundo ela, apesar de o Ebola ser uma doença de alta letalidade, as medidas de vigilância estão sendo implementadas em tempo hábil, o que deve favorecer para a minimização do contágio.

 

*Sob supervisão de Beto Souza