Pesquisa mostra como a primeira ave levantou voo há 150 milhões de anos

Pesquisa indica que ave primitiva usava múltiplos saltos para alçar voo, compensando asas imperfeitas com pernas fortes

Luíse Homobono, da CNN Brasil*, em São Paulo
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Um estudo publicado pela revista Developmental Biology investigou como o Archaeopteryx, uma ave primitiva que viveu há cerca de 150 milhões de anos, conseguia decolar e iniciar o voo a partir do solo.

O trabalho sugere que a decolagem moderna das aves, baseada em um único salto potente, pode ter evoluído a partir dessa estratégia primitiva de múltiplos saltos, mostrando como os primeiros pássaros compensavam asas ainda imperfeitas utilizando pernas fortes.

A forma como os ancestrais das aves aprenderam a voar a partir do solo é um dos temas mais debatidos na paleontologia há mais de cem anos.

A pesquisa foi realizada por cientistas da Universidade de Southampton, no Reino Unido, em colaboração com o Museu Nacional de História Natural de Paris, na França, e se trata do primeiro estudo a fornecer evidências numéricas e biomecânicas de que a decolagem a partir do solo, por meio de saltos múltiplos, era perfeitamente viável em aves primitivas.

Sobre o objeto de estudo

A espécie Archaeopteryx ocupa um papel central nas discussões sobre a origem do voo das aves. Embora possuísse penas assimétricas nas asas, o que indica que podia voar de alguma forma, ele não tinha as estruturas anatômicas das aves modernas, como um esterno com quilha para fixar músculos peitorais fortes e ombros com ampla mobilidade para bater asas com grande força.

Por conta dessas limitações, ele não conseguia dar o salto único e explosivo que as aves de hoje utilizam para decolar rapidamente. No entanto, o Archaeopteryx tinha pernas traseiras bastante fortes e robustas, correspondendo a cerca de 13% da sua massa corporal.

Observando aves modernas, que frequentemente dão vários saltos no chão para acelerar gradualmente antes de decolar, os cientistas investigaram se o Archaeopteryx poderia ter usado essa mesma estratégia de múltiplos saltos para conseguir voar.

Qual é o objetivo do estudo?

O objetivo principal foi testar e avaliar a viabilidade biomecânica de uma decolagem por múltiplos saltos no Archaeopteryx, verificando se suas pernas conseguiriam gerar velocidade suficiente para atingir a velocidade mínima necessária para o voo sustentado.

Para isso, os pesquisadores criaram um modelo biomecânico computacional baseado na anatomia do fóssil e calibrado com dados de movimento e força de aves atuais. O modelo testou três cenários de decolagem:

  • Um único salto acompanhado pelo empuxo das asas
  • Múltiplos saltos consecutivos impulsionados apenas pelas pernas
  • Múltiplos saltos intercalados com batidas de asa de baixa amplitude

O que os pesquisadores descobriram?

O estudo fornece o primeiro suporte biomecânico e quantitativo de que o voo decolado do solo era perfeitamente viável em aves primitivas, tornando-se um elo evolutivo comportamental, que propõe que a decolagem moderna de salto único evoluiu gradualmente a partir dessa estratégia primitiva de múltiplos saltos.

Essa estratégia de transição anatômica revela como a força propulsora dos membros inferiores, limitada principalmente pelos músculos do tornozelo, atuou como um "motor temporário" até que o aparelho de voo superior se desenvolvesse ao longo da evolução.

*Sob supervisão de Carolina Figueiredo