Pesquisas sobre assoar o nariz, roubar doces e mictórios sem respingos serão homenageadas no Prêmio Ig Nobel de 2026

Apesar do caráter cômico, especialistas defendem que a curiosidade por si só é fundamental para o progresso da ciência

Jack Guy, da CNN
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Ao pensar em pesquisa científica, você pode imaginar jalecos brancos, microscópios ou conjuntos de equipamentos sofisticados, mas a realidade às vezes é bem diferente.

Em ambientes menos habituais, no mundo todo, cientistas estão trabalhando em projetos inusitados, como pisar delicadamente em diferentes partes de uma cobra venenosa para descobrir exatamente o que fará o animal morder um ser humano. 

Essa é apenas uma das 10 pesquisas homenageadas no prêmio Ig Nobel, nesta quinta-feira (3). O prêmio existe para destacar o tipo de conquista científica que "primeiro faz as pessoas rirem e depois as faz pensar", de acordo com um comunicado dos organizadores.

A cerimônia da 36ª edição da premiação anual aconteceu em Zurique, na Suíça, tendo como tema deste ano os "fungos".

Criados como uma paródia dos Prêmios Nobel, os Ig Nobels são organizados pela revista Annals of Improbable Research.

Além do já tradicional lançamento de aviões de papel, os participantes também puderam assistir à apresentação de uma nova canção de ópera sobre fungos, interpretada pelos premiados vestidos de cogumelos.

Outros projetos premiados incluem uma pesquisa que encontrou "evidências de que pessoas da classe alta são mais propícias a roubar doces das crianças e a se envolver em outros tipos de comportamento antiético", que ganhou o prêmio de economia, e a outra pesquisa descobriu que o leite de barata contém três vezes mais energia do que o leite de vaca, que levou o prêmio de química.

Em seguida, houve o vencedor da categoria de medicina com um estudo sobre "Como assoar o nariz: Um estudo aerodinâmico do ato de assoar o nariz".

Entretanto, um estudo sobre a história evolutiva do beijo rendeu aos seus autores o prêmio de biomecânica. A coautora desse estudo, Matilda Brindle, bióloga evolucionista da Universidade de Oxford, na Inglaterra, disse à CNN: “A ciência vem sendo atacada há algum tempo, e áreas menos obviamente alinhadas com a indústria comercial e a tecnologia são cada vez mais consideradas menos importantes”.

“É claro que a pesquisa aplicada é vital, mas seria uma grande perda se parássemos de observar o mundo ao nosso redor e de perguntar 'por quê?'. A curiosidade por si só é fundamental para o avanço da ciência”, acrescentou Brindle.

Uma pesquisa sobre como projetar mictórios que não respinguem ganhou o prêmio de física, enquanto um trabalho que utilizou órgãos bucais de mosquitos como bicos de impressão 3D, um processo descrito como "necroimpressão", rendeu aos seus autores o prêmio de tecnologia.

Changhong Cao, coautor do estudo sobre necroprinting e professor associado do departamento de engenharia mecânica da Universidade McGill, no Canadá, afirmou que os prêmios “ajudam a legitimar… o pensamento exploratório”.

“Ninguém começa planejando construir um bico de impressão 3D a partir de um mosquito. Chegamos lá prestando muita atenção a algo que parece irrelevante e permanecendo abertos para onde isso nos levaria”, disse Cao à CNN.

Carly Anne York, professora associada de biologia na Universidade Lenoir-Rhyne em Hickory, Carolina do Norte, que não esteve envolvida na premiação, disse à CNN que os Prêmios Ig Nobel "nunca deixam de destacar pesquisas que nos fazem 'rir e depois pensar'".

De cuecas sujas para estudos do solo a modelos 3D de mosquitos, os vencedores do prêmio deste ano pegaram ideias aparentemente absurdas e as transformaram em projetos de pesquisa legítimos. E sim, esses são empreendimentos científicos legítimos”, disse York, autor de “ O Canhão de Salmão e o Sapo Levitante : E Outras Descobertas Sérias da Ciência Boba”.

“Embora essa pesquisa possa parecer frívola à primeira vista, aproximadamente metade de todo o crescimento econômico nos EUA pode ser atribuído a descobertas feitas a partir de pesquisas básicas”, acrescentou ela.

“Quem sabe o modelo 3D da boca de um mosquito pode ser a inspiração para um novo método indolor de administração de medicamentos”, disse York.

“O que sabemos, no entanto, é que adquirir conhecimento nunca é uma atividade fútil, por mais tolo que o assunto possa parecer.”

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