Veja como era a vida dos sobreviventes do desastre de Pompeia

Pesquisa de Steven Tuck, baseada em “evidência pela ausência”, prova que milhares de habitantes escaparam antes da erupção do Vesúvio

Ashley Strickland, da CNN
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Pompeia é frequentemente considerada uma cápsula do tempo intacta, uma cidade portuária antes movimentada que ficou em silêncio após a erupção do Monte Vesúvio, que cobriu a antiga cidade romana com uma espessa camada de cinzas no ano 79 d.C.

“Essa é uma narrativa muito persistente”, disse à CNN o Dr. Steven Tuck, professor e chefe do departamento de Estudos Clássicos da Universidade de Miami, em Oxford, Ohio. “Você caminha por Pompeia e praticamente é atingido por essa história: todo mundo morre, tudo é destruído.”

Mas as visitas de Tuck a Pompeia ao longo dos anos revelaram o que ele chama de “evidência pela ausência”, ou seja, pistas deixadas por objetos que não estavam mais presentes no dia da tragédia, como santuários domésticos vazios e estábulos sem animais.

“Quando você observa mais atentamente, percebe que há muitas coisas faltando que deveriam estar ali”, afirmou Tuck. “Não há barcos atracados no porto, e todos os cofres onde os romanos guardavam dinheiro estão vazios. Em determinado momento, percebi que isso não combinava com a história de que todos haviam morrido.”

Nos últimos dez anos, Tuck trabalhou no Projeto Sobreviventes de Pompeia, uma ampla pesquisa para identificar as pessoas que conseguiram fugir antes da destruição de Pompeia e da cidade vizinha de Herculano. Seus resultados foram publicados no livro "Escape From Pompeii: The Great Eruption of Mount Vesuvius and its Survivors" (Fuga de Pompeia: A Grande Erupção do Monte Vesúvio e Seus Sobreviventes), lançado em 2025.

Ele pesquisou bancos de dados criados por equipes internacionais de estudiosos que reuniram inscrições em latim com nomes de moradores das duas cidades, gravadas em placas de pedra há quase dois mil anos. Em seguida, rastreou esses nomes para descobrir se suas histórias realmente terminaram no dia da erupção.

As trajetórias de três dessas pessoas são o foco da nova série documental "Pompeii: Out of Time", produzida e apresentada pelo ator Tom Hiddleston, que estudou História Antiga na Universidade de Cambridge e visitou Pompeia pela primeira vez em 1998, aos 17 anos, fascinado pela história.

A série estreia na quarta-feira no National Geographic e começa a ser exibida na quinta-feira no Disney+ e no Hulu.

Misturando dramatizações e pesquisas arqueológicas, o documentário acompanha a vida de um jovem aprendiz de ferreiro, de uma empresária e de um soldado da Guarda Pretoriana durante o dia da erupção. Um cronômetro em contagem regressiva acompanha a narrativa, revelando o destino final de cada personagem.

“O mais extraordinário na história de Pompeia é que temos o privilégio de acessar tantos detalhes da vida cotidiana de seus habitantes”, afirmou Hiddleston. “Pompeia é um monumento vivo ao passado. Você consegue atravessar o tempo e sentir uma conexão com a história humana.”

As pesquisas em andamento em Pompeia, incluindo os projetos liderados por especialistas como Tuck apresentados na série, estão revelando aspectos antes desconhecidos da vida diária dos moradores antes e depois da devastação.

Essas descobertas mostram que, à medida que a narrativa muda, ela se torna uma história mais profunda e complexa sobre coragem, sobrevivência e resiliência diante de um desastre natural inesperado.

Um gigante adormecido

No início de "Pompeii: Out of Time", um terremoto sacode a cidade, mas os moradores continuam suas atividades normalmente, sem imaginar o que estava por vir.

“Na época, não existia a compreensão da relação entre aqueles terremotos e o que aconteceria depois”, explicou Christopher Jackson, geólogo e professor visitante do Imperial College London. Na série, Jackson acompanha Hiddleston enquanto explica as diferentes etapas da erupção.

Os terremotos ocorreram durante quatro dias antes da erupção. Dezessete anos antes, outro forte abalo havia danificado edifícios e o sistema de abastecimento de água da cidade. Muitas dessas estruturas ainda estavam sendo reparadas quando o Vesúvio entrou em erupção.

“As pessoas provavelmente nem sabiam que viviam à sombra de um vulcão ativo, porque ele não havia entrado em erupção durante suas vidas”, disse Jackson.

O advogado e escritor romano Plínio, o Jovem, testemunhou a destruição do outro lado da Baía de Nápoles e registrou um dos primeiros relatos escritos sobre uma erupção vulcânica. Seu tio, Plínio, o Velho, comandante da marinha e do exército romano, morreu tentando resgatar vítimas da catástrofe.

Os cientistas comparam o relato de Plínio, o Jovem, com os registros geológicos preservados no Vesúvio para reconstruir como ocorreu a erupção.

Ela aconteceu em cinco fases ao longo de aproximadamente 24 horas. Primeiro, enormes quantidades de cinzas caíram sobre as cidades, provocando o desabamento de telhados. Depois vieram os fluxos piroclásticos — nuvens extremamente quentes e velozes de gases, cinzas e rochas — que desceram pelas encostas do vulcão e mataram rapidamente milhares de pessoas.

O Monte Vesúvio ainda é considerado um vulcão ativo. Sua última erupção ocorreu em 1944. Atualmente, especialistas o classificam como adormecido, mas monitoram constantemente sua atividade.

Jackson contou que, ao subir até a cratera, ficou impressionado com o tamanho do vulcão e com a distância entre ele e Pompeia e Herculano. Segundo ele, isso demonstra a enorme força das erupções vulcânicas.

Para onde foram os sobreviventes

Ao rastrear cerca de 20 mil inscrições, Tuck encontrou evidências de sobreviventes em 48 cidades do Império Romano.

Muitos permaneceram em localidades localizadas a menos de 32 quilômetros de Pompeia e Herculano, procurando comunidades semelhantes às suas. Grande parte era formada por ex-escravizados e comerciantes.

No entanto, havia diferenças importantes entre os sobreviventes das duas cidades. Os moradores de Herculano permaneceram mais próximos da área devastada, eram mais pobres e costumavam casar entre si dentro da própria comunidade de refugiados.

Tuck conseguiu reconstruir a história de uma mulher que perdeu o marido, mas escapou de Pompeia com sua filha ainda bebê. As duas chegaram a Óstia, principal porto de Roma, onde ela se casou com um médico do imperador. Mais tarde, sua filha também se casou e teve filhos.

“Os habitantes de Pompeia se espalharam mais”, explicou Tuck. “Eles pareciam possuir mais recursos e melhores contatos. Reconstruíram seus negócios, seus filhos ocuparam cargos públicos e passaram a cultuar divindades que nem existiam em Pompeia. Eles realmente conseguiram se adaptar às novas comunidades.”

Segundo o pesquisador, os moradores de Herculano permaneceram mais próximos porque vinham de uma comunidade menor e mais fechada, enquanto Pompeia era uma cidade cosmopolita, integrada ao restante do mundo romano.

Para Tuck, acompanhar a trajetória dessas famílias durante até dois séculos transformou completamente sua visão sobre Pompeia.

“Isso muda a narrativa para uma história de sobrevivência, esperança e continuidade. É uma história muito mais humana.”

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Reconstruindo a vida cotidiana

Durante muito tempo, a fama de Pompeia esteve ligada às luxuosas casas decoradas com murais coloridos pertencentes à elite. Porém, novas pesquisas estão revelando como viviam as pessoas das classes média e baixa.

“Uma das coisas de que mais gostei na série é que ela dá destaque à vida cotidiana e às experiências de pessoas comuns”, afirmou Caitie Barrett, arqueóloga e professora da Universidade Cornell.

Barrett coordena uma escavação que investiga uma grande residência aristocrática e uma casa menor ao lado para compreender como evoluíam as relações entre seus moradores.

“A maioria das pessoas que vivia ali não eram os proprietários ricos, mas os escravizados obrigados a trabalhar para eles”, explicou. “Isso nos permite entender melhor como eram suas vidas e experiências.”

A equipe está escavando as latrinas das duas casas para descobrir informações sobre saúde, alimentação, trabalho doméstico e higiene. Entre os objetos encontrados estão grampos de cabelo feitos de osso e diversos pequenos frascos de vidro que continham líquidos.

“É comum encontrar lixo em fossas, mas por que jogaram fora tantos frascos de vidro?”, questionou Barrett. “Será que era o equivalente antigo a jogar medicamentos no vaso sanitário?”

No futuro, a análise dos resíduos encontrados nesses recipientes poderá responder essa pergunta.

Enquanto isso, Tuck estuda as pinturas murais presentes nas casas da classe média para entender como sua arte diferia daquela produzida para a elite.

“Essas pessoas não estavam apenas tentando imitar os ricos; elas possuíam sua própria cultura, e vale a pena compreendê-la”, afirmou.

Hiddleston contou que ficou impressionado com os inúmeros detalhes preservados em Pompeia e Herculano: pães deixados no forno, berços semelhantes aos atuais, mosaicos e afrescos que revelam os alimentos consumidos e os deuses cultuados, além de grafites feitos por crianças representando gladiadores em combate.

“Passei anos produzindo esta série e sinto que estou apenas começando a compreender Pompeia”, disse o ator. “Escolhemos acompanhar apenas três vidas comuns, mas ainda há muito da cidade a ser descoberto: mais casas, vilas, mosaicos e afrescos. Nossa relação com o passado é um mistério em constante transformação, e acredito que jamais conseguiremos desvendá-lo completamente.”

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