Eleições 2026: qual será o grid de largada?

No programa mensal, que começou nesse domingo (23), analiso a eleição de 2026 na companhia de Clarissa Oliveira. Nele abordamos, além da conjuntura e bastidores, a aprovação do presidente, as intenções de voto dos pré-candidatos, e seu desempenho nas redes sociais.
O gráfico do Índice CNN, agregador de pesquisas elaborado pelo Ipespe Analítica, que incorpora até o momento pesquisas de sete institutos, mostra a aprovação do governo Lula sofrendo forte inflexão no início do terceiro ano do mandato.
Não há variável mais associada à intenção de voto no incumbente que a aprovação do seu governo. Depois de ter se equilibrado acima dos 50% a maior parte do primeiro ano, a aprovação presidencial recuou para um nível um pouco abaixo desse patamar no último quadrimestre do segundo ano. E, mal iniciado 2025, infletiu mais acentuadamente, chegando o Índice a 43% de aprovação contra 51% de desaprovação.

A linha dos saldos (aprovação menos desaprovação) deixa isso bem claro. É a melhor forma de acompanhar séries históricas e até de comparar pesquisas de diferentes institutos.
Ela apresenta uma nítida tendência de encolhimento dos números positivos do primeiro ao segundo ano do governo, até a inversão do sinal, mal começa o terceiro. Em 2023 a média dos saldos foi +11, em 2024 declinou para +4, e nesse primeiro bimestre de 2025 mergulhou para -7.

E quanto à “aprovação” muito inferior, de apenas 24%, “medida” pelo Datafolha agora em fevereiro? As aspas da frase acima vão por conta do fato de que esse instituto nunca mediu a aprovação do governo.
Os 24% que ocuparam com destaque as manchetes dizem respeito à “avaliação expressamente positiva (Ótimo + Bom)”. O Instituto opta por não utilizar a questão direta universalmente aplicada desde 1939 que indaga sobre a aprovação ou desaprovação dos governantes.
Tampouco reparte o “Regular” em “Regular positivo” ou “Regular negativo”, como o Vox Populi costuma fazer. Tivesse feito isso, poder-se-ia somar as três categorias (Ótimo, Bom, e Regular Positivo) e afirmar apropriadamente que era o equivalente à aprovação.
Eu já cansei de chamar atenção para esse equívoco (confundir avaliação com aprovação) no qual incorrem não poucos analistas.
Dito isso, a pesquisa do Datafolha também registrou - e não poderia ser diferente - queda significativa na avaliação expressamente positiva do presidente. Mas uma coisa é 24% e outra 43%. A divulgação do primeiro número tem consequências bem mais erosivas, por óbvio.
Por que a queda ocorreu? minha resposta a essa questão aponta para a indefinição da imagem pública do Lula 3.
A rigor, 43% de aprovação está longe de ser por si só uma tragédia, nesses tempos em que os governantes são mal avaliados em todo o mundo. Trump, que mal tomou posse, no Gallup desse mês tem desempenho parecido - 45% de aprovação x 51% de desaprovação (-6) -, recuando em relação a janeiro, quando marcava 47% x 48% (-1).
O problema é que se cair mais, ou mesmo se ficar patinando nesse percentual (43%), a reeleição beira a impossibilidade. Diversas pesquisas mostram que, decorridos dois anos, o maior recall de ações do governo federal concerne ao Bolsa Família com acréscimo de 150 Reais, ao que se soma com menores percentuais a menção à volta de outros programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida.
De novo, surge apenas o Pé-de-Meia, na mesma seara, com potencial de alcançar não mais que 4 milhões de famílias. Ou seja, se o Lula 1 foi de “inclusão social” e o Lula 2 deu um passo à frente com o PAC, na atual versão ele não conseguiu durante a primeira metade consolidar uma “marca”, uma narrativa síntese, uma mensagem central que designe o seu propósito e demonstre o trabalho de sua consecução.
O Lula 3, nesse sentido, ainda carece de significado. Afastar Bolsonaro foi uma tarefa hercúlea quase não alcançada, mas é pouco para a população, incluindo os que o elegeram. Resgatar os antigos programas pode ser valioso, mas não satisfaz o imaginário de quem esperava mais.
Sem marca e sem comunicação, a imagem do governo estava fragilizada quando ele enfrentou fortes ventos de proa. Após a disparada do dólar e a escalada do preço dos alimentos sobreveio a “crise do Pix”.
A habilidade nas redes do deputado oposicionista Nikolas Ferreira resgatou uma portaria infeliz de setembro passado de órgão da Fazenda, e com um volume absurdo de compartilhamentos semeou a ideia de que o furor arrecadatório pretendia entregar os pobres, sobretudo do setor informal, ao Leão da Receita.
Uma espécie de Coliseu romano de um governo de esquerda. Não bastaram os desmentidos. Foi preciso voltar atrás e anular a portaria para estancar a sangria, embora alguns analistas afirmassem que o recuo seria um equívoco. Pura ingenuidade.
Pesquisa Quaest de janeiro mostrou com clareza: a regulação sobre o Pix era o grande fato negativo imputado ao governo, muito mais que a inflação no geral, ou o preço dos alimentos. Se tivesse insistido em mantê-la, sangraria até hoje.
E daqui para a frente, Lula continuará caindo ou se estabiliza e poderá reagir?
Do ponto de vista exclusivamente estatístico, que leva em conta apenas o histórico das pesquisas, segundo as “retas de regressão” elaboradas pelo Ipespe Analítica, divisão do Instituto dedicada à análise avançada de dados, coordenada pelo Professor Dalson Figueiredo, a aprovação do presidente deveria voltar a um patamar de 46%, com a desaprovação oscilando para 50%.

Entretanto, a evolução da conjuntura é que determinará os próximos movimentos. Alguns fatores poderão contribuir para uma recuperação mais rápida, outros jogarão contra e poderão agravar o quadro atual.
Começando pelos primeiros: o início do julgamento de Bolsonaro e mais 33 réus vai ocupar parte substancial da mídia e do debate público, aliviando a pressão dos críticos e deixando a oposição na defensiva, ou seja, abre-se uma janela de oportunidade para a nova comunicação do governo mostrar a que veio; a queda da cotação do dólar, combinada à super safra esperada, e o fim da seca, podem diminuir o preço dos alimentos, atenuando o mal-estar generalizado; e a mudança ministerial dará um novo alento à torcida, à base do presidente, dependendo de que os novos titulares mostrem resultados desde o primeiro dia.
A hipótese pessimista, aposta da oposição, é alimentada sobretudo por algumas conjecturas: a retração da economia pelo aumento dos juros ainda não mostrou todos os seus impactos negativos; o ajuste fiscal imporia um progressivo contingenciamento dos gastos, paralisando o investimento público; as turbulências globais provocadas por Trump devem cobrar um preço alto ainda desconhecido ao Brasil; e o julgamento de Bolsonaro deixaria o país em pé de guerra a partir das manifestações convocadas para março, devendo a polarização ideológica “esconder” eventuais realizações do governo.
Na minha ótica, o curto tempo disponível é um grande desafio. Todos os governos “começam a terminar” em abril do ano da sucessão, quando membros da equipe se desincompatibilizam e a pré-campanha vai efetivamente para as ruas, independentemente dos prazos legais.
Ou seja, o Lula 3 dispõe, basicamente, de um ano e um mês para construir a tal marca que comentamos antes.
Quem são os candidatos “naturais” a um ano e sete meses da eleição?
É um mantra da análise eleitoral: candidaturas naturais têm maior chance de êxito, e sua pedra de toque é aparecerem nos levantamentos espontâneos. Destacamos aqui uma das poucas pesquisas espontâneas disponíveis, a do Paraná Pesquisas desse mês, que nos permite entender o que se passa hoje, sem qualquer estímulo, na mente dos eleitores quando o assunto é a eleição de 2026.
Como o gráfico revela, oito nomes são citados espontaneamente com pelo menos 0,1%. Lula e Bolsonaro concentram 90% das menções, mas a simples presença de outros nomes dá mostras de que começam a surgir alternativas.
Note-se que são nomes sobretudo da direita, que dificilmente se apresentará monolítica na próxima eleição, como de resto ocorreu nas últimas disputas municipais em diversas capitais, a exemplo da maior delas, São Paulo.
Alguns pré-candidatos, a despeito de registrarem pouca expressão na espontânea, seja pelo menor nível de conhecimento nacional, seja porque ainda não se declararam como tal, uma vez testados em cenários estimulados têm obtido razoável desempenho.
Contudo, as pesquisas agregadas pelo Índice CNN não trazem ainda listas comuns de primeiro turno, ou seja, exatamente iguais, que permitissem elaborarmos médias consistentes.
Os cenários eleitorais de 2026 giram naturalmente em torno do incumbente. É assim no Brasil como em todo o mundo.
O que dizem os levantamentos sobre hipotéticos enfrentamentos no segundo turno? Bolsonaro empatando com Lula, Tarcísio chegando perto, Gusttavo Lima também. Eduardo, Caiado e Marçal vindo atrás, de 12 a 15 pontos distantes de Lula.
Zema aparecendo na lanterna, com 17 pontos de diferença. Os institutos não testaram ainda Ratinho Jr no segundo turno. Quanto ao desempenho do atual presidente sua evolução dependerá basicamente, como já foi comentado, da trajetória de sua aprovação.
No campo oposicionista, a grande incógnita, como se sabe, é quem terá o apoio de Bolsonaro, cuja maior probabilidade é continuar inelegível. Mantida para fins de propaganda a sua candidatura, mimetizando Lula 2018, haveria uma espécie de “sequestro das alternativas”.
Tarcísio dificilmente se arriscaria. Caiado deve ser candidato. Ratinho Jr, talvez. Quem mais? Ao longo desse ano o quadro de postulantes será melhor delineado. As pesquisas influenciarão as definições, mas o comportamento de Bolsonaro seguirá sendo a principal indagação.

Gusttavo Lima lidera a batalha das redes sociais. O IDP, Índice Datrix dos presidenciáveis, mostra o desempenho dos pré-candidatos.
Também nas redes, 2026 já começou. Em fevereiro, Gusttavo Lima lidera o IDP, alcançando 37,45 pontos. Marçal, que nessa sexta-feira foi declarado inelegível pela Justiça Eleitoral de SP, aparece em segundo lugar (32,68). E Tarcísio desponta em terceiro (27,60). Lula, primeiro colocado nas pesquisas, surge na sexta colocação no território digital (11,26).
Nas redes próprias, entre os nomes do ranking Lula só perde para Gusttavo Lima, porém é o presidenciável mais atacado nas redes sociais. Um dos motivos para a liderança do cantor, naturalmente, é a sua gigantesca base de fãs, com 45 milhões de seguidores apenas no Instagram.
Na única publicação que fez sobre a corrida presidencial, comentando uma pesquisa em 7 de fevereiro, ele gerou um engajamento impressionante: mais de um milhão de interações.
O cientista de dados da Datrix, João Paulo Castro, me observou que a conexão do cantor com o debate eleitoral não para por aí, “em fevereiro, mais de 65% das menções a ele por influenciadores e pela mídia tiveram alguma relação com as eleições de 2026”.
A performance digital dos potenciais candidatos é medida de forma original nesseÍndice, com notas que vão de -100 a + 100, combinando três grandes dimensões: engajamento nas redes próprias dos presidenciáveis, comentários em páginas da mídia, de influenciadores e de outros políticos, e a tonalidade das postagens numa escala de muito positiva a muito negativa.
Milhões de dados são extraídos e analisados com Inteligência Artificial das mais importantes plataformas (X, Facebook, Instagram, Threads, Bluesky, YouTube, entre outras).

Falta um ano e sete meses para as eleições de 2026.
