Desabafos passageiros – quando o Uber vira divã

“Padre, eu preciso me confessar!”, disse uma passageira assim que entrou no Uber. “Mas eu não sou padre. Nem católico eu sou”, respondeu o motorista. “Não tem problema, eu preciso falar.”
Não se trata do começo de uma piada, mas de um caso real que me foi relatado recentemente por um motorista de aplicativo. Por razões profissionais, interessei-me pelo tema e descobri que essa prática é muito comum: pessoas aproveitando a corrida para desabafar, se abrir, pedir conselhos, confessar pecados. Histórias de adultério e casos extraconjugais são abundantes, mas também surgem temas altamente emocionais e sensíveis. “Teve uma passageira que me falou que estava indo se tratar de câncer, mas não tinha contado para ninguém da família, para não os deixar preocupados”, disse-me o rapaz.
Existem vários motivos para isso. A sensação de anonimato é uma das principais: embora muitas vezes traga grande alívio compartilhar situações difíceis, não é raro temermos ser julgados, sofrendo alterações de status em nossa rede de relacionamentos, dependendo do que estamos compartilhando. Os motoristas se encontram numa posição curiosa: oferecem um ouvido humano empático, mas sem fazer parte da rede mais íntima e próxima, que potencialmente ameaçaria nossa reputação. Não são da nossa pequena tribo, mas são da mesma tribo humana, por assim dizer. E o ambiente também é propício: a ausência do olho no olho, quase como num divã, reduz o desconforto causado pelo olhar alheio, tantas vezes associado a um olhar julgador.
Fato é que o ser humano precisa de conexões – somos recompensados emocionalmente quando conseguimos nos ligar a alguém, mesmo que por um breve momento. As interações fugazes que temos com desconhecidos comprovadamente oferecem esse tipo de recompensa: resultados consistentes de pesquisas realizadas em vários lugares do mundo mostram que elas aumentam a sensação de bem-estar emocional e melhoram nosso humor. Compartilhar algo profundo com um motorista durante uma corrida proporciona exatamente essa experiência.
Claro que esse tipo de interação poderia acontecer com um atendente de loja, um desconhecido numa fila de supermercado ou o passageiro ao lado no metrô. Mas, sobretudo no caso dos aplicativos, os motoristas precisam de boas avaliações dos usuários, o que os motiva a demonstrar interesse e a incentivar a conversa. Esse aspecto, contudo, tem dois lados: tais sinais realmente favorecem a interação e aumentam o valor daquela conexão. Tanto o passageiro se sente melhor quanto o motorista pode ver aí um propósito maior para seu próprio trabalho. Por outro lado, essa disponibilidade constante coloca esses trabalhadores próximos do que é conhecido como trabalho emocional, no qual as pessoas são obrigadas o tempo todo a ajustar suas próprias expressões emocionais de acordo com o que se espera delas, levando a maior desgaste e maior risco de adoecimento. E pior: sem treinamento adequado para o gerenciamento de crises ou para lidar com conversas muito carregadas, os motoristas relatam que ficam, por vezes, sobrecarregados, ruminando situações pelas quais passaram e preocupando-se excessivamente com problemas alheios.
Nós sabemos que não existem terapeutas suficientes para todo mundo que precisa. E sabemos também que pequenas intervenções por vezes bastam para muitas situações. Talvez as grandes plataformas de mobilidade, como a Uber, pudessem oferecer treinamentos gratuitos, em parceria com o CVV, para seus motoristas, ajudando-os a saber um pouco melhor o que dizer e, sobretudo, o que não dizer às pessoas que desabafam durante suas corridas. Porque, embora pessoas em maior sofrimento, enfrentando grandes crises ou doentes precisem de encaminhamentos específicos, a maioria de nós está, na maior parte do tempo, apenas precisando de um ouvido interessado para desabafar - de forma passageira.
