A morte da piada – porque não ouvimos mais anedotas, e onde foram parar?

As piadas desapareceram. Pense bem: há quanto tempo você não ouve alguém, no meio da conversa, iniciar uma história dizendo “Você conhece aquela...?”, e então contar uma historinha fictícia, terminando de forma inesperada e divertida, levando todo mundo a rir? Não falo das piadas espontâneas, comentários divertidos que surgem de improviso ao sabor do papo. Aquela coisa do tipo “Isso porque você ainda não me viu dormindo de sunga”, que alguém solta em resposta a um comentário qualquer.
Refiro-me às anedotas propriamente ditas, histórias conhecidas previamente que não estão necessariamente ligadas à situação da conversa. Normalmente são curtas e podemos conta-las de cabeça. Começam por um set up - uma certa contextualização - e terminam com uma punch line, a conclusão inesperada que nos leva a rir. E então? Há quanto tempo não ouve uma dessas? Você poderia contar uma agora mesmo, se alguém pedisse? Ainda tem piadas no seu repertório decorado?
Não é que o humor tenha desaparecido de nossas vidas – segundo pesquisa seriada do Instituto Gallup em vários países, por volta de 70% das pessoas dizem que sorriram ou riam muito no dia anterior, número que vem se mantendo estável há anos. O que aconteceu é que o suporte da graça, o meio para ela circular, se transformou. E sim, provavelmente por causa dos smartphones.
Antes de termos agendas telefônicas nos nossos bolsos nós sabíamos de cor vários números de telefone. Hoje, com os celulares, mal sabemos o nosso número. A mesma coisa aconteceu com o humor: quando queremos dividir algo engraçado com as pessoas basta encaminhar o link. Ou no máximo sacar o celular no momento propício e mostrar a cena. Além, disso, com o advento das redes sociais, novos tipos de humor começaram a ser cada vez mais explorados, como os memes e vídeos curtos, que progressivamente tomaram o lugar da narrativa decorada. Veja que interessante o gráfico que mostra a frequência de buscas no Google pelos termos “piadas” e “memes” nos últimos anos:

Pode ou não ser coincidência, mas a busca por piadas começa a cair mais ou menos na mesma época em que a busca por memes começa a subir, pouco depois do lançamento do Instagram, no início dos anos 2010. Essa tendência se aprofunda até que o interesse por memes ultrapassa definitivamente o por piadas, logo após a expansão internacional do TikTok ocorrida em 2017.
Além disso, as redes sociais tornaram tudo mais rápido e transitório. E a velocidade com que os assuntos se sucedem no debate público não ajuda o mercado de piadas: uma das formas de sedimentação das anedotas no repertório cultural são os ciclos de piadas, aquelas que surgem como reflexo de situações socialmente relevantes – mudanças estruturais importantes, alterações de papeis sociais etc. Quando os fenômenos sociais eram mais lentos os ciclos de piadas eram mais longos, permitindo que as pessoas decorassem algumas delas. Hoje em dia, em que o assunto da manhã já foi atropelado pela polêmica da tarde, os memes nascem e morrem em questão de dias.
A mim parece-me inevitável que sigamos em direção à morte da piada como a conhecíamos, inexoravelmente. Esse tipo de manifestação cultural é como os vírus: para que se mantenha ativa e circulante é preciso um contingente de pessoas sendo exposto de forma contínua. A partir do momento em que reduzimos sua circulação, menos gente tem contato e a coisa se dissemina cada vez menos, até desaparecer.
Talvez elas não sumam totalmente e sobrevivam em nichos, quase como relíquias arqueológicas, a exemplo da declamação de poesias ou realização de serenatas. Mas não vejo muita chance de elas voltarem a fazer parte do nosso cotidiano como antes. E tudo bem. Cada época tem seu jeito próprio de nos fazer rir. Não fica aqui nenhum saudosismo. Só era preciso registrar o passamento dessa forma de humor que marcou minha infância e juventude e que não merecia ir embora sem a devida eulogia.
Adeus, piadas. Vida longa ao humor.
