As bolsas e os bolsos – transferência de renda é investimento em saúde

Dizem que o mau julgador por si julga os outros. Você conhece a situação: quem se põe a julgar comportamentos, falas ou atitudes alheias de forma condenatória, sem conhecer a pessoa, seu contexto, sua versão, muito frequentemente está, no fundo, projetando no outro suas próprias características – normalmente aquelas menos louváveis.
Penso nisso toda vez que ouço alguém dizer que as pessoas que se beneficiam de ajuda terminam acomodadas. Sejam benefícios sociais, transferência de renda, amparo de qualquer sorte, sempre que um auxílio é criticado por levar as pessoas ao comodismo, fico me perguntando: será? Qual a base para afirmar isso? Pode ser que saibamos do caso de alguns sujeitos que resolveram viver às custas do governo; mas seriam suficientes para generalizar tanto? Fico pensando se quem vocifera tão categoricamente que os brasileiros são vagabundos inclui ou não a si mesmo na categoria dos brasileiros. Seria essa raiva reflexo de uma preguiça inconfessável?
Recentemente o Bolsa Família voltou à baila, após ser criticado por supostamente não ter porta de saída, estimulando as pessoas ao ócio. Eu me lembrava de alguns estudos muito importantes do ponto de vista da psiquiatria sobre esse programa e resolvi ir atrás de mais dados. Encontrei coisas interessantes.
Em primeiro lugar, o impacto na saúde mental do Bolsa Família é enorme. Estudos publicados em revistas científicas internacionais, analisando bases de dados brasileiras, mostraram, por exemplo, que entre os beneficiários o risco de suicídio era quase metade do observado entre não beneficiários. As internações psiquiátricas em geral eram 23% menores, e as internações por dependência química, 17% menores. Entre crianças e adolescentes vulneráveis, os dados mostram que o Bolsa Família reduz a chance de eles desenvolverem problemas psiquiátricos, ajudando a quebrar o círculo vicioso pobreza-transtorno mental. Garantir que as pessoas não vivam sob o estresse contínuo de ter os bolsos vazios é um fator protetor contra diversos agravos à saúde mental, no fim das contas.
Mas será que não haveria impactos psicológicos negativos, tornando os beneficiários preguiçosos? Já que estava fazendo pesquisas, não custava verificar o que a literatura científica teria a dizer sobre isso.
O surpreendente não foi descobrir que esse tipo de programa não desincentiva a busca por trabalho. Espantoso mesmo foi encontrar diversos estudos, no Brasil e no mundo, mostrando o contrário: com uma renda garantida, o custo de busca por oportunidades fica menor, há menos riscos de escassez e falta de liquidez, por vezes aumentando a participação das pessoas no mercado de trabalho. Alguns números variam quanto ao tempo trabalhado e à inserção no mercado formal ou informal, mas, exceto em pequenos recortes, as pessoas tendem a trabalhar mais. E em quais grupos de fato se verifica uma redução na participação no mercado de trabalho? Mulheres em cujas casas haja crianças menores de seis anos – o que reflete a maior possibilidade de cuidado com os filhos.
E, bem ao contrário do que se imagina, os dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que, de 2023 para 2024, mais do que dobrou o número de famílias que superaram meio salário mínimo de renda per capita e deixaram o programa. Em 2025, mais de 2,5 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família. Estudo da Fundação Getulio Vargas confirmou que havia 100 mil pessoas a mais saindo do que entrando no programa entre 2023 e 2025.
A gente pode ser contra ou a favor de qualquer coisa. Todo mundo tem direito às suas opiniões. Claro que ninguém é obrigado a ser favorável ao Bolsa Família ou a qualquer outro programa de transferência de renda, por qualquer motivo. Mas, se quisermos ter argumentos sérios para tanto, seria bom procurar melhor. Porque, ao menos do ponto de vista psíquico, ele faz um bem que nem imaginamos, e o mal que imaginamos ele não faz.
