Daniel Barros
Coluna
Daniel Barros

Médico psiquiatra e bacharel em Filosofia. Professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP

Pode uma piada ser crime?

Compartilhar matéria

Imagino que, pelo menos uma vez na vida, você já tenha levado um susto daqueles que paralisam, fazem o coração parar de bater enquanto os pensamentos rodopiam sem direção, tentando compreender a situação. O tempo parece desacelerar e, quando percebemos, já reagimos: evitamos um acidente, disparamos em fuga, desviamos de um golpe súbito. As pernas ficam trêmulas, a respiração ofegante, o pensamento agitado – leva tempo até voltarmos ao normal. Essa reação aguda de estresse foi fundamental para nossa sobrevivência como espécie.

Pouco se fala, contudo, que a capacidade de relaxar também teve um papel fundamental no florescimento da humanidade. O estresse estreita o campo de visão para que foquemos no problema, no aqui e agora; é excelente para lidar com ameaças imediatas, mas péssimo para a criatividade, a inventividade, a disposição de correr riscos e ampliar os horizontes. Da mesma forma como foi importante para os animais sociais desenvolverem chamados de alarme – sinais que rapidamente ativassem no bando a resposta de fuga ou luta –, foi vantajoso desenvolver um sinal que rapidamente indicasse que estava tudo bem, que todos poderiam relaxar.

Esse sinal existe: é a risada. Ela aparece de forma primitiva em vários animais, mas nos humanos atingiu sua forma mais acabada – é contagiosa, se espalha de um indivíduo para o outro rapidamente e indica, de forma instantânea, que está tudo bem. É o velho exemplo: alguém leva um tombo grave, as pessoas em volta param por um instante de olhos arregalados, até que ela se levanta dando risada e todos relaxam, rindo juntos – está tudo bem, não foi nada.

Atualmente, a mais moderna teoria sobre o humor parte desse princípio para explicar o que nos faz rir: são as chamadas “violações benignas”. Para que algo seja engraçado, deve existir um erro, alguma violação de normas, até mesmo certa agressividade. Ao mesmo tempo, contudo, deve estar bem claro que não há risco real, que se trata de uma violação benigna – não existe um problema real: está tudo bem. Sem a violação, não existe humor. Mas a agressividade sozinha perde a graça.

Da mesma forma, rir de alguém implica em violação contra a pessoa, colocando-a numa posição inferiorizada. Curioso é que isso nem sempre é negativo. Quando a atriz Jennifer Lawrence caiu na escada enquanto subia ao palco para receber o Oscar de melhor atriz, em 2013, o efeito foi torná-la mais simpática aos olhos do público. Como um chefe que tira sarro de si mesmo, quando pessoas em posições superiores descem um pouco pela via do humor, isso as humaniza e as aproxima de nós. O escritor George Orwell dizia, inclusive, que esse era o próprio espírito da piada: “Uma coisa é engraçada quando – de alguma forma que não seja realmente ofensiva ou assustadora – perturba a ordem estabelecida. Toda piada é uma pequena revolução. (...) Qualquer coisa que destrua a dignidade e derrube os poderosos dos seus assentos, de preferência com uma pancada, é engraçada. E, quanto mais do alto eles caem, maior é a piada”.

Fica claro qual é o problema das piadas voltadas para quem já está por baixo – o que os americanos chamam de “punch down”: pessoas vulneráveis, socialmente rebaixadas, vítimas de violência, são colocadas numa posição ainda pior ao se tornarem alvo de piadas. Se a sociedade não se importa tanto com o problema abordado, não é tão difícil dar um ar de benignidade e dizer que está tudo bem, que não tem problema. Mas, quando o assunto se torna particularmente sensível, não se consegue mais aliviar a situação, e a agressividade se sobressai conforme a graça se esvai.

Não foi por outro motivo que a sociedade brasileira decidiu, por meio de lei, que seria crime praticar ou induzir a discriminação ou o preconceito, mesmo no contexto de atividades artísticas ou culturais. Isso inclui o humor. E deveria mesmo incluir, pois a risada é poderosa. Diversas pesquisas científicas já mostraram que, com sua tremenda capacidade de sinalizar que está tudo bem, o humor – quando é discriminatório – estimula a sensação de que o preconceito não é um problema, fomentando atitudes preconceituosas nas pessoas. Sim, contar piadas preconceituosas configura, comprovadamente, indução à discriminação e ao preconceito.

Ao definir a comédia stand-up, a comediante Judy Carter – autora do livro The NEW Comedy Bible: The Ultimate Guide to Writing and Performing Stand-Up Comedy (A nova bíblia da comédia: o guia definitivo para escrever e apresentar comédia stand-up) – ajuda a entender por que, no caso desse tipo de comédia, a discriminação é ainda mais problemática. No stand-up, não há um personagem, um ser ficcional que não existe na realidade. O que existe é a persona do comediante: “Sua persona de comédia é ser o seu eu mais autêntico no palco. (...) Ninguém mais tem o seu ponto de vista particular, a sua voz ou os seus maneirismos. Todos esses elementos formam a sua persona de comédia”, escreve ela. E completa: “Um dos maiores erros que iniciantes cometem é subir ao palco como um personagem. (...) O problema é que esse esforço vai contra o cerne do que torna o stand-up divertido — a autenticidade e a capacidade de identificação do material. Sua persona é (ou será) você”. Como se ainda restasse alguma dúvida, ela deixa claro: “Você não pode fazer as pessoas rirem. Mas pode subir ao palco e comunicar como você genuinamente se sente em relação a algo”. Ou seja: no contexto do stand-up, contar piadas preconceituosas é ser preconceituoso; não é possível se esconder atrás de um personagem.

Talvez a lei brasileira seja injusta. Talvez condenar comediantes seja um exagero. Discuta-se a lei, então. Revejam-se as penas. Reconsidere-se o grau de violação de uma piada. Mas, até que a lei mude, quem quiser testar seus limites deve estar pronto para enfrentar suas consequências. Como disse Martin Luther King: “Quem infringe uma lei injusta deve fazê-lo abertamente, com amor e com disposição para aceitar a pena. Afirmo que um indivíduo que infringe uma lei que sua consciência lhe diz ser injusta, e que aceita voluntariamente a pena de prisão para despertar a consciência da comunidade sobre sua injustiça, está, na realidade, expressando o mais alto respeito pela lei”.