Daniel Barros
Coluna
Daniel Barros

Médico psiquiatra e bacharel em Filosofia. Professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP

Viver é se estressar – porque proteção demais pode ser traumático

Nunca se falou tanto sobre trauma. Talvez estejamos exagerando

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Nunca se falou tanto sobre trauma. As pessoas vivem preocupadas com o risco de traumatizar os outros, andam em busca de localizar e desenterrar seus próprios traumas antigos, criam alertas de gatilho para não retraumatizar pessoas, examinam com lupa seu entorno para identificar e não deixar passar qualquer microtrauma. Talvez estejamos exagerando.

Sem querer minimizar o impacto das adversidades emocionais que de fato podem gerar feridas psíquicas, o fato é que criar um ambiente livre de traumas é um objetivo tão factível como acolchoar o mundo para que a gente não se machuque. Viver é tropeçar, cair, levantar, dar topadas, trombadas, se esfolar, cicatrizar e criar marcas, literal e figurativamente. E isso vai acontecer de qualquer forma, queiramos ou não. Criar pessoas preparadas para essa realidade é provavelmente mais importante – e atingível – do que protegê-las a todo custo.

É como o fato de conhecimento amplo, hoje em dia, de que as crianças crescidas no interior, em fazendas, com famílias grandes, em contato com o solo e convivendo com animais, têm menos alergias e problemas imunológicos do que as crianças urbanas, cercadas de um ambiente tão asséptico quanto possível. A exposição à diversidade de microrganismos ajusta o sistema imunológico de uma forma natural, o que se reflete inclusive na riqueza da microbiota intestinal. Uso intensivo de antibióticos, ausência de aleitamento materno, dietas ultraprocessadas e pouco contato ambiental se associam a menor diversidade de bactérias no intestino, com maior risco de doenças inflamatórias e alérgicas.

Isso não significa que as crianças deveriam brincar no lixo, nadar no esgoto ou comer frutas podres, é óbvio. Mas a preocupação excessiva com o chão sujo, com o cachorro babão, com as unhas cheias de terra impede que o organismo se prepare para lidar com o infecto mundo real.

Não é muito diferente com o trauma. As experiências estressantes ao longo do desenvolvimento são essenciais em nossa preparação para o enfrentamento da vida como ela é. Pessoas expostas a um pouco de adversidade, sobretudo quando têm algum grau de controle sobre a experiência ou recebem suporte – por vezes apenas ter companhia, dando a sensação de não estar sozinho - tem melhores indicadores de saúde mental do que as que foram totalmente protegidas. Obviamente, sujeitos que passaram por experiências muito agressivas ou cronicamente estressadas têm risco maior de adoecer. Mas é como no exemplo da sujeira: não vamos mergulhar numa fossa, mas não precisa limpar o chão com álcool setenta.

Toda vez que me deparo com um alerta de gatilho sinto que estamos tentando desinfetar o mundo para que ninguém adoeça. A ideia é até nobre: no texto, filme, peça a seguir, há imagens fortes, que remetem a situações traumáticas como assaltos, brigas, violências várias. Se você já passou por algo assim, tais cenas podem ser mais estressantes. Mas uma metanálise reunindo resultados de todos os estudos publicados desde 2018 sobre a estratégia mostrou que esses alertas não só são ineficazes para reduzir a resposta emocional negativa como ainda aumentam a ansiedade antecipatória. Ou seja, avisos de gatilhos são pouco úteis. E pior: podem afastar a pessoa da exposição ao estresse por meio da arte, uma maneira de vivenciar situações de forma protegida, modulando a resposta ao estresse.

De forma análoga ao sistema imunológico, quando nossos circuitos emocionais são expostos a situações que disparam nossa reação de fuga ou luta, liberando adrenalina na corrente sanguínea e elevando o cortisol – sem exageros, claro – o sistema límbico vai aprendendo a lidar com esses eventos. É preciso reagir, mas é preciso também parar a reação em algum momento, num exercício de autorregulação emocional que não será desenvolvido se as emoções não sofrerem algum tipo de desregulação para início de conversa.

Em vez de ficarmos varrendo o mundo na vã tentativa de eliminar qualquer microtrauma, talvez seja mais importante ajudar as pessoas a atravessar determinadas situações estressantes em vez de fugir delas. Quando estamos juntos, dividindo a carga emocional, quando as ajudamos a pensar nos desafios como oportunidades em vez de testes, nos fracassos como aprendizados em vez de punições, estamos fazendo mais para prevenir traumas futuros do que se as estivéssemos embrulhando em plástico bolha, como muitas vezes tentamos fazer.