Daniel Barros
Coluna
Daniel Barros

Médico psiquiatra e bacharel em Filosofia. Professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP

Os vieses cognitivos nas eleições

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Ah, as campanhas eleitorais. Que período excelente. Sem ironia: é de fato um tempo privilegiado – para quem se interessa pelo estudo dos vieses cognitivos. Não é sempre que temos a chance de nos deparar com tantas tentativas de explorar esses atalhos mentais para manipular nossas opiniões, atitudes e comportamentos. Claro que a publicidade faz isso o tempo todo também, mas nas campanhas eleitorais essa estratégia parece mais intensa, dada a urgência de apresentar resultados num tempo exíguo.

Os vieses cognitivos são tendências do raciocínio humano que sistematicamente nos levam a conclusões inadequadas. São inclinações (daí “vieses”) de nossa razão (daí “cognitivos”), que já vêm programadas de fábrica, por assim dizer. Os marqueteiros em geral, e os políticos em particular, aproveitam-se dessas tendências para nos influenciar e induzir nossas escolhas na direção que lhes interessa. Conhecer alguns desses vieses pode ser bastante útil nesse período, pois, assim como o pintor que tem os olhos treinados enxerga a realidade de forma diferente de nós, ou o músico que identifica nuances que nos escapam nas canções, quando aprendemos a identificá-los somos capazes de perceber quando estão tentando nos manipular e, quem sabe, reagir a tempo.

Os mais explorados em campanhas eleitorais não são difíceis de reconhecer.

Viés intragrupo – temos a tendência de favorecer as pessoas que consideramos do nosso grupo, seja lá como definimos grupo. Brasileiros, flamenguistas, brancos, progressistas, cristãos, qualquer coisa que nos forneça sensação de pertencimento e identificação pode ser usada para nos inclinar numa determinada direção. Mesmo que esse tal grupo esteja indo na direção errada, mesmo que não concordemos com a turba, a necessidade que temos de pertencer muitas vezes solapa o pensamento crítico, nos levando a aceitar coisas das quais, no fundo, discordamos. Quando você ouvir alguém dizendo que qualquer grupo – mulheres, ricos, pobres, pretos, empresários – vota assim ou assado, saiba que estão apelando para esse viés.

Pensamento dicotômico – nosso cérebro sempre busca poupar esforço, então salta logo para conclusões, evitando gastar energia com raciocínios elaborados. Essa é a raiz do pensamento dicotômico, tudo ou nada. Raciocinar por extremos, ver tudo em preto e branco, é muito mais econômico, porque considerar os infindáveis tons de cinza entre eles é muito trabalhoso. É por isso que, se eu te digo que o João não é alto, você logo pensa que ele seja o quê? Baixo, provavelmente. Quando, na verdade, é bem capaz que ele seja de uma estatura mediana. Mas pular de um extremo a outro é muito mais fácil. Por isso, as campanhas apresentam os problemas como tudo ou nada: investir em uma iniciativa implica deixar outra à míngua. Reconhecer direitos de um lado é igual a retirar direitos de outro. Ou queremos imposto ou emprego, ou direitos ou deveres. Sempre que te apresentarem uma questão como “ou isso ou aquilo”, desconfie.

Efeito de verdade ilusória – a mente humana não funciona na base do método científico; aliás, é exatamente por isso que precisamos de um método para a ciência, porque ela não é intuitiva. Mas, em nossa história evolutiva, antes de termos desenvolvido essas ferramentas intelectuais, nós já precisávamos decidir o que era ou não verdade. A regularidade, a repetição, funcionavam relativamente na nossa vida como caçadores e coletores. Como nosso cérebro ainda é o mesmo que o de nossos antepassados, basta que fiquem repetindo insistentemente algo para que passemos a acreditar que é verdade. De tanto ler aquilo nos nossos grupos de WhatsApp ou nossas redes sociais, aquela informação passa a fluir com tanta facilidade que o cérebro interpreta que ela só pode ser verdadeira. Então já sabe – se estão fazendo muita força para te convencer de algo, vale a pena conferir por quê.

Viés de confirmação – uma vez que temos determinadas opiniões, é muito mais fácil prestar atenção naquilo que as confirma do que gastar energia revendo nossas crenças a partir de evidências contrárias. Quando estamos dispostos a isso, é possível mudar de opinião, mas, aproveitando a tendência que temos de poupar energia, as campanhas eleitorais já preparam antecipadamente o terreno: “se nos acusarem, é perseguição”; “se a pesquisa for ruim, está manipulada”; “se a Justiça decidir contra nós, faz parte do sistema”, reforçando a inclinação natural que temos a desconsiderar aquilo que nos desafia. Fica o convite para termos coragem de rever com sinceridade nossas crenças – mesmo que seja para, posteriormente, mantê-las ainda mais firmes.

Existem outros tantos – afinal, já foram identificadas e descritas centenas de vieses cognitivos – e possivelmente voltaremos a eles em colunas futuras. Mas, por ora, vale manter os olhos abertos, porque, embora seja fácil identificar a exploração desses vieses, pode ser muito difícil resistir a seu apelo.