O sofrimento e a doença

Quem aproveitou, aproveitou. Quem não aproveitou já não aproveita mais. Agora, se você tem pressão arterial de 120 x 80 mmHg — o famoso doze por oito — não pode mais dormir tranquilo sabendo que tem pressão normal. Não, você está quase lá, na hipertensão. É preciso perder peso, controlar o sal, parar de fumar, se exercitar, dormir bem e não ficar tão estressado. Mesmo tendo de fazer tudo isso.
Avizinhar-se de alterações fisiológicas parece estar se tornando um problema. Embora tenha demorado, finalmente a menopausa deixou de ser um tabu; mas bastou passar a ser abertamente discutida na sociedade para que logo sua mera aproximação recebesse um nome: perimenopausa. Os transtornos mentais não ficaram de fora da tendência, claro. Mesmo quem não tem sintomas intensos o suficiente para receber um diagnóstico psiquiátrico já pode ser considerado “no espectro”. Não chegou lá, mas se aproximou bastante. É bom ficar de olho.
Não tem jeito. Com o intuito de promover a saúde, a ampliação do alcance médico sobre a vida faz respingar doença em tudo o que toca. Essa aparente expansão das fronteiras do patológico encolhe o que antes era considerado normal. Mesmo quando não se afirma que se trata de uma doença, a contaminação é inevitável. Veja o caso do burnout: de acordo com os critérios da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), ele é classificado como um fator que interfere na saúde, como o sedentarismo ou a má higiene — e não difere tanto de outras reações de estresse crônico e intenso. Sua particularidade é ser um tipo de estresse que ocorre no local de trabalho, codificação criada com o propósito de gerar dados e permitir levantamentos estatísticos. Mas, mesmo que a Organização Mundial da Saúde afirme que não se trata de uma doença, só por receber um nome próprio, as pessoas acreditam — erroneamente — que é.
Como historicamente é a doença que legitima a intervenção médica, quando a medicina se manifesta sobre um assunto nossa percepção sobre ele é imediatamente transformada. Trato desse dilema em meu novo livro Sofrimento não é doença (Editora Sextante), mostrando como diferenciar o normal do patológico é uma tarefa mais complexa do que parece à primeira vista. E, além de todas as nuances fisiológicas e filosóficas, infelizmente, interesses comerciais também se imiscuem nessa história.
Funciona assim: entidades médicas buscam conscientizar as pessoas sobre estratégias de prevenção, na maioria das vezes enfatizando um estilo de vida saudável. Ao chamar atenção para a pressão 120 x 80, a sociedade de cardiologia diz algo como: “Veja, sua pressão pode não estar alta, mas se exagerar no sal, fumar ou não se exercitar, ela irá subir. E logo”. Mas, como são médicos falando, nós ficamos receosos — e desse temor se aproveitam os mascates das doenças, como traduzo no livro o termo consagrado em inglês disease mongering.
Visando apenas ao lucro, eles distorcem as recomendações médicas para ampliar as definições de doença, vendendo como patológicas experiências humanas normais. Ao propagar sintomas comuns como problemas graves, criam a necessidade do uso dos tratamentos que eles mesmos oferecem, claro.
É legítima a busca por reduzir o sofrimento, seja o nosso, seja o da humanidade como um todo. Mas, quando confundimos sofrimento com doença, passamos a nos acomodar, esperando que soluções médicas venham mitigar qualquer tipo de dor que nos acometa — o que, obviamente, é uma ilusão. Como afirmo na primeira frase do livro, por mais que queiramos evitar, “precisamos reaprender a sofrer”. Não para nos resignarmos às dores, mas para não nos acomodarmos com tratamentos que às vezes trazem mais lucro para os outros do que alívio para nós.
