Daniel Barros
Coluna
Daniel Barros

Médico psiquiatra e bacharel em Filosofia. Professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP

Tudo é narrativa 

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A nossa vida é vivida como uma história. Quando desenvolvemos linguagem conseguimos criar memórias explícitas - lembranças que podemos acessar e que vamos encadeando como um colar de contas, urdindo o fio de nossa existência. Lembra-se de quando você começou a frequentar a escola? Certamente há vários episódios desses anos que se encaixam em sua memória biográfica. O mesmo para quando prestou vestibular, aprendeu a dirigir, casou-se ou teve filhos.

Os eventos ao nosso redor, mesmo não diretamente ligados a nós, também são incorporados à nossa história: a morte do Senna, o 11 de setembro, o casamento e décadas depois a morte da Lady Di, o golpe militar, o fim da ditadura, a morte do Tancredo. Seguindo com a metáfora do colar de contas da nossa vida, esses episódios são pingentes que colecionamos na memória.

Todo esse processo pode parecer simples, mas ele requer um trabalho integrado – e gigantesco - do nosso cérebro. Os estímulos que nos cercam são incontáveis, os eventos de um único dia beiram o infinito: frases ditas e ouvidas, decisões aos milhares, cada garfada de uma refeição - tudo é material para construção da nossa realidade, num volume de dados tão além da capacidade do cérebro que ele é obrigado a selecionar informações o tempo todo, escolhendo incorporar apenas o que mais se encaixa em nosso pano de fundo mental – nossas crenças, experiências prévias e expectativas ditam o que entra ou não nessa construção de realidade.

Tente conversar com alguém sobre um evento que vivenciaram juntos muitos anos atrás - um irmão, um amigo de escola. É bem comum que as lembranças sejam diferentes, embora o evento seja o mesmo (e normalmente ambos têm a mesma certeza do que lembram, mesmo que sejam recordações incompatíveis). Não é corriqueiro nos darmos conta disso, mas o cérebro está constantemente criando uma história coerente, e é essa história que embasa nossa experiência do mundo. Tudo é narrativa.

Mas nos últimos tempos afirmar que algo é narrativa tornou-se uma forma de desqualificação. “Isso não são fatos, são narrativas”, afirma-se para negar determinada evidência. Entretanto os fatos não existem puros, independentes; só são apreendidos como parte de uma história. O paciente procura o médico com uma queixa. Está tossindo há meses. O profissional busca levantar um histórico, encaixando o sintoma num quadro consistente que leve a um diagnóstico. Fatos que não se encaixem acabam, na maior parte das vezes, fora dessa história. Um cliente procura o advogado por uma desavença com o sócio. É preciso inserir o problema num contexto – e obviamente a outra parte irá selecionar outros ângulos que lhes sejam favoráveis. Não são defeitos da Medicina ou do Direito - é só como o cérebro e, consequentemente, as atividades humanas funcionam.

Nós só não vivemos em bilhões de mundos paralelos, um para cada pessoa, porque socialmente pactuamos uma realidade compartilhada, construindo narrativas coletivas às quais aderimos. Isso é feito por meio do discurso público, da troca de ideias, do compartilhamento de informações, do noticiário, criando terrenos comuns de convívio e tomada de decisão.

Esse fundamento, contudo, vem sendo atacado de forma contínua e intencional, com objetivo de influenciar o trabalho do cérebro de selecionar evidências. Não por acaso professores, universidades, jornalistas, cientistas, veículos de mídia são os principais alvos atacados nessa estratégia, que usa e abusa das redes sociais. O propósito é desqualificar vozes relevantes no debate público e ofertar interpretações alternativas baseadas de informações falsas. Fazendo isso em quantidade e por tempo suficiente chega-se a um ponto em que o trabalho se torna automático: toda notícia que não se encaixa na cosmovisão dos sujeitos assim influenciados é sumariamente descartada.

Manipula-se a tal ponto aquele pano de fundo que determina os elementos que entram ou não na nossa construção da realidade que diante dos mesmos fatos as pessoas enxergam coisas completamente distintas. Na prática, vivem uma realidade paralela.

Infelizmente, essas mesmas pessoas são as que mais discordarão de mim. Afinal, para elas, esse é mais um texto que não passa de narrativa.