Epidemias: ainda somos vulneráveis

Na Infectologia, passado, presente e futuro convivem o tempo todo. Em 2026, lidamos com doenças antigas que voltam a ganhar força, infecções transformadas pela ciência, microrganismos resistentes aos medicamentos e a possibilidade de surgirem novos agentes. É uma especialidade que exige conhecimento acumulado, revisão constante e capacidade de responder a cenários que mudam.
O HIV é um exemplo eloquente dessa dinâmica. Quando surgiu o AZT, no fim dos anos 1980, imaginava-se que uma vacina pudesse estar próxima. Ainda não a temos. Em compensação, o tratamento evoluiu extraordinariamente. Hoje, o objetivo é diagnosticar, tratar e alcançar carga viral indetectável, condição que, quando mantida, impede a transmissão sexual do vírus. Dispomos ainda de estratégias eficazes de prevenção, como PrEP e PEP. Dos cerca de 40 milhões de pessoas que vivem com HIV no mundo, 30,8 milhões estão em tratamento, mas 9,2 milhões ainda não têm acesso a ele. A meta das Nações Unidas, conduzida pela Unaids, de acabar com a Aids como ameaça à saúde pública até 2030, não deverá ser alcançada.
O caminho até aqui foi marcado por epidemias que transformaram sociedades e também a própria Medicina. Atenas, a Peste Negra e a gripe espanhola pertencem a épocas e contextos científicos distintos, mas ajudam a dimensionar o impacto das doenças infecciosas. Mais perto de nós, vivi ainda como estudante de Medicina a epidemia de meningite dos anos 1970. Em São Paulo, 11 milhões de pessoas foram vacinadas em apenas quatro dias. Décadas depois, já na gestão pública, enfrentamos a febre amarela, com decisões que precisaram acompanhar a urgência daquele momento, como o fracionamento das doses da vacina.
Os desafios atuais assumem outras formas. A dengue, doença muito antiga, voltou a aparecer com intensidade. O sarampo reaparece quando a cobertura vacinal cai. A Covid-19 já não produz o cenário de 2020 e 2021, mas o vírus continua circulando e representa uma ameaça. E a resistência antimicrobiana cresce em escala mundial: estima-se que possa provocar até 10 milhões de mortes por ano em 2050. Vigilância, prevenção e capacidade de agir em tempo oportuno continuam decisivas.
É diante desse cenário que a Infectologia precisa avançar para ser cada vez mais preventiva, preditiva e personalizada. A detecção preventiva de doenças será uma das prioridades. Precisamos identificar rapidamente novas doenças infecciosas e reconhecer sinais de risco antes que surtos se transformem em crises. Quanto mais cedo conseguirmos enxergar uma ameaça, maior será nossa capacidade de intervir com precisão.
A tecnologia será parte central dessa transformação. A Inteligência Artificial já é uma realidade na Medicina e amplia a capacidade de analisar exames, cruzar grandes volumes de dados e reconhecer padrões que podem antecipar riscos. Na Infectologia, pode fortalecer a vigilância, apoiar diagnósticos e contribuir para respostas mais rápidas. Não substitui o médico nem o julgamento clínico; acrescenta ferramentas a uma prática que será cada vez mais apoiada por ciência, dados e tecnologia.
O futuro também dependerá de cooperação. Doenças infecciosas não respeitam fronteiras. Compartilhar informações, fortalecer redes de vigilância, formar profissionais, investir em pesquisa e manter a confiança da população nas medidas de prevenção são partes da mesma resposta. Vacinação não é apenas um bem pessoal; é um bem social.
Continuaremos vulneráveis, mas vulnerabilidade não significa impotência. Nunca tivemos tanto conhecimento, tecnologia e capacidade de resposta. Podemos diagnosticar mais cedo, tratar melhor, prevenir mais e reconhecer ameaças com velocidade incomparável à de gerações anteriores. O futuro da Infectologia será colaborativo, tecnológico e centrado na prevenção. Se soubermos transformar conhecimento em ação e agir antes que novas ameaças se tornem crises, estaremos mais preparados para construir uma sociedade mais saudável, resiliente e sustentável.
