Fernando Rodrigues
Coluna
Fernando Rodrigues

Diretor da Rural, Rodrigues iniciou sua trajetória profissional no mercado financeiro, atuando com gestão de risco de commodities e migrou para a construção de um ecossistema voltado à inovação no campo. Fala sobre tecnologia e inovação.

Brasil rico em dados mas pobre em conhecimento no agro

Apesar de liderar commodities, o agronegócio nacional tropeça na adoção tecnológica devido à falta de inteligência sobre os próprios dados.

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Maturidade digital não se compra. Se constrói.
Rodei o Mato Grosso essa semana. Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Cuiabá. Conversei com quem produz de verdade: pecuarista, produtor de grão e cooperativa. Voltei com uma frase na cabeça:

"Nós somos ricos em dados e pobres em conhecimento."

Guarde essa frase. Ela explica por que o Brasil, líder mundial em várias commodities, ainda tropeça na adoção de tecnologia no campo.

Existe um mito confortável que precisa cair: o de que tecnologia se resolve com cheque. O produtor imagina que abre a carteira, contrata o data lake, pluga a inteligência artificial e no dia seguinte está no futuro. Não é assim. Nunca foi.

Em uma dessas conversas surgiu um dado que me parou: uma grande empresa produtora investe na casa dos R$ 50 por hectare, por ano, só em digital. Telemetria, sinal corrigido, gestão de praga, microclima, conectividade. Traduzindo para a língua do campo: aproximadamente meia saca de soja por hectare, por ano. Não é pouco. Mas o número não é o ponto. O ponto é o tempo. Eles levaram quase vinte anos para chegar até aqui.

E não chegaram por acaso. Chegaram por método.

A jornada teve ondas, e nenhuma foi pulada. Primeiro veio a aculturação: gente aprendendo a apurar custo por talhão, no detalhe. Depois a democratização da informação, quando o dado saiu da sala do escritório e foi parar no tablet do agrônomo no meio da lavoura, mesmo sem conectividade, sincronizando à noite. Veio o tempo real. Veio o banco de dados. E só agora, em 2026, com quase duas décadas de safras fidedignas na bagagem, é que a inteligência artificial entra em cena.

Repare na ordem. Cultura, processo, gente, tecnologia. Nessa sequência. Não dá para ter tecnologia sem processo. Não dá para ter processo sem gente. Não dá para ter gente sem cultura. Tudo isso anda junto ou não anda.

É aqui que mora o erro mais caro do agro brasileiro. A empresa que não tem maturidade digital e mesmo assim compra inteligência artificial não está inovando. Está queimando dinheiro. Pior: inteligência artificial rodando sobre dados desorganizados não resolve o problema, multiplica o problema. Você não tem um banco de dados. Você tem um bando de dados. E vai tomar decisão errada mais rápido do que antes.

Por que isso trava a adoção no país inteiro? Por vários fatores que se empilham.

Contas no campo

O primeiro é o ROI invisível. É fácil provar economia quando você aplica herbicida em metade do talhão e paga metade da conta. É difícil provar o valor da telemetria, que não reduz o diesel por mágica, reduz porque o operador, sabendo que está sendo monitorado, muda o comportamento. Como se coloca isso numa planilha? O produtor olha, não vê o retorno na ponta do lápis, e recua.

O segundo é a falta de integração. Usar tecnologia no agro hoje é como pedir comida num aplicativo, chamar o entregador em outro e pagar num terceiro. Cada solução resolve um pedaço e ignora o que vem antes e o que vem depois. A startup que não pensa em ecossistema quebra o elo. E o produtor fica com dez ferramentas que não conversam entre si.

O terceiro é o mais desconfortável. A tecnologia comprada não é a tecnologia usada. Olhe para o seu celular: são oitenta aplicativos instalados e meia dúzia usados no dia a dia. No campo acontece o mesmo. O produtor pagou por cem, usa cinco. Não porque é resistente. Porque a solução chega complexa demais e falta gente qualificada na ponta para fazer funcionar.

E aqui está o nó de tudo. O produtor não é avesso à tecnologia. Ele é avesso à tecnologia sem prova. Ele é São Tomé: quer ver para crer. Mostre um silo de três milhões de reais e ele encosta na chapa, sobe a escada, vê o grão guardado, confia. É tangível. Mostre três milhões em sistemas ou conectividade e ele pergunta: cadê o resultado?

O momento atual escancara essa conta. Nos anos de bonança, com preços nas alturas, a margem elástica perdoava tudo: o desperdício, a decisão no olho, o dado jogado fora. Quando o preço cai e o custo aperta, o jogo muda. Eficiência deixa de ser diferencial e vira condição de sobrevivência. E eficiência, hoje, se constrói com dado. A tecnologia nunca foi tão importante para manter a competitividade, justamente porque não há mais gordura para queimar.

E o aperto traz mais uma lição, talvez a mais dura de todas. Os dados sempre estiveram lá. Na colheitadeira, no pluviômetro, na nota fiscal, no talhão. O que faltou foi colher. Poucos colhem corretamente. E dado mal colhido não vira informação. Informação que não existe não vira conhecimento. E sem conhecimento não há crescimento, não há ROI.

O paralelo com a lavoura é exato. Assim como a colheita física perde grão por regulagem errada ou manejo atrasado, a colheita de dados perde valor por falta de organização. A safra de dados se baseia em micro detalhes: o horário da aplicação, a umidade do grão, o consumo por talhão, o comportamento do operador. Dado organizado, safra após safra. Um dado isolado é burro. É o acúmulo, cruzado ao longo de várias safras, que gera a inteligência, e é esse ativo que vai valorizar o agro e o produtor no futuro.

A resposta existe, mas é lenta e exige disciplina. Conheço um produtor de cana que mantém registros de chuva há mais de 80 anos. Ao longo de sete anos, esse produtor apurou que cada real investido em tecnologia devolveu dezenove. Um para dezenove. Mas veja: só foi possível porque alguém começou a organizar aquele dado décadas atrás e nunca deu um passo atrás.

Essa é a lição que trouxe do Mato Grosso. A pergunta não é quanto custa a tecnologia. É quando você começa. A melhor hora de organizar seus dados foi cinco anos atrás. A segunda melhor é agora.

Maturidade digital não brota da terra e não cai do céu. Ela se constrói, safra após safra, sem pular etapa e sem dar um passo atrás. Quem entender isso vai colher a próxima safra, a safra de dados. Quem esperar o atalho vai continuar rico em dados e pobre em conhecimento.

E, no agro que vem por aí, isso não vai ser suficiente.